Uma outra civilização

Após 30 anos da Revolução Islâmica, iranianos criticam mais a política interna do que a externa

Marcia Camargos*, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2009 | 00h03

Desço em Teerã e, no próprio aeroporto, dirijo-me ao setor de vistos. Entre 27 passageiros, sou a única mulher. Apresento a carta-convite e explico que pretendo esticar minha estadia para além da duração do Festival de Cinema Documentário. Pago uma taxa de 50 e aguardo a decisão dos funcionários da alfândega que gesticulam e falam em voz alta como se fossem napolitanos. Sufoco sob o lenço de lãzinha que teima em escorregar para os ombros e da capa de chuva grossa improvisada em hijab, mas espero sem reclamar. Afinal de contas, já dizia Manuel Bandeira em seu famoso verso sobre Pasárgada, lá é outra civilização. Aliás, o berço dela. Foi naquela área que viveram grandes astrônomos, matemáticos e cientistas como Avicena, cujas invenções espalharam-se pelo mundo com a islamização da Península Arábica, por volta de 650 d.C. Após 40 minutos pego meu passaporte de volta. As letras, nem procuro decifrar, mas em vão busco os números arábicos. Em vez deles enxergo traços, rabiscos, corações invertidos e um pontinho minúsculo que tomo por zero. Começam aí as especificidades que fazem do Irã um lugar diferente dentro do Oriente Médio. Herdeiro do poderoso Império Persa, com 70 milhões de habitantes, detém um peso econômico considerável ligado ao potencial energético, que vai do petróleo às usinas nucleares, e uma importância crescente na conjuntura internacional. Não importa a crença religiosa do indivíduo, ele tem que seguir à risca a sharia, a lei islâmica institucionalizada com mão de ferro desde a invasão do país pelas tropas de Saddam Hussein com o respaldo militar dos Estados Unidos, em 1980. O Irã destaca-se ainda pelo seu idioma, o farsi, língua de origem indo-europeia nascida na Província de Fars, de onde deriva o nome. Dialetos locais são falados nas regiões de origem, e ainda se ouve curdo, árabe e turco. E não, lá as mulheres não usam burca, apenas o chador, que esconde os cabelos, além de uma espécie de túnica sobre a roupa para disfarçar o contorno dos quadris. Bastante incômodo no calor desértico, o traje é obrigatório inclusive para as estrangeiras. Com o olhar atento, deixo o saguão de entrada. Lá fora me aguardava uma das monitoras do festival, com calça jeans apertada por debaixo da veste escura. Constato que elas capricham no visual respeitando as normas islâmicas. Sem o recurso de barriga, pernas ou braços à mostra, precisam atrair o sexo oposto pelo rosto, exageradamente maquiado desde o raiar do dia. Não é à toa que grande porcentagem de plástica no nariz ocorra neste trecho do globo terrestre.Descubro, no trajeto, como os iranianos apreciam o jogo de cores, dando aos seus monumentos um toque retrô. Dos cartazes de cinema às propagandas das lojas e grafites que relembram o realismo soviético, da frota antiga de automóveis à decoração interior de espaços públicos e residências, tudo remete aos traços ingênuos dos anos 50. A simpatia contagiante das pessoas também parece deslocada nestes tempos de hedonismo pós-moderno. A pressa ditada pelo ritmo alucinante da produtividade exigida dos ocidentais lá não faz o menor sentido. Na recepção do hotel na capital, tremulam flâmulas de todas as nações, com exceção da dos Estados Unidos, cuja ex-embaixada traz, nos altos muros externos, pichações yankees, go home. Está fechada desde novembro de 1979, quando seus 53 funcionários foram mantidos como reféns por 444 dias para pressionar a liberação dos recursos iranianos congelados. Apesar da tentativa fracassada de resgate no governo de Jimmy Carter, todos acabaram soltos após a eleição de Ronald Reagan, que, conforme alegam os iranianos, ofereceu uma compensação em armamento ao Irã. O isolamento reflete-se ainda na inexistência de cartão de crédito. As práticas máquinas que transacionam o dinheiro de plástico estão aposentadas. Ligações internacionais a cobrar, nem em sonho. Internet banda larga, só nos maiores hotéis e centros de convenção. Em plena época de globalização, persiste nas residências particulares a conexão discada, dificultando de propósito o acesso dos moradores ao exterior. Para os forasteiros, isso tem um saldo positivo. O Irã não foi invadido pelas hordas predatórias de turistas. Passeia-se pelos bazares ou ruínas milenares de beleza avassaladora sem aquelas multidões que infestam as Disneylândias do planeta. Preservado como poucos, o patrimônio arquitetônico do Irã arrebata até os mais cosmopolitas dos viajantes, que, para minha surpresa, são bem-vindos durante as orações dentro das mesquitas. Quanto à literatura, ela está tão arraigada na essência iraniana que poetas como Hafez e Saadi são reverenciados como santos. Seus mausoléus, em Shiraz, recebem multidões em piqueniques nos fins de semana e noivos no dia do casamento. Jovens autores despontam, mas obras como Persépolis, os quadrinhos de Marjane Satrapi, terminam proscritas por desenhar um retrato que expõe as fissuras do sistema. A comunicação se dá por diálogos truncados e alguma mímica, pois nem todos dominam o inglês, apesar dos esforços rasgados para agradar, fazendo jus à célebre hospitalidade persa. Após cinco minutos de conversa, convidam você para tomar chá em casa como se fossem amigos de longa data e ficam ofendidos com uma recusa. Nos restaurantes a comida não varia muito. Servem arroz com açafrão, tomate e cebola cozidos, além do espetinho de frango e carneiro. Tudo regado a Coca-Cola um tanto amarga para o paladar brasileiro. De nada adianta suspirar por uma reles taça de vinho. Bebida alcoólica está banida e não se aconselha escamotear garrafas na mala, que são escrutinadas ao se desembarc. No mercado negro, porém, e a preços proibitivos, é fácil adquirir qualquer coisa para as baladas da juventude de Teerã. Entre quatro paredes reina a permissividade de sexo, drogas e rock-n?-roll no regime que reprime música e demonstrações de afeto em público. Assim mesmo, eu esperava encontrar rebeldia ou oposição pacífica pelo menos contra o uso compulsório do véu. Afinal, as denúncias sobre a opressão feminina e o cerceamento à liberdade de expressão prosseguem ecoando com Shirin Ebadi, ativista ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2003. Só que a resistência se restringe aos exíguos limites do possível, com os aspectos mais visíveis no lenço engenhosamente fixado no meio da cabeça, expondo os fios tingidos e os reflexos de luzes. Nesse ponto, o cinema constitui outro paradoxo. Apesar do controle atento que examina, corta e aprova cada etapa da produção, os filmes iranianos alcançam números impressionantes e fazem sucesso no mercado internacional. Os cineastas independentes tentam burlar a censura, oferecendo seus DVDs sobre temas proibidos diretamente aos convidados. O primeiro que pego fala sobre a situação das prostitutas iranianas. O segundo trata da questão da homossexualidade, crime punido com a morte. PREGAÇÕESPercebe-se, então, quanto é arriscado questionar a ordem estabelecida, mesmo que ela aponte para sérias violações dos direitos humanos como a perseguição aos membros da fé bahá?i, a mais nova das doutrinas monoteístas. Na contramão das interdições impostas pela severa interpretação do Islã ali reinante, eles pregam a igualdade e o fim dos preconceitos de gênero e culto e por isso seus adeptos são sistematicamente presos e torturados. Já os seguidores de Zoroastro, ou Zaratustra, fundador do masdeísmo, remota religião persa, são tolerados e mantêm seus templos espalhados por diversas cidades. Aquela impressão de que você está de volta ao passado é constante na atmosfera, antiquada para os padrões ocidentais. No trânsito caótico, os automóveis tudo podem e tudo infringem. Não há regras claras nem obediência ao farol vermelho. Aquela lei da física pregando que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo foi abolida no Irã, onde os carros avançam juntos numa dança sincronizada, com raríssimas batidas. A desorganização é total, assim como as contradições. Nos ônibus, a parte de trás é reservada às senhoras, enquanto os homens sentam-se na frente, mas nos táxis coletivos tipo lotação todos e todas se espremem sem problemas. E para escapar da confusão e do barulho, a parcela endinheirada de Teerã refugia-se aos pés da Cordilheira do Alborz, com seus picos nevados durante os meses frios do inverno. Os prédios de apartamento da burguesia emergente são erguidos num estilo neoclássico, com profusão de enfeites pesados e quase dramáticos. Em contrapartida, favelas não existem, os pobres moram decentemente em conjuntos habitacionais ou casas humildes. Todos têm acesso ao ensino e as mulheres representam a metade dos estudantes universitários. Tampouco se veem crianças ou velhos mendigando pelas esquinas. A segurança é absoluta, numa sociedade policialesca que pune de maneira radical até os pequenos delitos. Ao longo do caminho, desconhecidos cercam os visitantes para saber as novidades do "lado de lá". Em geral, reclamam das interferências do Estado nas escolhas individuais, mas admiram a política externa do ultraconservador presidente Ahmadinejad. A fração mais bem informada dos centros urbanos aplaude a coragem do ex-prefeito de Teerã no enfrentamento com as potências ocidentais em defesa do programa nuclear iraniano, mas no âmbito doméstico o veem como um líder retrógrado e intelectualmente limitado. Em cartazes gigantescos ou nas paredes externas dos edifícios, imagens de soldados anônimos, heróis da guerra contra o Iraque, além das efígies dos aiatolás Khomeini e Khamenei, são onipresentes. Os suportes variam, mas suas figuras pairam sobre a população que entoa um trecho do hino nacional e cânticos do Alcorão antes de qualquer cerimônia oficial. Por isso torna-se importante saber que, diferentemente de 90% dos muçulmanos, eles não são sunitas e sim xiitas, nome que deriva de Shi? at-Ali, ou "seguidores de Ali". Dizem que compreender tal estado de espírito é essencial para o entendimento desse país tão fascinante quanto contraditório, cuja síntese se resume num velho ditado nativo: "No Irã, tudo o que se vê não é, e tudo o que é não se vê". *Marcia Camargos é autora, entre outros livros, de A Travessia do Albatroz (Nova Fronteira/Geração). Prepara um livro-reportagem sobre o Irã com a jornalista do Estado Adriana CarrancaTERÇA, 10 DE FEVEREIROAproximação com os EUA Nas comemorações dos 30 anos da revolução que transformou o Irã numa república islâmica, o presidente Ahmadinejad apresenta aos EUA uma proposta de diálogo. Barack Obama já se dissera disposto a uma reaproximação com Teerã.

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