Uma peça macabra

Antes do levante, o teatro já era quase uma ilusão na Síria. Agora os artistas estão indo embora Reminiscências

OTAVIO CURY É CINEASTA. SEU FILME , CONSTANTINO SERÁ LANÇADO EM JUNHO, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h11

OTAVIO CURY

Quer ouvir uma piada sobre Homs? A terceira cidade da Síria sempre foi alvo de gracejos por parte dos habitantes de Damasco. Um humor como o que temos em relação aos portugueses: de que os que são de Homs não entendem bem as coisas. Eu ouvia essa pergunta frequentemente em 2009, quando passei três meses na Síria produzindo um documentário sobre a obra de meu bisavô, um poeta e dramaturgo que viveu em Homs pelos idos de 1890. No tempo dele, o teatro era proibido: as autoridades islâmicas não permitiam a representação da figura humana em um palco.

Meu bisavô, Daud Constantino Al-Khoury, fez parte de uma geração que ficou conhecida como Renascença Árabe, a primeira a produzir textos em árabe depois de séculos de escuridão cultural sob os otomanos. Ele foi professor nos colégios ortodoxos de Homs e ali começou a ensaiar os primeiros textos de teatro de que a cidade ouvira falar. Encenadas no colégio por meninos nos papéis femininos, as peças ofereciam pouco perigo para a fechada sociedade da época.

Na produção do meu filme Constantino, trabalhei com atores e dramaturgos de Homs e Damasco e pude conhecer o que se passava no teatro sírio no início do século 21. Pouca coisa parecia ter mudado depois de cem anos. O teatro era controlado pelo governo. Qualquer peça, de escola ou independente, tinha que ser aprovada pelos órgãos de censura do regime. Em Damasco, em 2009, foram levadas aos palcos menos de dez produções que podem ser chamadas de profissionais. Numa das peças que acompanhei, uma comédia de costumes, um policial do serviço de informações andava bêbado pela plateia, molestando os presentes. Em Homs, uma cidade de 1 milhão de habitantes, todos os três teatros estavam havia tempo fechados para reforma. Assim era o teatro sírio antes das revoltas por liberdade.

Com o início dos combates, não pude mais voltar à Síria. O contato pelo Facebook com sírios que conheci acaba sendo minha fonte de informações. Soube que muitos artistas deixaram o país para evitar problemas com o governo, ou depois de receberem ameaças. Outros que ficaram foram presos em suas casas ou durante manifestações. Em Damasco, teatros do governo continuam a programar espetáculos, tentando passar a ideia de que as coisas estão sob controle. Já em Homs, o cenário é outro. "Estava fumando com um grupo de amigos quando ouvimos uma explosão. Um prédio havia sido atingido, mas não sabíamos de onde tinha vindo o ataque. Vimos um andar inteiro ruir e corremos, com outras pessoas, para ajudar as famílias dentro do prédio. Não sei o que me atingiu primeiro, se foram tiros dos snipers ou a explosão de um morteiro. Acordei dentro de uma mesquita, havia corpos por todos os lados. Tenho 20 ferimentos pelo corpo inteiro, não sei se conseguirei andar de novo." O relato é de Yussef, um morador local que me ajudou na produção do filme. Ele foi ferido em um dos ataques, ocorrido em 4 de fevereiro. Mais de 100 mortos e 400 feridos.

Pois foi ali, na cidade meio caipira de Homs, que se organizou a maior resistência contra o regime. Com o governo Assad impedindo a entrada de jornalistas internacionais, o que nos chega é a crônica de um extermínio anunciado: 100, 200 mortos por dia, a cidade cercada e com falta de medicamentos e suprimento básicos. Uma peça macabra que assistimos no escuro. Independentemente do destino que aguarda a cidade de meu bisavô, ela já não será mais motivo de piada.

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