Uma questão de vida e dívida

Não há como superar a crise só com a subida das bolsas. Os ferimentos romperam o equilíbrio moral

Margaret Atwood*, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 21h48

Na última semana o crédito começou a afrouxar, os mercados acionários foram estimulados o suficiente para recuperar o terreno perdido (ao menos por enquanto) e há uma visão coletiva de esperança de que os emprestadores começarão a confiar novamente no sistema financeiro.Mas estaremos nos iludindo se acharmos que podemos nos recuperar da crise de 2008 tão fácil e rapidamente, apenas observando o índice Dow Jones se arrastar para cima. Os ferimentos foram muito mais profundos. Para curá-los, precisamos consertar o equilíbrio moral rompido que causou esse caos.Dívida - quem deve o quê a quem, ou a quê, e como essa dívida será paga - é um tema muito mais amplo que dinheiro. Tem a ver com nosso sentido básico de eqüidade, um sentido que está embutido em todos os nossos intercâmbios com nossos semelhantes.Mas, em algum ponto, deixamos de ver dívida como uma simples relação pessoal. O fator humano ficou diminuído. Talvez isso tenha tido algo a ver com o volume das transações que os computadores permitiram. Mas parece que esquecemos que o devedor é apenas um de gêmeos siameses. O outro gêmeo é o credor. O edifício todo repousa sobre alguns princípios fundamentais que nos são inerentes.Somos criaturas sociais que precisam interagir para mútuo benefício, e - a versão negativa - alimentamos rancores quando sentimos que fomos tratados de maneira injusta. Sem algum senso de justiça e um pouco de confiança, sem altruísmo recíproco contrabalançado pelo olho-por-olho-dente-por-dente (o bem com o bem se paga, o mesmo com o mal ), ninguém jamais emprestaria nada, pois não haveria a expectativa de ser reembolsado. E as pessoas mentiriam, enganariam e roubariam à vontade, pois não haveria punições para tal comportamento.As crianças começam dizendo "Isso não é justo" muito antes de começaram a imaginar o dinheiro. Elas trocam favores, brinquedos e socos desde cedo na vida, estabelecendo taxas de câmbio próprias. Quase toda interação humana envolve contrair dívidas. Se forem pagas, o equilíbrio é restaurado; se não forem, as pessoas ficam furiosas. Um exemplo simples: você está em seu carro e dá passagem a outro carro. Se o motorista não fizer um aceno de cabeça ou de mão, ou não der uma buzinadinha, como você se sente?Quando se observa a vida por esse ângulo, as relações devedor-credor atuam de maneiras fascinantes. Em muitas religiões, por exemplo. A versão da oração Pai Nosso que aprendi quando criança tinha a frase "perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores". Em aramaico, a língua falada por Jesus, a palavra para "dívida" é a mesma para "pecado". E embora muita gente suponha que "dívida" nesse contexto religioso se refira apenas a dívida ou transgressão de caráter espiritual, dívida também é considerado pecado. Se você não pagar o que deve, estará fazendo mal a outros.A relação essencial entre dívida e redenção está refletida no pós-vida previsto em muitas religiões, em que crimes não punidos neste mundo recebem punição no outro. Por exemplo, o inferno, na Divina Comédia, de Dante, é o lugar onde aqueles em tormento lembram de absolutamente tudo, enquanto no céu você se esquece de si mesmo e de quem lhe deve US$ 5 para dedicar-se à contemplação do Ser altruísta.Laços devedor-credor são fundamentais também nas tramas de muitos romances - em especial nos do século 19, quando os ciclos de expansão e retração da indústria e o capitalismo sem freios eram fenômenos novos e assustadores, e arruinaram muitos. Essas histórias falam do que acontecia quando não se pagava ou não se podia pagar e as punições oficiais iam da prisão de devedores à escravidão por dívida.Em A Cabana do Pai Tomás, por exemplo, seres humanos são vendidos para saldar dívidas contraídas de maneira precipitada. Em Madame Bovary, uma esposa provinciana se entrega ao amor e ao sexo extraconjugal como fuga do tédio, mas também - mais perigosamente - por gastar demais. Ela se envenena quando seu credor não pago ameaça expor sua vida dupla. Se Emma Bovary tivesse aprendido a contabilizar entradas e saídas e fazer um orçamento, poderia facilmente ter continuado com seu hobby de adultério.Lily Bart, em A Casa da Felicidade, não consegue ver que se um homem lhe empresta dinheiro e não cobra juros vai querer algum outro tipo de pagamento.Quanto ao que vai nos acontecer em seguida, não tenho respostas garantidas. Se regulamentações justas forem estabelecidas e a credibilidade, restaurada, as pessoas deixarão de andar atarantadas, arregaçarão as mangas e começarão a juntar os pedaços. Coisas não relacionadas a dinheiro serão mais valorizadas - amigos, família, um passeio no bosque. À medida que as pessoas perceberem que existe algo chamado bem comum, haverá menos "eu" e mais "nós".Por outro lado, se regulamentações justas não forem estabelecidas e a reconstrução parecer impossível, poderemos ter uma agitação social numa escala como há muito não se via.Haverá algum lado bom nisso tudo? Talvez tenhamos uma folga para respirar. Uma chance de reavaliar objetivos e nos interessar por nossa relação com o planeta vivo do qual tiramos todo sustento e sem o qual as dívidas acabarão não tendo importância. *Margaret Atwood é autora de A História da Aia (Marco Zero)) e, mais recentemente, Payback: Debt and Shadow Side of Wealth (House of Anansi Press). Escreveu este artigo para The New York Times

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