Uma revolução muito britânica

Na crise das falsas despesas, não basta mais mudar a guarda: ingleses não querem desculpas, querem cabeças

Seumas Milne, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 22h35

O que começou como um escândalo político descambou em uma crise avassaladora de todo o sistema político da Grã-Bretanha. Não há dúvida de que a renúncia do presidente da Câmara dos Comuns já devia ter ocorrido há tempo. Mas se os parlamentares imaginam que ao eleger Michael Martin bode expiatório dos próprios trambiques aplacarão a revolta popular, eles estão sonhando. As revelações a conta-gotas das manobras em causa própria alargaram o abismo entre a elite política e o público que já vinha se abrindo havia duas décadas: o produto do estreitamento das escolhas políticas, da profissionalização da política, das falsidades desavergonhadas do governo sobre guerra e paz e do colapso financeiro devastador.

Agora, tanto a classe governante como a empresarial britânicas estão desacreditadas. E o que o London Daily Telegraph, orquestrador dos vazamentos sobre despesas, chamou na quarta-feira de "uma revolução muito britânica" vai ter de ir muito além de uma mudança de guarda num posto em grande medida cerimonial, de falso palavrório feudal, para acalmar os cavalos. Gordon Brown ao menos parece perceber vagamente o que precisa ser feito. Durante uma quinzena, ele ficou um passo atrás do líder da oposição conservadora, David Cameron, na resposta às revelações - seja em desculpas, sanções a parlamentares ou cobrança de reembolso. Na última terça-feira, ele recebeu um "pontapé como nunca havia recebido" da executiva nacional trabalhista sobre sua inércia, como expressou um membro do partido.

Agora ele agiu suspendendo alguns dos piores infratores, apresentou planos para acabar com a autorregulação parlamentar, criou a própria Star Chamber (instância legal do séc. 17 destinada a alcançar poderosos que os tribunais comuns não alcançavam) para investigar seus parlamentares transviados, e declarou que "muitos" parlamentares terão de se afastar em consequência. Mas o público não quer desculpas, cheques ou promessas de novos inquéritos - quer cabeças numa bandeja, sem mais demora. É por isso que a única maneira de restaurar alguma confiança nos parlamentares trabalhistas - os mais prejudicados pelo escândalo - é empreender uma rodada abrangente de novas seleções por partidos locais.

Para evitar o tipo de manobra de funcionários regionais que lotou o Parlamento de clones do Novo Trabalhismo, os procedimentos normais teriam de ser abertos. Mas submeter todos, salvo os parlamentares mais impolutos, a um novo processo de seleção ofereceria a chance tanto de reviver a democracia local como de substituir alguns arraigados políticos de carreira por candidatos da classe trabalhadora mais independentes e enraizados.

Isso também colocaria os tories (conservadores) na defensiva. Cameron se sentiria obrigado a acompanhar - e se arriscar não só a perder aliados próximos no processo, mas a um recuo de associações conservadoras locais, que já deixaram claro que não têm nenhum apetite para rejeitar parlamentares, por mais indignos que tenham sido seus negócios da segunda moradia. Mas Brown continua vacilando em demitir sua secretária para comunidades Hazel Blears, por conta das lucrativas despesas dela, fazendo saber que tem "plena confiança" nela enquanto ao mesmo tempo descreve seu comportamento como "absolutamente inaceitável".

Mas um expurgo de infieis claramente não basta. O que virou uma crise da democracia só pode ser superado com um programa de reforma democrática. Tanto os partidários de Brown como os de Tony Blair no gabinete estão falando agora em lançar uma convenção constitucional para reformar toda a estrutura política, abarcando desde eleição na Câmara dos Lordes e seletas comissões independentes para reforma eleitoral a uma reforma do financiamento partidário.

Tudo que torne o sistema transparente e elimine a eterna complacência britânica com a "mãe dos Parlamentos" deve ser bem-vindo. Mas consertos tecnocráticos não resolverão sozinhos o problema. A menos que a democracia parlamentar signifique escolhas, ela não faz sentido. O legado do Novo Trabalhismo é uma disputa sobre opções políticas e econômicas as mais estreitas, regida por máquinas partidárias altamente centralizadas em que a democracia interna murchou e os membros do partido se distanciaram.

Não há nenhuma razão para qualquer uma das reformas que estão sendo discutidas superar automaticamente essa herança funesta. A menos que novos partidos possam quebrar o monopólio político existente - uma montanha a galgar no sistema eleitoral de maioria relativa, mesmo nas atuais circunstâncias -, isso requereria o fim do controle partidário autoritário, espaço para o pluralismo interno e o direito local de escolher livremente candidatos à eleição.

Para os trabalhistas, em particular, essa sublevação significaria uma reconstituição do partido. Mas sem uma mudança profunda no tipo de gente que é escolhida como parlamentar e o reencontro entre eleitores e eleitos, sustentado por um direito de recall, esta crise de representação não será superada.

Não há razão para se pensar tampouco que convocar uma eleição geral antecipada - como agora pedem os conservadores e os liberal-democratas - resolveria o problema. Até que os partidos tenham se livrado de seus representantes mais dissolutos, o resultado mais provável seria uma série de referendos de corrupção e não disputas sobre programas e políticas, com a proliferação de candidatos celebridades e de "mãos limpas" provocando uma enxurrada conservadora num comparecimento historicamente baixo na votação.

A crise política desencadeada pelo escândalo das despesas na Câmara dos Comuns está em si ligada à crise econômica que a precedeu. Ambas são o produto de um modelo econômico que não permitiu nenhuma alternativa, foi construído sobre a avidez e levou as pessoas a se verem mais como consumidoras que como cidadãs. E como no caso do crash econômico, o derretimento constitucional cria oportunidades e perigos para políticos progressistas e radicais.

Ao provocar o acirramento de um antigo descalabro da política dominante num momento em que o sistema econômico é visto como falho, a crise oferece uma chance de acabar com os cartéis políticos confortáveis que a sustentaram, e criar novas alianças para uma efetiva mudança de direção. Tudo está potencialmente em jogo, incluindo a sobrevivência dos partidos em sua forma atual. Se Brown fosse capaz de aproveitar o momento, o governo determinaria a direção da reforma.

Mas ainda existe o risco de que a fúria contra as bufonarias da classe política possa alimentar uma atitude reacionária que rejeita a ideia de que a política possa melhorar as vidas das pessoas e abraça o apelo por um Estado pequeno numa época de retração. Não surpreende que o governo esteja febril. Como um aliado próximo do primeiro-ministro me disse outro dia, "existe um vazio perigoso. Se a elite governante não aproveitar a oportunidade, o povo a derrubará".

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