Uma rocha repleta de rachaduras

McCain é idoso. Este é o menor de seus problemas, agora que até a mídia conservadora se rendeu ao carisma de Obama

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2008 | 21h05

Dá para acreditar numa vitória de John McCain em novembro? Depende de quem você lê e com quem você conversa. Como uma chusma de conservadores e republicanos insatisfeitos já se bandeou para as hostes de Barack Obama, ficou difícil encontrar um interlocutor confiável, vale dizer, um eleitor otimista, mas franco, de McCain. As pesquisas de intenção de voto continuam desfavoráveis ao senador do Arizona, e tendem a piorar quando os dois candidatos iniciarem seus debates pela televisão, pois, como é sabido até nas neves do Kilimanjaro, Obama é o maior orador político americano da atualidade. A boa notícia para McCain é que, desta vez, ele está bem à frente do partido nas preferências do eleitorado. "Que partido você preferia ver ocupando a Casa Branca?", perguntou uma enquete recente da NBC News e do Wall Street Journal. O Democrata ganhou com 16 pontos de diferença. Obama, porém, só venceu McCain, na mesma pesquisa, por seis pontos. A má notícia é que o Partido Republicano afundou tanto nos últimos dois anos, que nem gritando "Shazam!" McCain conseguiria pular o muro para o lado de fora. Aqui e ali, em blogs cada vez mais escassos e publicações graniticamente direitistas, uma voz esperançosa emerge do breu pessimista. Sim, McCain é velho, mas parece uma rocha, um carvalho, não um caniço ou um galgo como Obama, que de fato é um sujeito atraente, mas sem substância, jamais aquele a quem você recorreria numa situação de perigo, ponderou no Daily Standard de quarta-feira a colunista Noemie Emery, que, suponho, muito deve ter-se contido para não usar as metafóricas "3 horas da manhã" daquele infame spot publicitário da candidatura Hillary Clinton. Emery anda atônita com os estragos feitos na horta republicana pelo que seu colega Mark Halperin, da revista Time, batizou de "Charisma Machine", ou seja, a máquina de carisma que atende pelo nome de Barack Hussein Obama Jr. E, por tabela, na reputação de McCain, que, além de idoso, seria um mero sucedâneo de George Bush. Toda vez que o candidato republicano ouve ou é informado de que seu adversário o chamou de "Bush III", xinga-o de mentiroso. Como mentiroso, se em 2005 o próprio senador declarou-se orgulhoso de concordar integralmente com Bush "nas questões mais importantes e transcendentais"? Aliás, está fazendo hoje três anos que McCain jactou-se de sua sintonia com o presidente, no programa da NBC Meet the Press, aquele cujo principal moderador, Tim Russert, morreu de infarto na sexta-feira. A jactância de McCain seria um bom assunto para a coluna de Noemie Emery, se ela se interessasse por expor as rachaduras de sua rocha. Como seria uma boa pauta para o Wall Street Journal - que tão pressurosa e competentemente denunciou o chefe do comitê de seleção dos candidatos a vice de Obama, James Johnson - a atuação condenável do conselheiro econômico de McCain, o ex-senador Phil Gramm, no mundo financeiro de Nova York. Mas não deve dar proveito ao atual proprietário do WSJ, Rupert Murdoch, chamar atenção para os pecadilhos republicanos. A não ser que, dia desses, Murdoch também decida levar ouro, incenso e mirra para o delgado filho de Ann Dunham.Se até o WSJ se deixar seduzir pela "Charisma Machine", os desafetos de Obama e os apóstolos de McCain terão de se contentar com a Fox News, vulgo Faux News. Não, não, alto lá! A Fox News também pertence ao magnata australiano. Se o WSJ entregar os pontos, o canal de notícias terá de mudar sua linha editorial e até demitir suas estrelas mais escrachadamente comprometidas com a escória do conservadorismo. A Fox News não precisa apoiar nem poupar Obama das críticas a que fizer jus, mas insultá-lo, a ele e seus familiares, e distorcer suas palavras, como vem fazendo, é, acima de tudo, um desrespeito ao jornalismo. Em menos de três semanas, a Fox News fez três falsetas com o candidato democrata - ou "referências inapropriadas" ao senador por Illinois, para ser fiel ao eufemismo utilizado pela emissora nos sucessivos pedidos de desculpa que se viu obrigada a pôr no ar. Durante uma discussão sobre ataques políticos a Obama entre a colunista conservadora Michelle Malkin e a âncora da emissora Megyn Kelly, uma legenda com os dizeres "Outraged Liberals: Stop picking on Obama?s Baby Mama!" (Liberais injuriados: Parem de azucrinar a mamãezinha de Obama!) corria solta no rodapé da imagem. Daquela vez a desculpa foi para Michelle Obama, mulher do senador, que considera um insulto ser chamada de "baby mama" do marido.Dias antes, o âncora E.D. Hill tivera de pedir desculpas a Obama e aos telespectadores por haver dito que o candidato democrata festejara seu triunfo em St. Paul, no dia 3, fazendo uma "saudação terrorista", calúnia, de resto, aplicável a qualquer jogador que comemore uma vitória esticando o braço com o punho cerrado. Na semana anterior, Liz Trotta, analista política do canal, lamentara uma graçola de mau gosto sobre um possível atentado contra Obama, a partir daquela infausta alusão de Hillary ao assassinato de Robert Kennedy, em junho de 1968. O governador do Arkansas Mike Huckabee, derrotado por McCain nas primárias republicanas, cometeu a mesma gafe num convescote da National Rifle Association, a agremiação dos americanos que adoram armas e dar tiros. Por não ter satisfações a dar ao distinto público (ou achar que não as tem), Huckabee, ao contrário de Hillary e Liz Trotta, eximiu-se de um mea culpa. Dentro em breve, suas zombarias não mais passarão impunes. Como novo contratado da Fox News, que também já acrescentou Karl Rove e Newt Gingrich a seu quadro de comentaristas políticos, Huckabee terá plena liberdade para importunar Obama, mas, se exagerar na dosagem, não se livrará de um sempre humilhante pedido de desculpa.

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