Uma visão realista do vencedor

Mais importante do que a cor do futuro presidente é como ele atacará os graves problemas dos EUA

Kenneth Serbin*,

10 de novembro de 2008 | 13h15

A eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos simboliza importantes mudanças históricas. No ano crucial de 1968, um homem branco assassinou Martin Luther King, em plena luta dos negros americanos pela conquista dos direitos civis. Com a ascensão de um negro ao cargo mais poderoso do mundo, o ano de 2008 poderá ser lembrado como o momento em que o conceito de diversidade triunfou nos EUA e fez com que se acreditasse, como disse Obama, que "tudo é possível". Veja também: O fim da mentira piedosa A face da nova geração Oliver Stone, o ensolarado Na euforia mora o perigo As duas Américas  Mas a maioria dos americanos não procura um salvador da pátria e os próprios assessores de Obama, já procurando baixar o grau de expectativas a respeito de sua presidência, advertiram, imediatamente depois da eleição, que o novo presidente enfrentará problemas imensos que exigem soluções de longo prazo. Portanto, é conveniente que olhemos sem esperanças exageradas para Obama e para a situação que ele herdará depois da posse, no dia 20 de janeiro de 2009. COMO ELE GANHOU Mais importante do que a cor de Obama, é como ele ganhou. Uma análise do Instituto Gallup afirmou que a disputa entre Barack Obama e John McCain "foi extremamente competitiva durante boa parte do ano", e Obama esteve freqüentemente em ligeira vantagem. McCain passou à sua frente no início de setembro e pareceu ganhar impulso, mas depois da maciça crise do crédito e do colapso das Bolsas, Obama abriu uma vantagem substancial. Um dos fatores determinantes na eleição revelou-se também ser um dos mais tradicionais: a economia. Os acontecimentos perturbadores dos meses de setembro e outubro e o início ameaçador da recessão tornaram muito fácil para os eleitores acompanharem o padrão histórico, rejeitando o partido no poder. Obama pôde aproveitar-se dos grupos novos e emergentes do eleitorado. Segundo um informe da Associated Press sobre os resultados de boca-de-urna dos eleitores, "a fórmula da vitória de Obama incluiu uma coligação de mulheres solteiras, minorias e jovens brancos". Obama recebeu 67% dos votos dos hispânicos,uma considerável virada dos democratas, uma vez que o presidente George W. Bush recebeu um recorde, para um republicano, de 44% dos votos desse grupo em sua disputa para a reeleição, em 2004. Como a porcentagem dos hispânicos no eleitorado aumentou, eles passaram a ter um peso maior em eleições presidenciais. Obama ganhou também entre os eleitores independentes, outro segmento muito importante, porque nem democratas nem republicanos constituem a maioria. Obama levou mais democratas às urnas eleitorais do que McCain e os republicanos conseguiram para o seu partido. Ao contrário do Brasil, onde o voto é obrigatório, os EUA não exigem sequer o registro do eleitor. Os candidatos americanos precisam gastar fortunas em recursos e trabalho para conseguir que as pessoas decidam a sair de casa no dia das eleições. Graças, pelo menos em parte, a Obama e aos esforços dos democratas, esta eleição registrou um comparecimento quase recorde de eleitores. Um especialista calculou que 133,3 milhões de pessoas votaram, ou 62,6% dos eleitores inscritos. Na eleição de 1964, foram às urnas 62,8% dos eleitores inscritos.  Mas as pesquisas indicam que Obama não foi na realidade a causa do aumento do entusiasmo do eleitorado. O Gallup mostrou praticamente o mesmo grau de interesse nas eleições presidenciais de 2004 e nas deste ano, pois também no pleito passado as pessoas acreditavam que havia muita coisa em jogo. Esses dois ciclos eleitorais se contrapõem ao de 2000 e particularmente ao de 1996, quando o entusiasmo foram muito menores. Os ataques de 11 de Setembro, a Guerra no Iraque e uma crescente preocupação com o futuro do país provavelmente contribuíram para o aumento do interesse. Entretanto, a participação dos jovens cresceu substancialmente - 2,2 milhões de eleitores a mais. MARKETING DE MASSA  Obama é fotogênico e usou a TV, inclusive comerciais de meia hora, provavelmente mais do que qualquer outro candidato da história. Ao contrário do que ocorre no Brasil, nos EUA não há horário eleitoral gratuito na TV. O candidato tem o tempo que pode pagar. Obama dominou John McCain de forma esmagadora nesse aspecto. Para alguns, ele lembrou John F. Kennedy, e seu estilo oratório inspirador evocou o poderoso e icônico discurso de Martin Luther King: "Eu tenho um sonho". Por meio da televisão, Obama reforçou sua imagem de sucessor dos dois líderes mais amados e decisivos dos EUA. Obama usou efetivamente outras tecnologias da comunicação como as mensagens na internet e torpedos. A presença quase total destas tecnologias nos EUA implicou que Obama pôde entrar na vida dos eleitores de um modo pessoal, e atingir particularmente as gerações mais jovens, que cresceram usando esses aparelhos. McCain, por pertencer a outra geração, mostrou pouco interesse pelas novas mídias. Ou talvez simplesmente não dispusesse de recursos suficientes para isso. O marketing de massa de Obama foi possível graças ao dinheiro. Um dos fatos mais impressionantes da eleição foi como ele pagou sua campanha. Em geral, os republicanos dispõem de contribuições maiores para essa finalidade, mas dessa vez Obama arrecadou oito vezes mais do que McCain. O candidato republicano, que defendia a reforma do sistema de financiamento das campanhas, optou por utilizar o programa federal de verbas, e teve de limitar-se a US$ 84 milhões de gastos. Obama não manteve sua própria promessa de usar o programa, e pôde arrecadar um recorde de US$ 668 milhões em doações particulares. Para melhor ou pior, o financiamento público das campanhas presidenciais agora acabou nos EUA, porque nenhum outro candidato irá querer se sujeitar a tais restrições, depois da enorme arrecadação de Obama. A campanha do presidente eleito ressaltou que a maior parte dos seus recursos veio de pequenos donativos pela internet, mas segundo uma análise de Bradley Smith, ex-diretor da Comissão Federal Eleitoral, "se toda pequena contribuição, como quer que seja definida, fosse retirada da campanha de Obama, ainda assim ele teria arrecadado mais dinheiro com as grandes contribuições do que qualquer candidato antes dele - e por uma margem considerável". Assim, a idéia de que todo esse dinheiro dos grandes doadores não influiu muito na campanha de Obama não é precisa. Uma questão que exige ser esclarecida é a legitimidade do sistema de doações pela internet. Supõe-se que cada campanha verifique a origem das doações, mas é difícil imaginar que seja possível manter um controle cuidadoso de milhões de transações canalizadas mediante um veículo de comunicação cuja falta de controle é notória. A revelação, no dia 6 de novembro, de que uma entidade estrangeira invadiu os computadores dos quartéis-generais de Obama e de McCain em junho e tentou obter informações importantes mais uma vez ressalta essa vulnerabilidade.  INDAGAÇÕES SOBRE DOADORES O jornalista investigativo Kenneth Timmerman levantou inquietantes indagações sobre o sistema de Obama, conforme foi divulgado no site Newsmax.com. Ele descobriu que a Comissão Federal Eleitoral recebeu informações sobre doações do exterior no valor de US$ 33,8 milhões, e talvez mesmo US$ 63 milhões, passíveis de contestação, que aparentemente provieram de conversões de moedas estrangeiras. Os assessores de Obama não revelaram os nomes dos doadores, e muitas doações de milhares de dólares tinham aparentemente nomes fictícios; um doador identificou-se como "King Kong". Segundo Timmerman, duas mil doações ultrapassaram os US$ 2.300 permitidos por pessoa. A mídia, que em geral não critica Obama, não as investigações. O que chamou a atenção foi o relacionamento de Obama com entidades que ajudaram a provocar o pânico financeiro. Nos últimos dez anos, ele foi o segundo maior beneficiário de doações da Fannie Mae e do Freddie Mac, as corporações de crédito financeiro imobiliário que o governo encampou no início da crise. Obama recebeu US$ 126.349 em contribuições de campanha (McCain foi o 62º da lista, com US$ 21.550). O ex-presidente da Fannie Mae foi assessor de Obama até ser obrigado a renunciar ao cargo, em junho. O deputado Rahm Emanuel, que será o chefe de gabinete de Obama, recebeu US$ 51.750 da Fannie e do Freddie. Emanuel, funcionário do governo do presidente Bill Clinton, com fama de ser democrata da linha-dura, ganhou US$ 16 milhões como executivo de bancos de investimentos que cuidavam de fusões e de aquisições. O próprio New York Times, que é pró-Obama, observou que Emanuel "é criticado por ter se mostrado demasiadamente aliado de Wall Street, lembrando que não é absolutamente essa a imagem que os democratas querem cultivar hoje em dia". OS DESAFIOS DO GOVERNO Ainda mais importante do que a cor de Obama é como ele governará e atacará os graves problemas dos EUA. Em primeiro lugar, é importante lembrar que Obama era um senador que, quando se candidatou à presidência, estava apenas começando o seu mandato. Passou direto os dois últimos anos fazendo campanha. Obama montou sua campanha com uma plataforma de "mudança", mas não explicou exatamente o que pretende mudar no país, além de aumentar os impostos sobre as rendas maiores, modificar o sistema de assistência médica, e pôr fim à guerra no Iraque. A campanha revelou o sucesso com que ele se tornou parte da estrutura política e soube manipulá-la. O que não surpreende, considerando a ascensão de Obama na elite intelectual por ter cursado a Universidade de Colúmbia e a Faculdade de Direito de Harvard. Estes fatores, juntamente com a possibilidade de associar-se inicialmente aos auxiliares de Clinton, sugerem que o estilo de governo de Obama, em si, não representará algo novo. No plano internacional, Obama terá de cumprir sua promessa de campanha de que retirará as tropas americanas do Iraque. Isso talvez seja bastante fácil, porque o aumento das tropas, ordenado pelo presidente Bush para combater os rebeldes naquele país, reduziu a violência no Iraque, tornando uma retiradapoliticamente mais viável . Em termos geopolíticos, entretanto, uma rápida retirada poderá ser arriscada por causa do vazio de poder que poderá deixar para trás. Obama falou de um retorno a uma ênfase maior na diplomacia no campo da política externa. No governo Bush, o pêndulo inclinou-se claramente na direção oposta. Mas permanece a questão: até que ponto a diplomacia será eficiente para impedir o terrorismo e a proliferação nuclear? Além disso, Obama continuará sendo comandante-chefe das forças armadas mais poderosas e sofisticadas do mundo, e a história dos EUA e a necessidade do mundo de ter uma força "policial" poderão levá-lo a determinar ações militares com menos relutância do que poderia desejar. No plano nacional, Obama terá de tratar imediatamente da recessão, e o que é mais significativo, das debilidades estruturais da economia: os déficits comerciais, os déficits do orçamento federal, a persistente desindustrialização, a transferência para o exterior dos empregos da classe média, a crescente dependência de serviços financeiros e da assistência médica como cerne da economia, e a crescente competitividade dos países em todo o mundo, principalmente os da Ásia. Com uma maioria historicamente rara dos democratas em ambas as casas do Congresso, Obama terá de resistir às inevitáveis reivindicações de novos programas e de gastos, caso contrário comprometerá ainda mais a estabilidade fiscal e financeira. O governo Bush começou a se preparar para fazer frente à ameaça representada pela expansão da China, mas os ataques de 11 de Setembro deixaram a China em segundo plano. Obama, quase certamente, terá de encontrar soluções para os problemas do déficit comercial dos EUA com o país asiático, com seu peso crescente no aumento da dívida americana, e sua capacidade militar cada vez maior. Na realidade, a China poderá se tornar uma mistura explosiva de questões políticas externas e internas e o maior teste de Obama na revitalização da nação.  *Kenneth Serbin leciona história na Universidade de San Diego. É autor do livro Padres, Celibato e Conflito Social: Uma História da Igreja Católica no Brasil (Companhia das Letras)

Tudo o que sabemos sobre:
Barack Obama

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.