Andrea Comas/Reuters
Andrea Comas/Reuters

Umberto Eco fez previsões sobre o mundo atual em 'A Passo de Caranguejo'

Coletânea de artigos do autor italiano anteviu o retrocesso político, a guerra e o ambiente nefasto das redes sociais

Elias Thomé Saliba, Especial para o Estadão

23 de abril de 2022 | 16h00

“Nunca ninguém tratou da posmonição, que é também um fenômeno extraordinário. Pois bem, eu tenho este dom, mas até agora o tinha mantido em segredo, com medo de me expor a ironias e gozações”. Sempre com este humor desconcertante Umberto Eco começa um dos seus muitos artigos, reunidos na coletânea A passo de caranguejo; guerras quentes e o populismo da mídia. Escritos entre 2000 e 2005, abrangem alguns anos tempestuosos do começo deste século, marcados pelo 11 de setembro, por duas guerras – a do Afeganistão e a do Iraque – e, na Itália de Eco, pela ascensão de Silvio Berlusconi ao poder. Embora o autor confesse que não quis atualizar os artigos ou apontar neles algumas profecias que depois se realizaram, muitos dos escritos sugerem senão profecias, pelo menos algumas surpreendentes antecipações. 

É assim quando, no mais longo ensaio do livro, ele aponta as diferenças entre as guerras mais antigas, as paleoguerras - com inimigos bem definidos e devidamente satanizados -, e as neoguerras, nas quais a identidade do inimigo é incerta, as razões de Estado imponderáveis e, em face de um mundo globalizado, não chega a ocorrer propriamente uma guerra frontal. São alguns paradoxos das neoguerras do século 21 que conduzem Eco ao que ele sempre fez melhor: refletir sobre a natureza equivocada da noção de Paz.

Examinando vários cenários da história, na curva geral da entropia dominada pelos conflitos, aponta apenas para diminutas ilhas de paz – as quais, só existiram porque foram mantidas por inúmeras paleoguerras locais. Aqui, os argumentos éticos prevalecem sobre argumentos geopolíticos e Eco parece concordar que as antipatias crônicas são inerentes à natureza humana: sem algo para odiar, perderíamos a própria fonte do pensamento e ação. Até renunciamos à demonstração externa da violência bruta, mas somos incapazes de abandonar a essência ou o princípio da hostilidade. Olhando para o cenário atual, a falsa brincadeira da posmonição – que consiste, no fundo, em ser capaz de olhar pelo espelho retrovisor da História – se transforma quase que num sutil prognóstico.  

Prognóstico que reaparece noutro artigo sobre a “perda da privacidade”, o qual nem parece que foi escrito há vinte anos, já que Eco reconstitui o tema com exemplos que vão da história cultural das fofocas até o advento das redes sociais, com seu exponencial aumento da capacidade das pessoas em vangloriar-se apenas ao produzir efeitos no olhar alheio; e, sobretudo, na renúncia voluntária ao recato e à reserva, dissolvendo aquilo que se tornou conhecido como esfera pública.

É certeiro ainda ao apontar que uma das tragédias sociais do nosso tempo foi a transformação daquela válvula de escape, quase sempre benéfica, que era a fofoca. A fofoca clássica, que se fazia na aldeia, na portaria ou na taberna, era um elemento de coesão social, já que nunca se faziam intrigas sobre alguém para dizer que tinha saúde, sorte e felicidade; as maledicências falavam sobre um defeito, um erro ou maldade de outra pessoa. Ao fazer isso, porém, os intriguentos de algum modo participavam das desventuras dos fofocados, pois a fofoca não implica sempre em desprezo, pode induzir também à compaixão.

Só funcionava se a vítima não estava presente e quando ela tomava conhecimento da fofoca (e não podia mais fazer de conta que não sabia), acontecia o escândalo em praça pública: “Linguaruda de uma figa, eu sei que você andou dizendo que…”. Depois do escândalo, a notícia se tornava pública, a vítima se expunha ao ridículo ou à condenação social e os carrascos não tinham mais nada sobre o que fofocar. Por isso, para que o valor de válvula social da fofoca permanecesse intacto, todos, carrascos e vítimas, eram levados, na medida do possível, a manter uma zona de segredo. Esta zona de segredo deixou de existir?

Eco não viveu para responder, mas mostra que a história retorna ao ambíguo passo de caranguejo também em “O lobo e o cordeiro: retórica da prevaricação”, no qual, em surpreendente mix de erudição com elementos da retórica antiga, compara a fábula de La Fontaine com os textos de Mein Kampf, de Hitler. Quem prevarica procura antes de tudo legalizar-se – e se a legitimação é refutada, opõe-se à verdade não pelos preceitos da retórica, mas simplesmente pela força e pela violência. Para isto, prevaricadores precisam sempre de uma causa belli, de complôs inventados, gerando um tipo de populismo que busca obter consenso em face de uma ameaça que vem de fora ou de grupos internos. Prevaricadores são também os maiores inventores de notícias falsas (quando Eco escreve, em 2004, fake news era pouco usual).

Mussolini, Hitler ou Stálin, não foram os últimos a tirar vantagem desta síndrome do complô – e, como aponta Eco, Berlusconi não passou de um pálido repetidor. Difícil, contudo, é estabelecer uma linha de fronteira: há culturas e países onde o poder se apoia no consenso, e neles se usam técnicas de persuasão, e há países despóticos onde vale só a lei da prevaricação e da força, e onde não é absolutamente necessário convencer ninguém. Mas as coisas não são assim tão simples, por isto o ensaio sobre a retórica da prevaricação ainda é (infelizmente) bastante atual. 

Eco sempre dizia que a virtude do escrito ocasional é que ele não obriga à originalidade a qualquer custo, mas visa antes a diversão, tanto de quem escreve quanto de quem lê. Assim a maioria dos artigos começa (ou termina) quase sempre com uma nota chistosa, capaz de induzir o leitor ao distanciamento proporcionado pela ironia ou, como diz Eco, ao exercício da “sátira preventiva”. É assim tanto no incrível ensaio sobre as inconsistências e erros históricos do Código Da Vinci (best-seller da época) quanto nas reflexões e exemplos contidos no incrível artigo “Sobre o politicamente correto”. 

Já na época em que Eco escreve, o clima do “politicamente correto”, aquela atenção obsessiva ao uso das palavras, recaía muitas vezes numa histeria censória. Sem falar no velamento hipócrita de perífrases e eufemismos, que Eco enumera em lista risível: em vez de “demissões em massa”, melhor dizer “otimização dos negócios”; “fechamento e transferência da empresa para o exterior” viram “relocalização da empresa”; “lixeiro” vira “operador sanitário” e, em vez de escrever “vítimas civis de ação militar”, melhor falar em “danos colaterais”. Mas na (nem sempre) divertida lista, Eco não resiste a incluir o próprio Berlusconi como “verticalmente prejudicado” – imaginando ainda um título politicamente correto e fictício para diversas fábulas, como, por exemplo, Branca de Neve e os sete homens verticalmente desfavorecidos.

Eco passa longe, contudo, da crítica obscurantista - aquela que descarta o politicamente correto como simples hipocrisia - assumindo a crítica de índole progressista que, afinal, trava uma batalha justa em nome da liberdade de expressão e crítica. Liberdade que contribui para a construção de uma opinião pública articulada e não opressora – pois, o sentimento comum não se constrói “por decreto”, mas graças a um debate cultural livre e aberto, que demora muito tempo e sobre o qual devemos trabalhar incessantemente. 

De qualquer forma subsiste o princípio fundamental de que é humano e civilizado eliminar da linguagem corrente os termos que fazem sofrer nossos semelhantes: é preciso deixar que os outros sejam chamados como querem – e se o novo termo de alguma maneira ainda os perturbar, cabe aceitar a proposta de um terceiro termo. Afinal, o mal e o infortúnio não desaparecem com um simples mergulho nas águas do eufemismo; pelo contrário, muitas vezes servem para esconder problemas sociais ainda não resolvidos. Premonitórios ou não, os artigos de Eco lembram sempre aquelas antigas mensagens em garrafas lançadas ao mar. Afortunados serão aqueles que conseguirem encontrá-las. 

Umberto Eco

A Passo de Caranguejo. Guerras Quentes e o Populismo da Mídia.

Trad. Sérgio Mauro. Record,

404 pp.

R$ 79,90. E-book: 55,90.  

 

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