MARTIN GRÜNER LARSEN/FLICKR
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Umberto Eco passeia pelo melhor da cultura ocidental em palestras

'Nos Ombros dos Gigantes' traz textos proferidos pelo intelectual italiano entre 2001 e 2015

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

02 de março de 2019 | 16h00

Como nos revela a nota editorial da obra Nos Ombros dos Gigantes (Record, tradução de Eliana Aguiar), de autoria do italiano Umberto Eco (1932-2016), os doze textos que compõem o livro “foram publicados para o festival La Milanesiana, no qual eram lidos por Eco em forma de lectio magistralis [palestra do mestre/professor], entre 2001 e 2015. O festival La Milanesiana de literatura, música, cinema, ciência, arte, filosofia e teatro surgiu em 2000, em Milão, por iniciativa da editora, escritora e cineasta italiana Elisabetta Sgarbi. A partir de 2008, cada edição da Milanesiana recebeu um tema, ao qual Eco se referia e do qual às vezes era também o inspirador”. 

Quando aterrissamos no sumário da obra, os títulos dos textos, por si sós, parecem epígrafes extraídas de afrescos da catedral polifônica e renascentista de um dos maiores eruditos de nossa época. Assim, O Invisível parece prenunciar Representações do Sagrado. Dizer o Falso, Mentir, Falsificar soa como uma etapa de Algumas Revelações sobre o Segredo, que vai acabar resultando em O Complô. Sobre Algumas Formas de Imperfeição na Arte pressupõe A Feiura, que, contraposta o texto A Beleza, nos levando a pensar sobre Absoluto e Relativo e Paradoxos e Aforismos. Por fim, o lirismo de Umberto Eco nos faz imaginar o autor italiano bem jovenzinho e hipnotizado pela chama trêmula e fuliginosa de uma vela, em uma missa com a avó ultracatólica no Vaticano. Eis, quiçá, a antecâmara de A Chama é Bela. 

Em meio à cordilheira de palestras/ensaios de Nos Ombros dos Gigantes, o cume mais sobrelevado desponta com o texto homônimo ao livro que o abarca. Trata-se, justamente, do escrito inicial, como se Eco convidasse o leitor a subir nos ombros dos gigantes da tradição artística, filosófica e científica europeia de modo a vislumbrarmos a dialogia e os duelos que entretecem a história das criações (e) das ideias. 

Para Eco, as afinidades eletivas e as dissonâncias entre gigantes e anões, pais e filhos, do seio da família às relações de influência e rebeldia na arte e no pensamento, vêm forjando a tradição desde que o Gênesis sentenciou “No princípio” e desde que o “Era uma vez” deu à luz a literatura. Ao analisar o sumo distanciamento da Idade Moderna em relação à Idade Média, considerada, pelos filhos inovadores, como a “Idade das Trevas”, Eco afirma que “Humanismo e Renascimento são movimentos culturais tidos usualmente como revolucionários, mas que baseiam sua estratégia inovadora em um dos movimentos mais reacionários que já existiram, se entendermos como reacionarismo filosófico o retorno à tradição intemporal [referência à tradição greco-romana]. Portanto, estamos diante de um parricídio que elimina os pais recorrendo aos avós e tentando reconstruir sobre seus ombros a visão renascentista do homem como centro do cosmos.” 

Eco vai longe nas afinidades e dissonâncias que aproximam e distanciam pais e filhos, reação e revolução. Assim, para o italiano, o filho dileto do messianismo cristão foi o marxismo ateu: “Não podemos esquecer que a história, como movimento progressivo em direção ao futuro, da criação à redenção e desta ao retorno do Cristo triunfante, é uma invenção dos pais da Igreja – de modo que, quer nos agrade, quer não, sem cristianismo (mesmo com o messianismo hebraico às costas), Marx não poderia falar das magníficas e progressivas sortes.” 

Se os pais pregam o Éden no além-mundo, os filhos parricidas querem o Éden aqui e agora. Para Eco, à aposta dos pais na fé corresponde a apostasia incendiária dos filhos. 

Quando adentra a arena artística, as afetações e desafetos, construções e desconstruções se tornam ainda mais encarniçadas. É assim que, em meio à iconoclastia das vanguardas artísticas do princípio do século 20, Eco discorre sobre o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973), “que desfigura o rosto humano a partir de uma reflexão sobre os moldes clássicos e renascentistas e retorna, por fim, a uma revisitação de antigos minotauros. (...) E, para terminar, o grande parricídio cometido no corpo histórico do romance, o de Joyce, instaura-se assumindo o modelo da narrativa homérica. O novíssimo Ulisses também navega nos ombros, ou no mastro principal, do antigo.” 

Entre gigantes e anões, pais e filhos, reacionários e revolucionários, a erudição e as criações de Umberto Eco, da literatura à filosofia, da semiótica à linguística, nos fazem entrever que só um profundo conhecedor da tradição consegue se elevar à condição de verdadeiro iconoclasta. 

*FLÁVIO RICARDO VASSOLER É DOUTOR EM LETRAS PELA USP, COM PÓS-DOUTORADO EM LITERATURA RUSSA PELA NORTHWESTERN UNIVERSITY (EUA). AUTOR DE ‘O EVANGELHO SEGUNDO TALIÃO’ (NVERSOS), ‘TIRO DE ISERICÓRDIA’ (NVERSOS), ‘DOSTOIÉVSKI E A DIALÉTICA: FETICHISMO DA FORMA, UTOPIA COMO CONTEÚDO’ (HEDRA) E ‘DIÁRIO DE UM ESCRITOR NA RÚSSIA’ (HEDRA, NO PRELO)

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