Un montón de locos

Entender o Boca e os boquenses é entender o Corinthians e os corintianos. E também o nosso amor por esse jogo feito essencialmente de intenções fracassadas

MARTÍN CAPARRÓS, especial para o Aliás, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h07

As coisas que me importam são as que às vezes - tão poucas vezes - conseguem desafiar o tempo. Esperar aquele telefonema, desesperar, perceber que não se passaram dez minutos. Viajar e preencher cada momento de tantas coisas que os dias são semanas. Tomar nos braços e descobrir que nesse abraço meia hora se passou. Escrever e escrever e observar de repente que o sol já se pôs. Ver como Mouche avança pela ponta direita e saber que ele tem muita vontade de quebrar para dentro para enganar seu marcador, mas que é pouco provável que o consiga e além disso pelo meio o acompanha Román e Clemente sobe sozinho para a ponta direita, mas como Pablito vai conseguir fazer essa mudança de direção com a perna trocada e ainda com um brasileiro que já o está cercando e o goleiro está um pouco adiantado mas que não lhe passe pela cabeça chutar no gol para tentar surpreendê-lo e ele já fintou o zagueiro e dispara para o meio, onde raios se meteu o Careca Silva, ver que aparece em diagonal vindo da direita mas bem marcado e que Mouche a passe para Román antes que o abafem que não a segure por favor que a passe e pode ser, os brasileiros voltam correndo mas não conseguem fechar, ver que já a passou e Román a para, pisa sobre ela, não é possível que ele perca todo esse tempo hijo de puta, não está vendo que vão armar a defesa e nos ferram, vai sua besta vai que já está com um brasileiro em cima e ver que Clemente segue pela esquerda e já está aberto demais mas pelo menos está levando um lateral, em uma dessas Riquelme pode devolvê-la a Mouche para que ele chegue no fundo e centre, ver que ele a pede, deve estar gritando para ele mas não, olha como o Careca entra, já está na área, vai Román, vai que pode dar, passe para ele e pronto, o viu, sim, o viu e ver que a rola 20 centímetros para a direita para que seu marcador não feche a passagem, levanta a cabeça, não é possível que faça tudo tão devagar, tão limpo, tão preciso, vai hijo de puta, faz o passe e ver que já a está chutando e a bola vai para o lado onde está o Careca e o goleiro permaneceu na linha e o zagueiro não vai chegar para fechar e o tipo que começa a subir, que parece que chega, e a encaixa bem em uma dessas, por favor, vai, animal, por favor, que raios te custa uma cabeçada?

E o assustador é todo o tempo que ainda falta para essa bola se chocar com a cabeça do Careca Silva, e, depois, para que entre ou não entre no gol do Corinthians. Quando vir a cena na TV vai me parecer um segundo, mas eu sei que não é verdade. O futebol, para mim, está entre as três ou quatro coisas que conseguem esticar o tempo: que o tempo não desapareça como se não houvesse existido. O futebol pode ser uma besteira, mas me alonga o tempo. E o futebol - para mim - não seria o futebol se não existisse o Boca.

O tempo da partida, é óbvio, começa muito antes. Dias antes, ao menos. Mas no domingo vem aquele nervosismo, a excitação, o formigamento no estômago à medida que a hora se aproxima: a sensação de que algo que te importa está prestes a suceder e você o espera como se esperam poucas coisas. É preciso então enganar o tempo, fazer com que ele corra, tentar esquecê-lo. Até que um senhor odioso soe o apito.

- Vamos Boca carajo.

Gritamos milhares, e é o momento extraordinário - onde tudo está previsto para que ninguém pense em mais nada. Começa a partida, e ela estabelece um tempo que está fora do tempo, um momento que não pertence à banalidade do tempo corrente. Agora o tempo passa a ter outro valor: conhecem-se seus limites. Tudo é igual a 90:90 é o total; e, portanto, cada minuto vale: cada minuto não é, como na vida, uma fração indefinível de um tempo cujo fim ignoramos. Numa partida, um minuto é mais do que um por cento do todo que temos pela frente: algo muito importante. Numa partida, o tempo é contado de antemão. Diferentemente da vida, num jogo de futebol tudo que tem de suceder sucede dentro de um limite preciso - nada fica adiado, indefinido.

E, nesse tempo, tem-se a sensação de que tudo é possível porque as possibilidades são muito limitadas: ganhar, perder, empatar, com os acréscimos de cada caso. Mas essas três possibilidades repetidas conseguem concentrar, em duas horas, todas as emoções. A esperança, o mau humor, o incômodo, o júbilo, a emoção, o desespero, a inquietude, o nervosismo extremo, a incredulidade, o prazer, a desforra, o engano e tantas mais. E, sobretudo, para mim, a incapacidade de ser coerente: quantas vezes eu penso, é um bando de pernas de pau, assim não dá, apesar de empatarmos que me importa se estamos jogando uma mierda e além disso o Boca não pode empatar assim com esses grossos, que mierda, que mau humor, como é que esses idiotas podem me arruinar desse jeito. Que se matem, por mais que façam o gol eu não vou gritá-lo. Mesmo que ganhemos, que se matem, eu penso, até que salto como um louco e abraço Juan e grito e grito como um cão.

Y siga siga siga el baile

al compás del tamboril...

Grita o estádio, que deseja que o tempo não mude de sinal. Na vida, as coisas não se definem como no futebol, em um instante extraordinário. Elas vão passando aos poucos, estendendo-se no tempo, não são como aquele gol no último minuto ou o pênalti defendido que acaba de torná-lo campeão - de uma vez para sempre. Não é, tampouco, aquele momento em que nos encaçapam, nos enfiam, nos penetram. A metáfora sexual é evidente e tola: o que me impressiona nesse segundo de incredulidade em que o terrível está prestes a acontecer, mas pode ser que não, e no segundo seguinte, quando a bola já está dentro do gol, a perplexidade, o desgosto que não admite respostas - não se pode gritar, saltar, esgoelar-se -, que nos leva a um segundo de uma paralisia perfeita, justo antes da xingação ou do extremo desgosto. Esse momento em que o pior acaba de suceder sem que se possa evitá-lo de nenhuma maneira, em que a ameaça acaba de se converter em realidade, em que já é - em que não pode ser modificado mas, ao mesmo tempo, tudo é demasiado recente para já ter sido aceito. Esse momento de mierda em que acabam de te meter um gol e a Bombonera está em silêncio, e há uma ordem que tinha de ter sido diferente. E, ao contrário, o momento em que Silva acertou a cabeçada e os brasucas se entreolham sem saber o que dizer. O momento perfeito, o gozo idiota: pura explosão sem pensamento.

E assim, uma sucessão de momentos extremos: de tempo como se o tempo fosse um privilégio, uma variável que é preciso usar: acelerar os movimentos porque falta pouco e você está perdendo, retardá-los porque você gostaria que nada mais mudasse. "Fazer hora" - gastar o tempo - é o ardil dos fracos que não têm outra maneira de usar o tempo para não perder. "Ganhar tempo" - acelerá-lo - é um alarde dos que buscam a vitória.

Até que chega o tempo dos descontos, da agonia: o fim inevitável, últimas esperanças que se vão ou a esperança que se torna realidade sem volta atrás. O apito, o final: um final bem final, bem definido. E a gente, é claro, que gostaria que durasse para sempre porque depois o que se vai fazer com toda essa energia, como se vai afastá-la, onde se vai guardá-la até que chegue a próxima oportunidade de aplicá-la - que, por desgraça, é provável que seja outra partida. Mas tudo acaba e lhe traz, incômoda, a consciência de que tudo termina: mesmo que você não queira vê-lo, tudo termina.

Ou não. A paixão pelo futebol oferece outra vantagem: todo final é falso, nada termina para sempre. O tempo não é definitivo e se renova. Sempre oferece uma segunda chance: a ilusão de tornar a começar - cada jogada, cada partida, cada ano - do zero. Mas, também a crueldade de que nada é para sempre. Ou, melhor: que tudo é perfeitamente efêmero, que o triunfo de um domingo não garantirá nada para o próximo, que é preciso renovar essa vitória o tempo todo.

E que vai demorar, porque o futebol é fracasso quase sempre. O futebol oferece uma moral que, por sorte, não costumamos ler: 98% de uma partida consiste de intenções fracassadas: tentativas de aproximação da única meta decisiva, que quase nunca é alcançada. O fiasco, o desengano: tudo para chegar ao gol e o gol não chega. O gol é um artigo raro. Todo o resto é fracasso, e, no entanto, os jogadores não deixam de tentá-lo: isso é o futebol.

O futebol é um dos poucos esportes que podem terminar no fracasso completo: 0 a 0 é a incapacidade de fazer o que se tentou fazer e, no entanto, é um resultado válido, que até pode ser útil. Mas não tem o grande momento, o momento em que a Bombonera não pulsa, nem treme, nem canta, nem nada: grita, ruge. O momento de logo depois do estouro:

Y dale, y dale

y dale Boca dale...

O grito sério, o que só aparece nos minutos transcendentes, como um rugido que surge e se apaga em seguida: a entrada em campo da equipe, cada gol. Todo o resto é fantasia, floreios. Esse grito é a essência, e é guerreiro: esse momento em que o tempo não conta. (tradução de Celso Paciornik)

 

 

*  MARTÍN CAPARRÓS é escritor argentino. Nasceu em Buenos Aires em 1957. Este texto é uma adaptação que ele fez especialmente para o Aliás de um capítulo de seu livro mais famoso, Boquita (Editora Argentina, 2005), uma espécie de ensaio históricosociológico-filosófico-sentimental sobre o Boca Juniors.

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