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Una brasa, compañero

Frei Betto: ele foi à Bolívia cobrir o casamento do Rei, mas queria mesmo era investigar a morte do Che

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 23h59

- Quem tem o passaporte em dia?

Carlos Alberto, 24 anos, era o único. Como chefe de reportagem da Folha da Tarde, em São Paulo, naquele distante maio de 1968, mas já enfiado na militância contra o regime militar, sempre andava com a documentação em ordem, para qualquer eventualidade. Carlos Alberto respondeu ao editor do jornal que fizera a intimação: sim, poderia viajar. E indagou qual seria a pauta e o destino. "Roberto Carlos vai se casar em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, e está convidando um repórter de cada veículo da imprensa para acompanhá-lo até lá no avião que fretou."

Mesmo em tempo de bocas caladas, a notícia se espalhou como rastilho de pólvora. Então o rei do iê-iê-iê, líder máximo da Jovem Guarda e delírio supremo das garotas de minissaia (de preferência, da grife Calhambeque) iria se casar? Ainda por cima, com uma mulher desquitada?!! A trama se adensava. A noiva do Rei era Cleonice Rossi, a Nice, mais velha que ele (alguns falam em dois anos, outros em um, mas Roberto Carlos, que tinha então 27, mentia insistentemente sobre a diferença), e mãe de uma menininha, Ana Paula, de seu primeiro casamento. Eles já namoravam havia algum tempo, mas o cantor tentou esconder o relacionamento. Sem poder cantar aos quatro ventos a paixão por Nice, ele compôs Como é Grande o meu Amor por Você e Meu Grito, que deu para o tonitruante Aguinaldo Timóteo gravar. Roberto Carlos, mora, tinha imenso temor de assumir um namoro que pudesse afastar as fãs que sonhavam justamente ser a Nice. Quando a operação-disfarce já não mais surtia efeito, Roberto não só declarou seu amor pela mulher de traços fortes, ex-professora do Orfanato São Judas Tadeu, como anunciou que se casaria com ela. Corta! Divórcio não existia no Brasil - e só viria a existir com a aprovação da lei específica, em 1977 . Então, a saída era oficializar a união fora daqui. Rodando.

Carlos Alberto se preparou para ir ao casamento do astro das tardes de domingo - patrulhadíssimo pela juventude engajada - já com ideias gauches na cabeça. Aproveitaria a viagem à Bolívia para perseguir a história de outro cabeludo famoso. Ernesto Che Guevara fora assassinado naquele país em outubro de 1967 e ainda havia muito que apurar sobre a morte de um dos líderes da Revolução Cubana. Mas primeiro era preciso se concentrar no casamento do ano. O voo de 5 horas até Santa Cruz foi feito num DC-6 velho e maltratado. Além dos noivos, viajaram a mãe de Nice, d. Minerva, o futuro cunhado de RC, Luís Carlos, e dez jornalistas e fotógrafos. Os pais do Rei não puderam ir, por conta de uma gripe. Os amigos mais íntimos também não foram. Erasmo Carlos, o Tremendão, achava que o parceiro deveria apenas se "juntar" com Nice, sem casamento, evitando o falatório. "Minha maninha" Wanderléa, supostamente mais do que amiga de Roberto em outras épocas, também sacudiu a cabeleira. "Não acredito que haverá casamento. Nice não gosta que o Roberto converse comigo, prefere que ele fale com Martinha. Não gosta de mim", declarou, um mês antes do casório.

Decidiu-se que as testemunhas da união seriam sorteadas ali mesmo, na porta do cartório, entre os repórteres - a primeira seria o músico Fred Jorge, o único amigo próximo do noivo presente à cerimônia. O repórter Carlos Alberto tremeu. Ele tinha uma credencial de que pouquíssimos colegas da imprensa brasileira desconfiavam: era um frade dominicano. Carlos Alberto Libânio Christo, o frei Betto, viu-se numa batina justa. "Roguei a todos os meus santos que meu nome não fosse premiado. Imagina eu, frade, padrinho de um casamento ilegal no Brasil, num país estrangeiro..." Saiu no sorteio o nome de José Carlos de Morais, o Tico-Tico, veterano jornalista e um dos primeiros repórteres da TV brasileira. "Desconfio que naqueles papeizinhos só dava o nome dele. E Roberto se arriscaria a ser apadrinhado por um foca sem pedigree?", relembra agora frei Betto, fazendo troça de seus primeiros tempos numa redação.

Mineiro de Belo Horizonte, frei Betto havia estudado jornalismo na Universidade do Brasil, onde hoje fica a Academia Brasileira de Letras, no Rio. Ainda hoje lembra-se das aulas que teve com intelectuais do porte de Danton Jobim, Hermes Lima, Alceu Amoroso Lima e Hélio Vianna. Não concluiu o curso por se decidir pela vida religiosa e, então, mudou-se para São Paulo, em 1966, para cursar filosofia (na Escola Dominicana) e antropologia (na turbulenta USP da Rua Maria Antônia). Antes da Folha da Tarde, havia trabalhado por um período na revista Realidade. E no jornal cobria de tudo: variedades, polícia e até horóscopo, "que assinava com um nome feminino ajaponesado de que não me lembro mais".

Embora tivesse mais afinidade com a turma da MPB, já que o Convento de São Domingos era frequentado por artistas como Geraldo Vandré, Caetano Veloso e tantos outros, sem falar na família Buarque de Hollanda, que sempre foi próxima aos dominicanos, frei Betto até que gostava de um ie-ie-iê. Hoje tem até uma explicação para, digamos, esse "desvio" musical. "Eu era amigo do Carlito Maia, que inventou o movimento da Jovem Guarda na agência de publicidade Magaldi, Prosperi e Maia", recorda. Mas foi Dulce Maia, irmã de Carlito e ativista de esquerda, quem levou o frade para o Teatro Oficina, onde ele atuaria como assistente de direção na montagem de José Celso Martinez Corrêa da peça O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. Militando em tantas frentes, o jovem mineiro virou um múltiplo de si mesmo.

Voltemos a Santa Cruz de la Sierra. O juiz boliviano Herman Chávez recebeu US$ 600 para oficiar o casamento no Hotel Asturias. Não se sabe bem por que, mas topou o serviço infringindo uma lei da Bolívia, que exigia que noivos estrangeiros residissem pelo menos seis meses no país para se casar lá. Por causa dessa contravenção, o juiz perdeu o emprego e o casamento do Rei quase foi anulado. Mas não foi. Ficou registrado à folha 38, partida 55, de 10 de maio de 1968, no final da certidão 938.430. Frei Betto presenciou a emoção dos noivos, estavam muito apaixonados. Ela vestia uma criação de Clodovil, de crepe branco e gola de vison. Ele, surpresa, um terno azul. Terminada a cerimônia, transmitida em rede nacional por emissoras de rádio, os repórteres foram convidados pelo casal para uma recepção em um cabaré, o El Caballito. Os noivos brindaram à imprensa, avisaram que a noite era por sua conta e partiram para a lua-de-mel, que seria em Las Vegas - cogitou-se Paris, mas os estudantes franceses promoveram aquelas greves, aquelas barricadas, aquelas passeatas... e que tudo mais vá pro inferno. Não tinha clima.

"Logo que Roberto Carlos e Nice saíram, entrou no cabaré um bando de prostitutas..." Frei Betto hoje usa reticências ao relembrar o episódio. Diz que mandou-se dali rapidinho para o telex, de onde enviou a reportagem para a redação da Folha da Tarde. A matéria saiu numa edição extra do jornal, se não lhe engana a memória, num domingo. Roberto Carlos comemorou a união com Nice com Amada Amante, lançada em 1971, mas composta ao longo da batalha para se casar. Matéria publicada, frei Betto estava livre para correr atrás da história do rebelde de sua predileção.

Che Guevara havia sido cercado e capturado na selva boliviana no dia 8 de outubro de 1967, em La Higuera, 150 quilômetros a sudoeste de Santa Cruz. Foi executado no dia seguinte e apresentado ao mundo como troféu de caça. As esquerdas latino-americanas se abalaram; o povo boliviano, nem tanto, relembra o enviado especial. "Não senti nenhuma comoção por onde passei. Vivendo sob uma tremenda ditadura, o povo acreditava naquela história de morte de terroristas", explica frei Betto. O país vivia sob o comando do general René Barrientos. Graças a contatos feitos no Brasil anteriormente, não foi difícil para frei Betto conseguir entrevistas na Bolívia com opositores do regime. Ele partiu de Santa Cruz para a capital, La Paz, num voo pago pelo jornal. Conversou com gente que esteve com Che na selva e também com quem o condenava pela ideia de semear guerrilhas pela América Latina.

Mas a apuração ainda não estava completa. O repórter topetudo foi ao Palácio Quemado, sede do governo boliviano, e pediu uma audiência com o presidente. Quinze minutos depois estava no gabinete de Barrientos. Cara a cara com o general que executara a ordem da CIA para eliminar Che, perguntou: "Afinal, quem mentiu? O senhor, ao dizer que Che foi enterrado, ou o chefe das Forças Armadas, general Alfredo Ovando Candía, ao afirmar que ele foi cremado?" A resposta de Barrientos estarreceu frei Betto. "Nenhum dos dois mentiu. Parte do corpo foi enterrada, parte, cremada." O repórter considerou a revelação um acinte, mas estava diante de um furo jornalístico. Anos mais tarde, descobriria que o general falara a verdade. O corpo do guerrilheiro havia sido mutilado e a cada parte foi dado um destino.

A dupla missão de frei Betto na Bolívia precedia dias negros. Seu envolvimento com a Aliança Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighella acabaria levando-o à prisão em 1969, onde permaneceria por quatro anos. Os martírios do cárcere foram narrados no livro Batismo de Sangue, depois transformado em filme. Coincidência macabra, um de seus algozes na prisão, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, fora responsável pela segurança de Roberto Carlos em seu programa na TV Record, Jovem Guarda. Frei Betto nunca voltou à reportagem, mas jamais parou de escrever - tem 54 livros publicados, entre os mais recentes A Arte de Semear Estrelas, uma coletânea de contos. Perguntado sobre os conflitos da vida nuançada de frade, jornalista, militante e diretor de teatro em tempos tão conturbados, responde categórico: "1968 foi o ano em que não dormi".

DOMINGO, 19 DE ABRIL

Eu voltei, aqui é meu lugar

Roberto Carlos canta em Cachoeiro de Itapemirim (ES), sua cidade natal, 14 anos após a última apresentação ali. O evento abre as comemorações pelo meio século de carreira do cantor, que devem culminar com show para 1 milhão de pessoas em São Paulo.

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