'Uso de sites de relacionamento: estamos perdendo a capacidade de conversar com o outro'

carta aberta aos internautas

Cristiano Nabuco de Abreu, PSICÓLOGO E COORD. DO GRUPO DE DEPENDENTES DA INTERNET DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS DE SP, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2009 | 22h14

Na última terça-feira, a mídia noticiou que o Brasil é o país onde mais se utiliza sites de relacionamento, à frente inclusive do Japão, onde a internet é muito mais comum entre a população geral. Além disso, sabe-se que nosso país é também o líder mundial em tempo gasto nas conexões domésticas, superando países como EUA, Canadá e outros do Primeiro Mundo. Essa é uma boa notícia. A conhecida "inclusão digital" e o barateamento dos equipamentos fizeram com que praticamente todas as camadas da população pudessem ter computador próprio e, assim, o acesso ao conhecimento adquiriu proporções nunca antes observadas. Mas não para por aqui. Hoje, vemos jovens voltando mais cedo na madrugada somente para poderem colocar suas mensagens nos sites de relacionamento, descrevendo as experiências que acabaram de ter com os amigos. Vemos executivos carregando iPhones sendo chamados no meio da noite para resolver problemas imediatos da empresa ou checando sua lista de e-mails durante o almoço de domingo com a família. Resumo da ópera: a perda de intimidade ganhou novas dimensões, e essa é uma má noticia. Somos campeões no uso de sites de relacionamento porque estamos perdendo a capacidade de conversar com nossos parceiros. Mandamos e-mails para o colega da sala ao lado em vez de simplesmente caminhar até ele e dizer o que desejamos. A tecnologia hoje nos controla. Não devemos ser ingênuos a ponto de pôr a culpa no computador e na realidade virtual, mas me parece que essa nova tecnologia tornou-se o palco de nossas vulnerabilidades pessoais. Já atendi um rapaz de 17 anos que fica conectado 40 horas ininterruptas. Um outro da periferia que se apresenta como uma pessoa de sucesso que vive na zona sul. Assim, pergunto: estamos preparados para lidar com isso? Creio que não. Portanto, talvez reste muito pouco a ser comemorado nesse campo. E o pior: não há nada a fazer por ora. Somente o tempo para nos ensinar e apontar o caminho mais correto.

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