V. de versões

No suposto estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, cada lado tem sua narrativa

Juliana Sayuri / BAURU (SP) , O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2014 | 16h00

Ela diz não dormir direito há dias. Diz que vira pra lá e pra cá na cama, acorda assustada de madrugada por causa dos sonhos – pesadelos, na verdade. Diz não comer direito, pois logo de manhã o coquetel de remédios lhe embrulha o estômago. Diz não sair mais de casa. Diz só querer esquecer. 

Quem diz é V.E.S.S., uma estudante de 17 anos que diz ter sido estuprada por mais de dez rapazes após a festa de aniversário de Bauru, 326 km a noroeste de São Paulo.

Na manhã de sexta-feira 1° de agosto, V. ajudou a mãe a limpar a casa. Caçula de quatro irmãos, passou a tarde se arrumando para a festa da cidade: improvisou luzes loiras nos fios negros, fez chapinha como todos os dias, vestiu uma blusa branca do réveillon de 2012, bermuda jeans e havaianas estilo rasteirinha. Fazia calor. Viu-se bonita, como faz dia sim, dia não. Gosta principalmente de seus olhos, castanhos quase negros. Não gosta muito de seus lábios, marcados por uma fissura labiopalatal. Diz que, por volta das 17h, a melhor amiga desistiu de ir à festa – “não estava a fim”. Que, por volta das 18h, outra amiga (e o namorado da outra amiga) tocou a campainha de sua casa, uma construção simples geminada numa das ruas de terra vermelha no periférico Parque Santa Edwiges. Prometeu ao pai que voltaria, no máximo, à meia-noite. “E cuidado com o bicho-papão, viu, meu biju”, brincou. “Quê?”, indagou a filha. “O bicho-papão. O bicho que papa as meninas por aí”, respondeu o pai, seu Roberto.

V. tomou o ônibus no ponto da Avenida Pinheiro Machado, ao lado dos colegas. Desceu na Avenida Nações Unidas, a principal via da cidade universitária de 360 mil habitantes, ainda ao lado dos colegas. A festa aconteceria no Parque Vitória Régia, um espaço verde de 50 mil metros quadrados atravessado por uma arena e um lago verde. Tomou umas biritas vendidas por uns camelôs – “não sei o que era, mas era colorido”. Diz que, por volta das 21h, a amiga e o namorado quiseram ir embora, para beliscar esfihas no Habib’s. V. não quis ir junto, para não ficar “de vela”. Quis ficar para assistir ao show de pagode. Reencontrou amigos dos tempos da Escola Estadual Antônio Guedes de Azevedo, encontrou outros amigos e amigas também “da vila”. Uma menina pretendia voltar para casa a pé – mais de uma hora de caminhada. Não quis acompanhá-la, pois prometera ao pai que estaria de volta à meia-noite.

Antes das 23h, o show estava quase no bis. V. encontrou dois vizinhos do Parque Santa Edwiges, Boi e Bidelo. Diz que um lhe ofereceu um “frasquinho transparente tipo ketchup”: “Experimenta”, teria dito Boi, passando-lhe o lança-perfume. V. diz que a conversa foi a seguinte:

– Bidelo, como vocês vão embora?

– De carro, depois do show. 

– Posso ir com vocês? 

– Pode, sim. Te aviso. 

A festa acabou. Enquanto V. conversava com Boi, Bidelo avisou que o carro estava noutra rua. Onde? “Ali.” 

Ali era uma rua atrás do parque, atravessando uma pequena “ponte”. Diz que caminhou ao lado de Boi, Bidelo e outros oito garotos. Que ali encontrou mais uns seis rapazes esperando do outro lado da rua, conversando numa rodinha. Que ali não tinha carro nenhum. 

V. diz que os garotos indicaram um terreno baldio. “Entra lá”, teria dito um. “Não, preciso voltar pra casa”, respondeu a menina, enquanto eles a rodearam. “Entra lá, é rapidinho, você vai ver”, teria dito outro. Ela entrou. 

“Fui lá pro fundo do terreno. Estava tudo escuro, mal dava pra ver a luz da rua. Um dos meninos disse: ‘Mano, não faz isso com a menina, deixa ela ir embora’. Aí os outros responderam: ‘Por que não, você não gosta de mulher? Se não quiser fazer, melhor você ir embora’. Eles me mandaram fazer coisas neles todos – e eu fui fazendo. Fiz tudo o que eles mandaram. Primeiro, oral. Aí eles abaixaram meu short, deram uns tapas na minha cara e na minha bunda. Um dizia: ‘Minha vez’. Aí vinha outro: ‘Agora eu’. E vinha outro, depois outro. Fizeram tudo. Ninguém me beijou na boca. Ninguém usou camisinha”, relata. 

V. diz não lembrar se Boi estava lá – ou se tinha ido embora. Lembra de Bidelo e de outros rostos conhecidos, mas não todos. “Enquanto um estava comigo, os outros ficavam conversando. Uns foram embora. Na hora, nem fiquei ouvindo. Eles me deram uma garrafa e disseram pra virar. Eu não queria, mas aí um disse: ‘É pra beber, ou vou arrebentar você’. Dei um gole. Era Smirnoff. Aí ele continuou: ‘Não é só um pouquinho, não, é pra beber mais’. Outro cara veio dizendo pra me dar maconha. Eu não fumo. Aí ele disse: ‘Mas hoje você vai fumar’. Dei um trago. Uma hora, um tentou fazer anal – e doeu muito, muito. Pedi pra parar, mas eles ficaram insistindo pra continuar.” 

Passaram-se uns 40 minutos, segundo o relato da adolescente. “Não lembro direito, o tempo não passava. Eu dizia: vou embora. E eles me puxavam de novo: ‘Onde você pensa que vai? Ainda não acabou’. Tinha uns quatro meninos vigiando a frente do terreno – nem tentei fugir, pois eles iam me pegar lá. Eu não gritei, não pedi pra parar, não reagi. Fiquei com medo de me matarem. Fiquei quietinha”, diz. 

Eles foram embora. V. diz que ficou cinco, talvez dez minutos, quieta, sentada nos fundos do terreno. Pegou a bermuda de volta, ajeitou a blusa, o chinelo arrebentou – e seu smartphone, “um Galaxy Y branquinho, meu xodó”, desapareceu. “Fui pedir ajuda. Encontrei um homem na rua e contei o que aconteceu. Pedi pra ele me emprestar o celular, queria ligar pro meu pai. Ele disse que não tinha celular, mas tinha dinheiro – e, se eu fizesse sexo, ele me daria dinheiro pra voltar pra casa. Saí correndo.” 

Na esquina encontrou uma casa iluminada, com os portões abertos. V. pediu ajuda a uma mulher, que ligou para os pais, a polícia e a ambulância. “Eu só chorava, soluçava.” Os pais foram encontrá-la. Primeiro, a estudante foi encaminhada para o Hospital Santa Isabel, onde tomou pílula do dia seguinte e remédios para DSTs. Ela diz que o médico só fez o exame vaginal – “não sei por que ele não passou o cotonetezinho também na minha bunda e na minha boca, tinha esperma até nos meus braços”. Depois, a família foi para o DP, onde ficou até as 5 horas da manhã. 

Ainda à noite, a polícia bateu na porta de Boi e de Bidelo. O primeiro disse que não ficou no terreno, foi logo embora. O segundo disse que foi o segundo a transar com a moça – e depois foi embora. Os dois foram presos e, dias depois, liberados. A estudante não identificou os outros suspeitos.

A família, mal voltou para casa, arrumou as malas e pegou a estrada rumo a São Paulo. Era aniversário de um sobrinho de seu Roberto. Ali passaram o fim de semana, tentando esquecer o que acontecera. V. ficou quieta nos cantos da festa e dormiu no carro. Não quis contar nada para ninguém. De repente, uma amiga ligou para o celular de sua mãe: “É verdade o que aconteceu com você na festa? O que você fez? Tá todo mundo comentando na vila...”.

Outros lados

V.E.S.S. precisou voltar a Bauru na terça, dia 5 de agosto. Devia prestar depoimento na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), na Avenida Rodrigues Alves. “Contei o que aconteceu. Mas aí disseram que os meninos disseram que eu fiz porque quis. Que eu fui ao terreno porque quis. Que eu me livrei do celular pra poder jogar a culpa neles.” 

“Testemunhas dizem que a jovem teria demonstrado disposição para manter relações sexuais com os rapazes – e que eles ‘não fizeram nada que ela não quisesse’”, conta a delegada Priscila Bianchini, responsável pela investigação. “O sexo aconteceu, mas os suspeitos alegam que foi consentido. Há evidências que contradizem a tese da vítima, como a versão das testemunhas e o laudo médico, que não constatou lesão e hematomas na adolescente. A polícia concluiu a investigação, mas ainda é preciso incluir o laudo psicológico, o laudo médico e a análise de um celular, em que estariam fotografias da vítima nua. Segundo os meninos, a menina enviou fotografias para seduzi-los. Se foi estupro ou não, é o Judiciário que decidirá”, considera a delegada. 

Entre as testemunhas estão alguns dos garotos que estavam presentes no terreno baldio – não foram considerados suspeitos, pois a estudante não pôde reconhecê-los no DP. Por que V. mentiria? “Não vou opinar. Prefiro deixar a decisão ao Judiciário. Já aconteceu, noutras investigações, de adolescentes dizerem que foram estupradas pois transaram e depois ficaram com medo de contar aos pais. Mas confessaram a mentira. Talvez ela quis o sexo, depois se arrependeu, ficou com medo de brigar com os pais. Há várias hipóteses. A história narrada pela menina não foi provada, mas até agora ela não mudou a versão”, pondera Priscila. 

“Não dá para definir ao certo o que aconteceu. Entretanto, o fato de não ter resistido não quer dizer que a jovem consentiu. Nessas situações, não se pode exigir que a mulher lute contra, talvez a única saída fosse ficar quieta, talvez assim ela tenha preservado a própria vida. Se fosse você, o que faria?”, questiona a jurista Silvia Pimentel, da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Questiono sobre a palavra da estudante contra a palavra dos dez outros. “As investigações devem continuar. É preciso ter muita sensibilidade e conscientização de gênero nesses casos. No livro Estupro: Crime ou ‘Cortesia’, fiz uma análise sociojurídica sobre 50 processos de estupro e encontrei muitas manifestações machistas no discurso de profissionais do direito. Nesse estudo ficou nítida a dificuldade de aceitar a palavra de uma mulher”, diz Silvia, integrante do Comitê Cedaw, das Nações Unidas. 

No dia 11, o inquérito tinha sido concluído e encaminhado ao Ministério Público, que logo devolveu o documento, pedindo mais informações. Boi e Bidelo foram liberados – e agora respondem ao processo em liberdade. “Boi estava a quarteirões de distância dessa história do terreno, pegando um ônibus para voltar pra casa. Em nenhum momento ele esteve no terreno. Nega veementemente qualquer tipo de relação com a menina. Aliás, a imputação dessa menina é gravíssima e leviana, provocando a prisão de um rapaz inocente por 11 dias”, critica o advogado Evandro Dias Joaquim, defensor de Boi. “Essa história de carona... É tudo gente simples, que estava numa festa pública, que tinha que voltar pra casa de ônibus. Não tinha ninguém de carro, nem moto, nem patinete. É uma balela”, diz. 

Outra fonte, que pediu para não ser identificada, diz que V. convidou os meninos para “aprontar”. Que, depois da “bagunça”, ela teria surtado porque seu smartphone novo sumiu. “Depois de ser parceira de quatro, cinco, seis, ela, toda desarrumada, não se preocupou em limpar o rosto e o corpo. Tem testemunha que a viu com uma mancha de sêmen no ombro – e ela preocupada com o celular que, de fato, sumiu. Se foi vítima, foi vítima de um furto.”

A mãe pensa diferente. “Dez mentiras valem mais que uma verdade? Ficou a palavra dela contra a deles. Estão dizendo por aí que minha filha estava bêbada, dando showzinho, oferecendo o corpo, provocando os meninos. Uma única menina confirmou a versão dela, os outros estão dizendo essa história. Que ela é a vagabunda, que pediu, que seduziu os meninos com umas fotografias indecentes. Eles imprimiram fotos. Entrei na sala e estavam lá fotos da minha filha nua na mesa da delegada”, lembra a mãe, Rita. 

V. não lembra de determinados pontos. Lembra que tempos atrás tirou uma selfie nua, diante do espelho. Lembra que muitos meninos pediam para trocar fotos no Whatsapp. Lembra que tinha uns 3 mil amigos divididos em dois perfis do Facebook. “Mas não lembro pra quem mandei a foto. Faz um tempão. Um menino me pediu no Whats, aí mandei. Ele tinha prometido que não ia sair dali, que ninguém ia saber... Agora não sei se esse menino espalhou a foto ou se os outros meninos viram porque roubaram meu celular.” 

V. diz que diz a verdade. Após o B.O., recebeu visitas de duas amigas e do pastor, foi duas vezes a uma psicóloga indicada na DDM. Na primeira sessão, foi sozinha e não gostou. Na segunda, pediu para a mãe acompanhá-la. “Essa mulher teve a coragem de me dizer: você devia ensinar pra sua filha que não é toda festa que ela precisa sair dando pra todo mundo. Virei uma leoa. Fiquei muito nervosa vendo essa mulher pisando na minha filha. Ela me expulsou aos berros da sala”, diz Rita. A psicóloga Sarah Axcar nega: “Isso nunca aconteceu. Não posso expor o que aconteceu nas sessões. Mas posso dizer: há toda uma ética profissional que precisamos seguir”. 

Há oito anos no mesmo endereço, a família cogitou a possibilidade de mudar de Bauru. “Até procurei casa, mas meu marido disse: o bandido não sou eu. Não vou sair da minha casa, que eu suei tanto pra construir. A gente ainda tá perdido. Cada um que passa na rua, fico pensando: será que esse estava entre os meninos? E esse? Eles continuam lá fora, contando pra todo mundo a versão deles da história. Enquanto eles estão livres, minha V., minha vida, está presa”, diz a mãe. 

V.E.S.S. diz não dormir direito há dias – “esse agora é meu pesadelo”, definiu, no nosso encontro na quarta-feira passada. Diz que era extrovertida, brincalhona, alegre – “não muuuuito estudiosa, mas...” – e agora se vê triste, sozinha, quieta. Estudante do terceiro colegial, perdeu as inscrições do Enem e as aulas do último mês. Queria ser médica veterinária, mas agora não sabe mais. E diz: “Não saio mais de casa, só pra ir à igreja. Fico vendo filmes na TV, mais nada. Ainda estou tomando o coquetel contra o HIV. Perdi a virgindade aos 16, com meu primeiro e único namorado. Namoramos por oito meses, mas ele mentia muito. Aí terminamos. Queria, sim, casar um dia e ter dois filhos, Iúri Gabriel e Sofia Gabriela. Isso ainda deve demorar. Depois do que me aconteceu, sinto que não dá pra confiar em ninguém – nem nos meus vizinhos. No fim, fico pensando: eu devia ter gritado.” 

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