Vagas para jagunço

Por que ditadores do Oriente Médio se utilizam de marginais violentos para suprimir dissidentes

Christian Caryl, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h10

Bashar Assad tem muitos meios de eliminar pessoas. Ele empregou helicópteros e tanques contra os rebeldes nas ruas da capital. A Casa Branca alertou a Síria contra o uso de armas químicas. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha declarou recentemente que o conflito era uma "guerra civil". E um atentado à bomba no centro de Damasco matou o ministro da defesa de Assad e três outros oficiais do alto escalão.

Mas, mesmo enquanto a violência na Síria se intensificava, a arma mais cruel do arsenal de Assad continuava sendo uma opção de baixa tecnologia. De novo e de novo, o mesmo padrão: primeiro o exército regular bombardeia os vilarejos rebeldes com armamento pesado até controlá-los; então o governo envia milícias alauitas, combatentes esfarrapados em trajes civis ou uniformes improvisados, para se encarregarem do massacre propriamente dito, de maneira direta e pessoal. Ninguém na Síria é enganado por suas vestimentas informais.

Seus membros são conhecidos como shabihas, palavra derivada de "fantasma" em árabe que já se tornou indissociavelmente ligada à brutalidade instintiva do governo Assad. Isso decorre do fato de que as milícias defensoras do governo parecem estar envolvidas sempre que são cometidas as piores atrocidades. Diz-se que os shabihas estiveram envolvidos nos combates no vilarejo de Tremseh, que resultaram em centenas de mortes na semana atrasada (embora as circunstâncias precisas ainda não tenham sido esclarecidas). As Nações Unidas os acusaram de envolvimento direto no massacre de 108 pessoas em Houla - metade delas crianças - no mês de maio. Os paramilitares de Assad também foram implicados no banho de sangue em Mazraat al-Qubeir, perto de Hama, duas semanas mais tarde. Organizados sem muito rigor com base nos seus locais de origem, os shabihas se situam fora da hierarquia regular de comando militar. Supõe-se que respondem diretamente à família Assad.

O quadro que emerge dos numerosos vídeos que mostram os shabihas agindo é assustador. Levando-se em consideração a dificuldade para se confirmar as informações vindas da Síria, é difícil saber se todos esses vídeos são autênticos; relatos de pessoas na Síria confirmam muitos dos detalhes. Mas, por mais que as forças irregulares de Assad pareçam mostrar uma selvageria única, o fenômeno que elas representam pode ser observado em todo o Oriente Médio.

De fato, enquanto o mundo manifesta sua preocupação com a Síria, o governo do Sudão - que tem recebido pouca atenção internacional - emprega seus próprios capangas (conhecidos localmente como rabattahs) contra os manifestantes que se opõem ao governo nas ruas de Cartum e Omdurman. O governo do Irã costuma empregar sua vasta força de voluntários basijs contra os dissidentes no país. No Iêmen, milícias pró-governo agindo em nome do presidente deposto Ali Abdullah Saleh eram conhecidas como baltajiyas, palavra ainda usada no Bahrein; os egípcios se referem aos bandidos mercenários que trabalhavam para Hosni Mubarak como baltageyas. Os termos podem diferir, mas a estratégia política de usar bandos de valentões para eliminar descontentes é muito semelhante.

Tal fenômeno leva a uma pergunta. Os ditadores do Oriente Médio gastam grandes quantias em armas (basta olhar para o arsenal de Assad) e comandam grandes exércitos e múltiplos serviços de segurança. Por que, então, precisam também "terceirizar" a repressão com o recrutamento de gangues de rua?

O professor Adel Iskandar, que leciona política do Oriente Médio na Universidade Georgetown, em Washington, explica: "Eles são contratados para fazer o serviço sujo que a polícia não pode realizar". As instituições oficiais têm limites para suprimir dissidentes. O que faria, então, um déspota no caso de sua força policial e seu exército terem muitos membros originários dos mesmos grupos étnicos e religiosos que protestam contra o governo? Uma resposta pode ser a contratação de braços adicionais vindos do mundo do crime. Os ativistas no Sudão, por exemplo, dizem que a mal remunerada polícia regular se mostra muito relutante na repressão aos manifestantes. Assim, a maior parte da violência empregada contra os manifestantes vem dos bandidos locais, que são generosamente recompensados por seus esforços pelo governo.

Na Síria, os shabihas evoluíram a partir das gangues da região da cidade de Latakia, onde predomina a minoria religiosa alauita que há muito governa o país. Latakia foi base de uma rede criminosa liderada por um tio de Bashar Assad, Jamil, que fez fortuna com contrabando e prostituição. No início do ano, a União Europeia impôs uma proibição de viagem aos filhos de Jamil, Fawaz e Mundhir, citando especificamente seu estreito envolvimento com os shabihas.

Diferentemente de seus equivalentes no Egito, esses capangas alauitas desfrutam de um padrão de vida relativamente alto, obtido com atividades criminosas sancionadas pelo governo. O que os mantêm unidos é a paranoica consciência de seu status de minoria; os opositores do governo são automaticamente vistos por eles como inimigos sectários. "O exército sírio é misto", destaca Ahed al-Hendi, ex-prisioneiro político sírio que trabalha agora para o Conselho Sírio-Americano. "Os soldados podem ser cristãos ou sunitas. Assim, o regime não confia neles, duvidando que sejam capazes de lidar diretamente com rebeldes e manifestantes."

No Irã, os basijs costumam ser recrutados nas favelas e no interior pobre, contexto social que os predispõe a uma inimizade com os dissidentes e opositores políticos. "Os basijs não têm nenhum elo social com os moradores das cidades - contra os quais carregam um forte ressentimento cultural e de classe - e espera-se deles que sejam capazes de reprimir com violência levantes urbanos da classe média", diz Ali Alfoneh, especialista em Irã do American Enterprise Institute. No Egito, os baltageyas costumam vir das grandes favelas do Cairo e outras grandes cidades. Nessas áreas, a combinação entre pobreza há muito arraigada e criminalidade de pequenos bandidos cria um desafiador sentido de identidade local que pode ser facilmente canalizado contra determinados forasteiros (auxiliado por injeções estratégicas de dinheiro).

Os gângsteres não costumam se dignar a usar uniformes - mas isso pode ser uma vantagem para um governo que deseja se dissociar da violência alimentada por seus representantes informais. "Eles (os baltageyas egípcios) podem ser facilmente confundidos com civis comuns", diz Iskandar, da Universidade Georgetown. "A ideia é fazer os choques parecerem violência entre civis, deixando assim de implicar o Estado diretamente." No Irã, os basijs usam ou não uniformes conforme a exigência de cada situação, uma ambiguidade calculada que tem como objetivo desnortear os opositores(dissidentes vítimas de ataques anônimos podem apenas suspeitar de envolvimento do governo).

Os milicianos sírios, que cultivam o ethos de gângsteres por meio de uma cultura compartilhada caracterizada pelos exercícios físicos, as barbas longas e as tatuagens, são certamente muito mais conspícuos, e demonstram um orgulho ostentatório de sua predisposição à violência. Mesmo assim, seu código de vestimenta misto (tênis brancos são os mais comuns) torna difícil identificá-los entre os rebeldes, dando ao governo de Assad argumentos de negação que seus aliados em Pequim e Moscou exploram com grande satisfação.

A esta altura, o destino dos shabihas está inextricavelmente ligado ao de Assad, seu patrocinador. Se ele encontrar uma forma de sobreviver à instabilidade atual, seus capangas devem emergir do conflito energizados. Mas, se o regime cair, as milícias alauitas serão as primeiras a sentir a ira da maioria da população, há muito reprimida.

Em geral, os bandidos servem como ótimos bodes expiatórios. Alguns meses atrás, o governo pós-revolucionário do Cairo anunciou uma "lei antibaltageya" que, em essência, suspende até a menor proteção os suspeitos de fazerem parte de gangues. O problema é que os legisladores não se deram ao trabalho de definir o que constitui uma gangue - levando defensores dos direitos civis a temer que o governo possa empregar facilmente a lei contra inimigos políticos aleatórios.

Por enquanto, muitos dos verdadeiros baltageyas parecem ter sobrevivido relativamente bem à queda de Hosni Mubarak. A criminalidade aumentou muito no Egito após a revolução, e muitos daqueles que antes aterrorizavam manifestantes contrários ao governo estão agora encontrando novos empregos como guarda-costas e motoristas dos ricos mais ansiosos. Isso não surpreende. Especialmente no Oriente Médio, nunca falta trabalho para valentões. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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