Vaias, silêncios e gritos de dor

Nas 72 horas após a maior tragédia aérea de nossa história, o presidente não deu as caras na TV

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2007 | 10h43

Durante cinco dias, o país discutiu as vaias que o presidente Lula levou no Maracanã, na abertura do Pan 2007. Quase não se falou em outra coisa entre os dias 13 e 18. Uns contra, muitos a favor, outros tantos lastimando não terem tido a oportunidade de apupar o presidente, alguns atribuindo ao prefeito César Maia um poder de mobilização que ele, felizmente, não tem. De repente, um polêmico caveat levantado por Luis Fernando Verissimo (hostilizar Lula pode servir aos interesses daqueles de quem deveríamos guardar distância) apimentou a controvérsia. "Antes de entrar num coro, olhe em volta", aconselhou Verissimo, referindo-se, naturalmente, aos que criticam e combatem o governo pelas razões erradas ou pelos mais espúrios motivos.A advertência procede, mas, se cumprida com extremo rigor, pode gerar uma inércia perniciosa, uma acomodação geral, similar à que durante anos impediu que comunistas de boa fé condenassem Stalin e a União Soviética, para não engrossar o coro de direitistas e fascistas. O que não significa que o pessoal que vaiou Lula não tenha olhado em volta antes de aderir ao coro - e apenas visto uma massa de descontentes com a promíscua relação do presidente com gente da pior espécie. Mais condenável que as vaias foi a deserção presidencial. Mesmo vaiado, Lula deveria ter cumprido o protocolo, nunca antes desobedecido nas aberturas dos jogos pan-americanos. Seu silêncio gerou constrangimento, com repercussão internacional, e só seria provisoriamente esquecido, assim como as vaias, quando sobreveio outro silêncio, ainda mais constrangedor, na noite em que o avião da TAM explodiu em Congonhas. Nas 72 horas que se seguiram à maior tragédia aérea de nossa história, o presidente não deu as caras na TV, nem pronunciamento pelo rádio fez. Logo ele, que adora aparecer e falar em público, até quando um subalterno pode dar conta do recado. Mesmo desconhecendo detalhes do ocorrido, deveria ter pensado na força simbólica do cargo que ocupa - logo ele, que se comporta e é visto pelo seu eleitorado menos consciente como "pai da pátria" - externando publicamente sua preocupação com o ocorrido e confortando os parentes das vítimas. O presidente mandou seu porta-voz ler uma nota burocrática, e continuou nas encolhas.Não é assim que se comporta um verdadeiro estadista; nem sequer os de meia-tigela. Também na quarta, uma tubulação subterrânea explodiu em Manhattan, deixando um saldo de um morto e 17 feridos. Mal os bombeiros entraram em ação, o governador de Nova York compareceu ao local para os devidos fins. O primeiro-ministro da Austrália foi a Bali confortar os australianos feridos no atentado terrorista de outubro de 2002. Quando de outro atentado, em Madri, em março de 2004, o primeiro-ministro José María Aznar dirigiu-se ao povo pela TV e o rei e a rainha foram visitar os feridos. Jacques Chirac não ficou nas encolhas depois dos últimos quebra-quebras em Paris. Até Bush visitou o câmpus da Universidade Virginia Tech para confortar os sobreviventes de uma chacina, em abril deste ano. No dia seguinte à explosão do avião da TAM Lula ainda não se comunicara com o governador nem com o prefeito de São Paulo. O alegado terçol foi uma desculpa, senão esfarrapada, incompetente. Se aparecesse de olho inchado diante das câmeras de TV, daria maior dramaticidade à sua persona. Quem sabe, lá nos grotões, seu eleitorado cativo até não pensasse que seu olho estava inchado de tanto chorar pelo ocorrido em Congonhas. Já teria sido de bom tamanho se ele tivesse antecipado diante das câmeras o que disse, na reunião ministerial do dia seguinte: "Não importa discutir as causas. A responsabilidade pela solução dos problemas é do governo, e disso não podemos fugir." O presidente não foi o único a fugir da raia. O ministro da Defesa, Waldir Pires, enviou um assessor especial e recolheu-se à sua já legendária inoperância. Relaxando em Portugal, a ministra do Turismo, Marta Suplicy, ainda estava por lá quando a contagem dos mortos foi considerada tecnicamente encerrada. O comandante da Aeronáutica e os presidentes da Agência Nacional da Aviação Civil e da Infraero deslocaram-se para o local da tragédia, mas fugiram da imprensa Toda vez que a situação política engrossava, o general Figueiredo, nosso último ditador militar, ameaçava "chamar o Pires". Outro Pires: o general Walter Pires, ministro do Exército. Em dez meses de caos aéreo, o presidente Lula jamais plagiou o bordão do Figueiredo. Ainda bem. Se o fizesse, ficaria na mão. Se Lula não desenvolveu o hábito de ameaçar chamar o seu Pires, este, por sua vez, ainda não se acostumou a chamar o presidente quando uma emergência se impõe. Lula soube do desastre pelo brigadeiro Joseli Camelo, coordenador de Assuntos Militares da Presidência. O ministro da Defesa demorou 15 horas para manifestar-se sobre a tragédia. Através de uma nota. Pediu cautela.Tivemos, pois, uma semana de vaias, silêncios e gritos de dor. E que assim terminaria se o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, não lhe tivesse acrescentado um novo elemento, de resto, complementar ao silêncio: a pantomima. Num assomo de alegria pela suspeita de que o desastre teria sido causado por um defeito do avião e não por acumulados efeitos de uma administração aérea defeituosa, o grão-vizir de Lula fechou a mão esquerda e espoucou-a contra a palma da mão direita. Notável exemplo de harmonia no coração do poder: o presidente silencia, como Clint Eastwood, enquanto seu assessor se manifesta (ou se regozija) por gestos, como Marcel Marceau. Como Marceau, não, como o fradinho do Henfil, o inventor do top!top!top!, o gesto que melhor traduz o mais brasileiro dos insultos obscenos. Em meio à fatalidade, uma saia-justa a dois (o assessor de imprensa, Bruno Gaspar, acompanhou seu chefe no regozijo), atenuando o bode geral com um prescindível "comic relief", providenciado, ironicamente, por uma das figuras mais austeras do governo. E que por ser, além de austera, materialista, na certa evitará atribuir o que em nossos céus e aeroportos vem ocorrendo a forças sobrenaturais, ao exu de Santos Dumont (que nasceu num 20 de julho e morreu num 23 de julho) e aos fluidos negativos da rua Otávio Tarquínio de Souza, onde o A-320 da TAM explodiu. Jornalista, escritor e historiador, o patrono daquela rua morreu num desastre aéreo, quando um urubu bateu no avião em que viajava com a mulher, a escritora Lúcia Miguel Pereira, já lá se vão 48 anos. Por via das dúvidas, xô! urubu.

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