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Vale-tudo artístico? O abuso em Maria Schneider e a discussão ética sobre o clássico de Bertolucci

Em meio ao ruído, esquecemos que O Último Tango trata da dor e não de prazer sexual. O risco é o debate sobre o filme ficar restrito à ética

Luiz Zanin Oricchio, Impresso

10 Dezembro 2016 | 16h00

Até há pouco, O Último Tango em Paris (1972) era tido como uma das obras primas do cinema contemporâneo. A crítica Pauline Kael dizia que a estreia do filme de Bernardo Bertolucci era um marco tão importante para o cinema quando a data da primeira apresentação de a Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, fora para a música. “Mudou a face de uma forma de arte”, escreveu na revista The New Yorker. Hoje, nas redes sociais, há quem clame para que o filme não seja mais visto e tenha seus negativos destruídos.

Tudo por causa da famosa cena em que Marlon Brando usa manteiga como lubrificante para estuprar Maria Schneider. Ou melhor, em que o personagem de Marlon Brando usa manteiga para perpetrar coito anal não consentido com a personagem de Maria Schneider.

O filme tem 44 anos. Brando morreu em 2004. Maria Schneider faleceu em 2011. Bernardo Bertolucci tem 75 anos e locomove-se em cadeira de rodas por causa de uma operação mal sucedida na coluna vertebral. Por que tudo retornou à tona agora e dessa maneira virulenta?

Várias vezes antes Maria se queixara da tal cena. Ou do filme, em geral. Embora soubesse que Último Tango havia projetado seu nome em escala planetária, declarou que ficara esgotada emocionalmente pela filmagem. E o nó de tudo estaria na tal cena primária. Na entrevista mais citada, concedida ao britânico Daily Mail em 2007, disse que Brando e Bertolucci não a informaram devidamente do teor da cena. “Senti-me um pouco estuprada” (“a little raped”), disse. Mas desmentiu que tenha havido intercurso real. Por outro lado, sentiu falta de solidariedade por parte de Brando, que teria lhe dito para não esquentar a cabeça, “pois era apenas um filme” (“Just a movie”).

O escândalo recente estourou quando o site espanhol El Mundo de Alycia exumou uma entrevista que Bertolucci deu em 2013 na Cinemateca Francesa na qual diz se sentir culpado, mas não arrependido por não ter contado à atriz tudo o que iria acontecer no set. “Não queria que ela interpretasse a dor e a humilhação, mas que as sentisse”, diz. “Queria que reagisse como uma garota e não como uma atriz.” E, embora com peso na consciência, admitia que a decisão fora boa para o filme.

O mundo desabou sobre ele. Acusaram-no de haver escondido todo o teor da cena, o que ele nega. “Ela sabia, pois lera o roteiro. Apenas o detalhe da manteiga foi mantido em segredo por Brando e por mim.”

De qualquer forma, o estrago está feito e, sendo o nosso tempo o que é, dificilmente Bertolucci escapará com reputação ilesa, da mesma forma que Roman Polanski, com o caso de abuso cometido com uma menor nos Estados Unidos, e Woody Allen, que acabou se casando com uma enteada da sua então mulher Mia Farrow, tiveram comprometidas as suas. São casos distintos, mas os três envolvem a sexualidade, esse aspecto tabu da existência humana sobre o qual recaem tanto os preconceitos obscurantistas quanto sórdidos exercícios de poder.

Abuso de poder parece ter sido bem o caso no affair Maria Schneider. Na época uma mocinha inexperiente de 19 anos, nem pensou afrontar dois monstros sagrados como Bernardo Bertolucci e Marlon Brando. Na mesma famosa entrevista ao Daily News, ela diz que deveria ter procurado o advogado e aberto um processo. Não o fez. Nem abandonou as filmagens.

Disse que, após a experiência, nunca mais consentiu em ficar nua num filme. Nem se expor da maneira como fizera em Último Tango. Sua vida foi instável, uma espiral de uso de drogas e tentativas de suicídio, e não teve a carreira promissora que então se anunciava. Morreu de câncer, com 58 anos. Estabelecer relação de causa e efeito entre a cena da manteiga e uma vida mal vivida pode ser tentador. Mas não deixa de ser uma simplificação mecânica. Nem sempre traumas infligidos por outros trazem consequências tão drásticas. O que não desculpa esses atos, em absoluto. Mas, por sorte, a psique humana é complexa e pode responder de maneira mais plástica a agressões do meio e dos outros. De qualquer forma, não há como provar que a vida de Maria teria sido outra sem O Último Tango. E nem provar o contrário.

De qualquer forma, somadas as versões (Brando e Maria não estão mais aqui apara aprofundar o assunto), ficamos com o fato de uma jovem atriz que se sentiu agredida e não pôde se defender de um nítido caso de abuso de poder no set de filmagem.

Há histórias parecidas no cinema. Às pencas, aliás. Tippi Hedren queixou-se de Hitchcock e Shelley Duvall, de Kubrick. Em Os Pássaros, Hitch teria usado animais de verdade, e de bicos afiados, para apavorar a atriz e conseguir os efeitos desejados. Em O Iluminado, Kubrick teria sugerido a Shelley que Jack Nicholson estava mesmo perturbado, o que deixou a atriz em estado de pânico. O caso mais célebre, porém, pertence ao cinema italiano. O humanista Vittorio De Sica teria feito ameaças ao garoto Enzo Staiola, então com sete anos, para que ele chorasse de verdade na cena mais comovente do clássico neorrealista Ladrões de Bicicletas.

Vale tudo em nome da arte, então? Freud dizia que o pintor tinha obrigação de queimar a mobília da casa para manter a modelo aquecida. Quer dizer, a arte viria antes de tudo. Mas isso não pode ser tomado como dogma. A vida pode ser mais importante. Em todo caso, a virulência que o episódio com Maria Schneider despertou quase meio século depois demonstra um fato inequívoco: vivemos outra época e estamos sob o registro de outra sensibilidade. Agressões de gênero não são mais toleradas, seja em nome de costumes, tradições ou resultados artísticos. Não há atenuantes. Esse é um momento no qual as mulheres fazem ouvir suas vozes como nunca. E desculpas machistas não são mais aceitas. Hoje duvido que um diretor se expusesse a proceder da maneira que poderia parecer aceitável no mundo louco dos anos 1970. Os tempos mudam. E por isso mesmo é sempre complicado julgar o passado com os olhos do presente.

E o filme? A cena da manteiga é apenas uma entre tantas sequências de O Último Tango em Paris. O conjunto da obra é espetacular, com as interpretações brilhantes de Marlon Brando e Maria Schneider, sob a direção de Bertolucci. É, e continua a ser, apesar da polêmica, um dos títulos mais importantes e impactantes do cinema moderno. Em meio a tanto ruído, esquecemo-nos de que é um filme sobre a dor e não sobre o prazer erótico ou a dominação sexual masculina. A discussão que agora se trava é ética, e não estética.

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