'Vamo começá essa bagaça'

Quem é o humorista por trás da grande ideia de jerico do ano: dar uma de presidente da República

Christian Carvalho Cruz,

21 de novembro de 2009 | 18h03

A porta automática se abre e a recepcionista loura sentada atrás do balcão escancara a mala de ferramentas: "Você não vai falar com ninguém". Ordens são ordens. E nessa quarta-feira quente de novembro ela recebeu uma para bancar a durona. Deve manter a voz firme a fim de botar os intrometidos no seu devido lugar, ora essa, e falar com cla-re-za, naquele tom enérgico meio perdido entre a antipatia e a falta de educação. "Você não vai falar com ninguém, já disse", repete com desdém, cabecinha pro lado, como se tivesse mais o que fazer. Estamos no 14º andar do número 2200 da Avenida Paulista. Edifício estreito, charme zero, quase na esquina com a Rua Augusta, em São Paulo. Foi dali, dos coloridos estúdios da Rádio Metropolitana FM, que saiu a grande ideia de jerico deste fim de ano: usar o imitador Luiz Xavier, o Bartô, para dar entrevistas por telefone a rádios estrangeiras como se fosse seu xará, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Obviamente, sem avisar que se tratava de um trote do programa Chupim, humorístico que a Metropolitana leva ao ar nos finais de tarde.

 

Pelo menos seis emissoras foram contatadas por um certo Caio Martins, que, assinando e-mail como "Assessor Presidência da República", oferecia conversas exclusivas com o "Excelentíssimo Sr. Presidente Lula, na qual ele estará abordando o assunto da conquista da cidade do Rio de Janeiro em sediar os jogos olímpicos de 2016". Quatro toparam e veicularam a entrevista em seus países: Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor Leste. Uma, do Canadá, desconfiou. Foi checar a informação e, diante da inexistência de um Caio Martins no Palácio do Planalto, disse "não, muito obrigado". Outra, da Austrália, fez a entrevista, mas não a transmitiu. Denunciou a armação à Secretaria de Comunicação Social do governo brasileiro. E como uma piada puxa outra, o caso foi parar no Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI), que acionou a Abin, Agência Brasileira de Inteligência. Verdade. Os arapongas levantaram "informações preliminares" sobre Bartô e a Metropolitana e as encaminharam à Polícia Federal.

 

Daí a malquerença desmedida da recepcionista e o clima tenso dentro da rádio. Outras louras vêm e vão de cara amarrada com seus saltinhos barulhentos. Rapazes de camisa listrada, bolsa de carteiro e cabelo arrumadinho ("são do departamento comercial", entrega a secretária) não querem dar palavra. Produtores não viram, não sabem, não querem saber. Num ambiente em que se vive de falar, a ordem é calar. No estúdio envidraçado vai começar mais um Chupim, e Bartô lembra um Carlitos arrependido, um palhaço triste. O Lula cover já passou dos 40 e dá quase dois do original em altura. Veste jeans claro encardido e camiseta verde desbeiçada. Se a imitação que o fez famoso fosse do presidente anterior, ele poderia dizer sobre si mesmo, repetindo o preconceito de FHC: "Tenho um pé na cozinha". Sua voz natural é grave, elegante. Conhecidos afirmam ser "uma gracinha de pessoa", "um piadista em tempo integral" que "trabalha com vendas", além do emprego na Metropolitana.

 

No Chupim, Bartô divide os microfones com quatro apresentadores. A drag queen Léo Áquilla, conhecida de outros carnavais na TV, ex-parceira de palco de Monique Evans e Luciana Gimenez. Mano Cleiton, um mano da periferia que usa boné, correntão no pescoço, calça de náilon e só consegue dizer "mano", tá ligado, mano? Barbie, nome artístico de Amanda Bello, dona de blusinhas apertadíssimas que por certo comprometem sua respiração - bem, aceitamos outras explicações para sua voz fininha e estrepitosa, de quem chupou gás hélio de balão de parquinho. E Marcelo Barbur, o Beby, inventor do programa com o dono da rádio, Jayr Sanzone. Beby (se diz Bébi mesmo) possui uma devotada curiosidade pela sexualidade alheia: "Você é gay, não é?", ele sempre pergunta, com uma voz nem lá nem cá. Basicamente, o Chupim é um festival de grosserias proferidas com a pretensão de divertir o motorista irremediavelmente preso no rush paulistano. Consiste em passar trotes em pessoas que põem passarinhos, persianas e outras quinquilharias à venda em anúncios de jornal. E também em esculhambar os ouvintes que telefonam implorando por ingressos de shows, iPods ou convites vip para motéis na Rodovia Raposo Tavares. No meio, muita música americana chacoalhante e algum rock adolescente brasileiro.

 

Ok, é preciso admitir: imitando Lula, Bartô é o cara. Impossível não rir. Nem o próprio se aguenta e cai na gargalhada quando se ouve nos alto-falantes do estúdio. O alívio, contudo, se evapora no intervalo comercial e a tensão volta ao ar. Com olhar fixo no tampo da mesa, absorto, quem sabe preocupado, o humorista parece pensar nas possíveis consequências dos trotes não desmentidos às rádios estrangeiras. GSI, Abin, PF... E foi Bartô que fez, poderia dizer, imitando Paulo Maluf. Na letra sem graça da lei, esse tipo de brincadeira configura crime de falsa identidade (3 meses a 1 ano de detenção), informa o advogado Alberto Toron, professor de direito penal da PUC-SP.

 

Sem falar na empulhação aos ouvintes brasileiros. Sim, porque as entrevistas veiculadas no Brasil seriam diferentes das originais transmitidas nos países que caíram no trote. "Foram grotescamente manipuladas. O que foi ao ar no Brasil e acabou na internet não era o que o falso Lula disse aos africanos, ou a mim, ou aos timorenses", revela a jornalista brasileira Beatriz Wagner, da rádio australiana SBS. "Do que ouvi no YouTube as perguntas eram as minhas, mas as respostas eram totalmente diferentes das que o suposto Lula da Silva me deu", confirma um constrangido Fernando Fonseca, jornalista da Rádio Nova, de Cabo Verde. "Quando conversou comigo parecia uma pessoa séria, falava como um detentor do poder. Não fez uma piada sequer. E a voz era muito parecida, em nenhum momento duvidei que não fosse o Lula da Silva. Caí na farsa." Uma farsa duplamente qualificada, por assim dizer.

 

‘ANTES DE MAIS NADA’

 

Desconfiado e escaldado, Fonseca não quis enviar o arquivo contendo a gravação de sua entrevista para efeito de comparação. "Como vou saber que você é quem diz ser?", justificou por telefone. Na versão que foi ao ar no Brasil, Bartô-Lula começa com uma saudação à família do radialista: "Queria mandá um abraço pra senhora sua esposa, pros menino tudo muita saúde... e que os menino teja aí na África brincando com os lião, correndo atrás das zebra... Mas vamo começá logo essa bagaça..." Fonseca pergunta: "O que o senhor acha que ainda precisa ser mudado no Rio de Janeiro (para receber a Olimpíada de 2016)?" Bartô-Lula capricha: "O que eu gostaria muito de mudá nessa cidade, e tenho dois ou três técnico trabalhando nessa questão, seria justamente o horário que o sol se põe. Eu tô tentando vê si consigo desviá a trajetória do planeta para que eu possa conseguir que o sol se ponha por volta das 10, 11 hora da noite". E por que o Rio venceu a disputa?, continua o jornalista cabo-verdiano. "É muito simples, meu caro Fernando Fonseca. Aqui nóis tem corpo, nóis tem pandeiro, aqui nóis tem cintura fina, as muié anda com poco pano e o povo qué vê é isso aí, entendeu?"

 

Não se sabe o que o presidente pensa das imitações de Bartô, se é que as conhece. O histórico indica que talvez seja capaz de ver alguma graça. "Lula sempre foi imitado e sempre se divertiu. Nunca o vi reclamar", conta o ex-colega de sindicato e deputado federal Vicentinho. "Ele ri junto, não se incomoda", atesta o irmão Frei Chico. "Vive pedindo que lhe contem as novas piadas que andam fazendo dele", continua o ex-assessor e jornalista Ricardo Kotscho. A propósito, sabe a última? Diz que Lula resolveu imitar o Bartô ao explicar o apagão dias atrás: "Eu já disse várias vezes: Freud dizia que tem algumas coisas que a humanidade não controlaria. Uma delas era as intempéries. A gente não sabe o tamanho do vento, o tamanho da chuva. Sabe que, quando vem, tudo que a gente bolou, escafedeu-se. Então, essa questão do clima é delicada, porque o mundo é redondo".

 

De volta ao estúdio. A esta altura, reivindicando direitos autorais, a Metropolitana já havia mandado tirar do YouTube as entrevistas do Lula cover. Mas Bartô é brasileiro e não desiste nunca. Inventou de não mais usar o nome do presidente nas imitações. O personagem agora é simplesmente "Luizinho, companheiro". Ele responde aos ouvintes sobre os temas do momento. "O Corinthians quer contratar o Roberto Carlos. O que você acha, Luizinho?", quer saber um. A resposta: "Veja você... Como é que vai contatá um homi desse? Um homi desse faz show dia e noite, pá baixo e pá cima... É um gasto a mais que o time vai tê. E tem uma ôta peocupação que eu tenho. Dependendo da posição que esse homi fô colocado pa jogá, esse homi me pega a bola, vai fazê um passe e vai bola pu lado e perna pu ôto, já imaginô?" Uma moça pede a opinião de Luizinho sobre o filme Lula, o Filho do Brasil, lançado essa semana. "Num tem nada de especial, nada de novidade. Já fiz muitos filme, só que não deram divulgação. Fiz Delubinho, Pão e Vinho, fiz Duda, a Rinha Assassina..."

 

As frases vão saindo naturalmente numa voz rouca que teimosamente assassina concordâncias, extirpa fonemas e faz aquele "s" meio "f" com a língua enfiada entre os dentes da frente. Não parecem dar muito trabalho a Bartô. "Mas ele fala ligeiramente mais rápido que o presidente", observa Luciana Panke, professora do departamento de comunicação da Universidade Federal do Paraná. Ela estudou 30 anos de palavreado lulístico. Ouviu e leu tudo que havia disponível para escrever sua tese de doutorado As Mudanças de Argumentos nos Discursos de Lula, sob o Prisma da Temática do Emprego. Depois de escutar Bartô, ela analisa: "A voz é semelhante. Não fossem as piadas, enganaria bem. Mas o que mais chama a atenção é a maneira como ele se apropria de marcas específicas da fala do Lula. Estão ali o mesmo jeito de ilustrar situações gerais com exemplos particulares e o mesmo jeito de ligar as frases com expressões como ‘veja bem’, ‘meu querido’, ‘vou dizer uma coisa pra você’ e ‘antes de mais nada’".

 

‘VEJA BEM, MEU QUERIDO’

 

Talvez esteja ali também uma boa pitada de emoção, algo que o ator Rui Ricardo Dias julga fundamental para a construção do Lula que ele interpreta no cinema. "Ele vivencia com intensidade as coisas que fala, acredita nelas. Tentei captar um pouco disso e não ficar só na imitação da voz e dos gestos", explica. A diferença para Bartô é que Dias levou quatro meses para erguer o seu Lula. Teve muita andança por São Bernardo do Campo, muito bate-papo com familiares e amigos do presidente. O agora "Luizinho, companheiro" sai na base do improviso, não há roteiro, segundo um ex-funcionário da rádio.

 

Fim de mais um Chupim. Bartô deixa o estúdio e, sob o olhar reprovador da secretária, vem dar um tostão de sua voz: "Desculpa, não posso dar entrevista, não posso falar. Ordens da direção da rádio". Veja bem, meu caro Bartô, vou dizer uma coisa pra você. Você, meu querido, você já falou bastante. Você falou até mais do que devia...

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