Museu Boijmans Van Beuningen
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'Vapor Barato' conta história dividida em 26 sessões psicanalíticas

Apesar de ter apenas dois personagens, livro de Wilson Alves-Bezerra é protagonizado pelo país em que paciente e psicólogo vivem

Faustino da Rocha Rodrigues*, Especial para o Estado

09 de fevereiro de 2019 | 16h00

Como sair imune a transformações políticas que anunciam uma realidade social conturbada? Como traduzi-las para a literatura? E mais: como fazer isso sem cair em uma grande introspecção a denotar que as angústias de um determinado protagonista tomem o lugar principal da trama obscurecendo a realidade ao redor? Wilson Alves-Bezerra sabe o caminho. Vapor Barato é escrito na forma de diálogos nas consultas de um paciente com seu psicanalista. Cada sessão, um capítulo. São 26. E, de modo até mesmo abrupto, porém, sem rispidez e agressão ao leitor, os dilemas surgem. 

Embora com apenas dois personagens, não é exagerado dizer que o protagonismo esteja fora deles. Isso porque Bezerra está longe de se restringir às angústias do paciente no divã – caminho que exigiria a minuciosa escrita dos pensamentos verbalizados, insinuando profunda introspecção. Tais angústias permanecem em primeiro plano, mas em permanente sintonia com a realidade bastante presente na vida do leitor. Explico melhor. 

A realidade social em questão é muito similar à brasileira. A palavra Brasil sequer é mencionada e toda referência feita pelo paciente à sua pátria remete à Esmerilhândia. O nome remete ao verbo esmerilhar, e, consequentemente, ao seu significado que quiçá possa ser melhor empregado aqui: polir. Trata-se, neste caso, de um ato contínuo a implicar ação não finalizada. O referido país ainda não está terminado. O leitor facilmente se dá conta disso, evidenciando o apelo do autor àquele que tem contato com o livro. 

Se Bezerra insistisse em se restringir à introspecção dos personagens, além de correr o risco de uma narrativa mais densa – porque necessitaria de um ritmo um pouco mais homogêneo encadeado com a evolução dos sentimentos e pensamentos dos personagens – não conseguiria retratar toda uma realidade ao seu redor. Entretanto, é possível saber o que se passa no país em questão pelos diálogos presentes na obra – ao mesmo tempo em que se vivencia a angústia do personagem no divã. E isso é ótimo para quem lê. 

Em alguns capítulos, como em qualquer sessão de psicanálise, o paciente/personagem está mais afoito, angustiado. Em outros, cheio de certezas. Outros, ainda, mais calmo, porém, atento e questionador. Conduzir isso de modo literário é um desafio. Bezerra o faz trazendo o diálogo para um primeiro plano, conferindo-lhe algo semelhante ao status de protagonista. 

É no diálogo, chave estrutural da obra, que se encerra o artifício maior de Vapor Barato. Logo, o diálogo, pela ferramenta da fala, premissa psicanalítica fundamental, desponta como essa espécie de protagonista do livro. E, por meio desse diálogo, e somente por ele, é possível acessar as particularidades da constituição do país em questão, dos movimentos políticos tão angustiantes para o personagem no divã e seu analista, quanto compreender suas próprias questões e histórias. 

Ademais, a condução do diálogo por meio da exposição da fala do analisando expõe os fatos pessoais de forma nua e crua. Não há recurso imediato a um narrador – ou mesmo da consciência do personagem, na forma de pensamento – a promover reconstruções históricas situando o leitor. Algo bastante relevante. 

Ainda que de modo assaz breve, o analisando, ao se expressar junto ao psicanalista, faz pequenas reconstruções da história de seu país, chegando a interessantes conclusões. Bezerra expõe os acontecimentos ao atrelá-los à história do próprio personagem. Isso sem falar que se trata de acontecimentos que, atualmente, são constantemente evocados pelo cotidiano. 

Não há complacência com o leitor – tanto que não há narrador a situar tais fatos históricos, permitindo a quem lê um mínimo de compreensão. E isso não se faz necessário, sobretudo porque Bezerra consegue atrelar os acontecimentos históricos à história do próprio personagem.

Simultaneamente, a importância do fato histórico é elevada a um outro patamar segundo a angústia vivida pelo analisando. Por exemplo, quando descreve a morte de uma ex-primeira dama, vítima de AVC – em clara alusão a Marisa Letícia, a esposa do ex-presidente Lula. Em seu relato, o problema de saúde foi decorrente de uma série de perseguições sofrida por ela e seu marido.

Sua angústia reposiciona esse episódio não como fato isolado em meio a um conjunto sem fim de acontecimentos. Não, pois é essa angústia que permite um redimensionamento do episódio a partir do tipo de efeito sobre o analisando. O público leitor, então, repensa a questão. 

Por conseguinte, a estruturação narrativa se dando por meio do diálogo atrela a história do país em questão à vida do analisando. Por sua vez, de imediato, como não há narrador, a evidência da vida pessoal somente se torna possível por meio da fala no divã, o ambiente por excelência em que se passa o enredo.

Os humores do personagem, por exemplo, tornam-se elementos condicionantes para uma compreensão mais ampla de tudo, da história do país e da vida pessoal. Porém, como não há sequer a descrição de um sorriso, mínimo que seja, o leitor deve mergulhar no diálogo, tentando identificar entonações, expressões, demonstrações de afeto, sentimentos etc. E nisso, as próprias manifestações do leitor imperam.

Bezerra tomou para si uma gigantesca empreitada narrativa. Transpor tudo que é relevante por si mesmo, digno de ser narrado literariamente, em fala. Tudo é fala. O mais impressionante é que o leitor consegue acessar, digamos, os humores dos personagens – embora sequer tenha a descrição do ambiente, se é escuro, claro, se as sessões ocorrem de noite ou de dia, entre outras particularidades que inicialmente seriam relevantes para a narrativa como um todo. 

Com um rebuscado artifício de escrita, Vapor Barato é um livro absurdamente atual a sinalizar para infinitas possibilidades alcançadas com o diálogo. Ao leitor, mobilizado por acontecimentos sociais apresentados pelas falas dos personagens, cabe a interpretação, tanto do livro, quanto da realidade. Aliás, é difícil separar os dois. 

*FAUSTINO DA ROCHA RODRIGUES É JORNALISTA, CIENTISTA SOCIAL E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS

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