Varre, vassourinha

Cobrar dos jingles projetos de país é como cobrar a queda da inflação com base nas propagandas dos supermercados

Sírio Possenti, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2014 | 16h00

Sobre eleições há alguns consensos, ou, pelo menos, palpites bem assentados. São divergentes, às vezes, mas, no fundo, cada um deles dá conta de parte do processo, de um dos fatores que explicam um resultado: o funcionamento da economia (é ela, estúpido!), desdobrada em inflação sob controle, emprego em alta ou, pelo menos, não em baixa, continuidade de governos bem avaliados ou vontade de mudar, “cansaço do material”, etc. Às vezes parece haver rejeição ou preferência por uma pessoa, por um tipo no governo: uns não aceitam populares, outros não gostam de coxinhas, mulheres ainda são olhadas de esguelha... 

Governos são regidos por acordos. Alguns são considerados óbvios, como não mexer na poupança, um exemplo básico de cumprimento das regras. Outros são assumidos em público: se não forem cumpridos, o governante pode se dar mal. Os fundamentais, sabemos, são combinados com pouca gente, em pequenas reuniões com a “sociedade”. Sobre esses, os eleitores são os últimos a saber, ou não saberão nunca. São os verdadeiros segredos de Estado.

Mas antes do governo há as campanhas. E é preciso ganhar as eleições. E o povo - que muita gente considera ignorante - é quem elege, porque a “sociedade” é minoria. Pode ser ela quem governe, mas ela não elege. 

Antigamente, campanhas eram comícios e era decisivo o papel dos cabos eleitorais. Depois vieram o rádio e a televisão. Agora, as redes sociais estão em alta. Assim, aposta fundamental é na palavra. O que resta dos comícios é para compor um programa de TV com povo. 

Mas continuam vivos os jingles e os slogans. Sem eles, não há campanha. Repetem-se em todas as peças publicitárias. E podem ter vida própria. Espera-se que sejam cantarolados e gritados.

Os principais candidatos já divulgaram os seus, que ajudaram a animar as convenções. Merecem algumas notas. O que vale para todos é que não se dirigem a intelectuais, aos que debatem detalhes econômicos ou apresentam sutilezas sobre a propalada reforma política. Intelectual não ganha eleição.

Dilma, Coração Valente é o título do jingle da candidata à reeleição. Começa assim: “Dilma, coração valente / força brasileira / garra desta gente. / Dilma, coração valente, nada nos segura pra seguir em frente. / Você nunca desviou o olhar do sofrimento do povo / Por isso, eu te quero outra vez”.

Mais ou menos literalmente, o “locutor” (que fala com ela) atribui certas virtudes à candidata e declara seu voto para um segundo mandato (eu te quero outra vez). A música é um xote, ritmo popular e regional, o que define mais ou menos claramente seu destinatário. 

O tópico da reeleição está em “Por isso, eu te quero de novo / Você nunca vacilou em lutar em favor da gente” e sua relação com ou dependência de Lula, em “Com você e Lula pra seguir em frente”. Há toques de memória da faxina e do fato de ser mulher em “Mulher de mãos limpas / Mulher de mãos livres / Mulher de mãos firmes...”.

“O que tá bom vai continuar / O que não tá a gente vai melhorar” poderia estar em qualquer dos três jingles, porque nenhum candidato, a sério ou “à brinca”, quer perder os eleitores satisfeitos com os últimos governos. Essa história de continuar mudando é velha, e está ficando chata (precisaríamos das gravações das reuniões secretas com a “sociedade”). 

Visto do ponto de vista programático, o jingle de Aécio (um arranjo pop), tucano e, por consequência, imaginariamente ligado à elite intelectual, é mais simplório que o de Dilma. Diz apenas, em linguagem quase infantil, que “A gente quer Aécio” (“Aé, eu quero ver / Aé, Aé, Aécio, a gente quer você / Aé, é quem tem que ser / Aé, Aé, Aécio a gente quer você / Aé (Ah, é?), melhor pra gente / Aé, Aé, Aé Aécio nosso presidente”. O único traço programático está no verso “melhor pra gente”. Talvez “Aé” possa ser lido como “Ah, é”, como uma obviedade. Pode pegar!

O jingle de Eduardo Campos (e Marina) começa com uma batucada, vira um rap, com suas típicas rimas pobres: “Você que é de longe / Você que tá perto / Você que tá em dúvida / Você que tá certo...”. Seu forte é o refrão, genérico, mas programático (ou vice-versa): “Coragem pra mudar o Brasil / Eu vou com Eduardo e Marina”, com os versos sintaticamente descosturados (uma imagem da relação da dupla?). Aliás, é a única peça que menciona a vice, o que se explica facilmente: é nela que está, por enquanto, pelo menos, a esperança dos votos.

Os dois são apresentados como brasileiros típicos (“Eduardo e Marina têm a cara do Brasil / Têm as cores (!) do Brasil”, e iguais (“Todo brasileiro tem um sonho pra viver / Eduardo e Marina são assim como você”).

Como se pode ver pela amostra, não há nada de especialmente programático nos jingles. Mas sempre foi assim (Varre, varre, vassourinha) e não é deles que se pode cobrar projetos de país. Seria como cobrar programas financeiros das propagandas de bancos ou queda da inflação com base nas propagandas dos supermercados.

Em nenhum dos jingles falam os candidatos. São sempre outros que falam deles. Fala-se deles ou com ela. Destacam-se predicados, ações, seu suposto modo de ser. Menos o de Aécio: a gente quer, é tudo o que o jingle diz. Pode ser, assim que seja o mais eficaz, como propaganda. 

Nunca se pode esquecer que jingles são peças publicitárias. E que a publicidade não tem os mesmos compromissos da ciência e mesmo do jornalismo. As propagandas, a sua maneira, mentem (prometem sucesso com as mulheres a um homem que usa determinado desodorante (ou carro) e, às mulheres, uma vida tranquila se usarem um certo absorvente. É claro que são mentiras. Mas prometem o que homens e mulheres desejam.

As propagandas eleitorais também buscam uma identificação imaginária com segmentos sociais (regionais, culturais, econômicos). Prometer mudar, dizer que têm coragem, etc. Podem ser formas de “vender” um candidato, mas ele só será comprado por quem acha, mesmo que vagamente, que um presidente deva ser assim e assado. 

Por isso, às vezes, pode ser melhor não dizer nada, ou dizer o mínimo possível e embalar esse pouco muito pouco pouco mesmo em letra e música infantis (I like Ike, Lula lá). 

Os jingles estão para as campanhas eleitorais como os “lalarilaiá” para as letras de música.

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Sírio Posenti é professor do Departamento de Linguística/Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autor de 'Questões para analistas do discurso' (Parábola)

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