Vazamento revelador

No roubo do Enem, pouco ou nada foi dito sobre o mais importante: o conteúdo das provas

Sírio Possenti*, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2009 | 01h18

É difícil não ser favorável a avaliações nacionais do estilo Enem, desde que não se multipliquem excessivamente e valham para diversas finalidades, sobretudo para avaliação do funcionamento dos sistemas escolares e, pelo menos parcialmente, para acesso às universidades e talvez a outros espaços. Se bem feitas, essas avaliações poderiam substituir aspectos ou etapas de outros concursos ou, pelo menos, ser uma das medidas até para certas carreiras.

Sua múltipla função teria como efeito também o de reduzir a um tamanho adequado as indústrias da avaliação - cujos produtos mais óbvios são as provas e as complicadas logísticas - e aumentar sua qualidade e confiabilidade.

Quando ocorre um problema como o vazamento da prova do Enem, também fica claro que se debate pouco o próprio exame (sobre isso, só cursinhos opinam, nunca se saberá por quê). Pouco ou nada foi declarado sobre a questão, que deveria ser central, de o que perguntar aos estudantes e como fazê-lo, para verificar se, afinal, eles têm ou não, ou em que medida, o conjunto de competências e habilidades (expressões das quais desconfio muito) requeridas para avançar na escola ou para a vida profissional e social.

Na verdade, esse tem sido o viés dominante nas discussões sobre a escola: há muitas estatísticas e notícias mais ou menos interessantes ou escandalosas a respeito da merenda escolar; projetos tentam incluir novos temas nos currículos (espanhol, sociologia, filosofia, sem contar a educação sexual e de trânsito...); compras equivocadas ou nem tanto de livros; mas poucas vezes se vê competentemente analisado o que se ensina ou aprende (ou não) nas escolas. Discute-se o entorno da escola ou da sala de aula, mas quase nunca se entra nelas (o que, às vezes, convenhamos, tem um lado bom, porque se afastam os palpiteiros que supostamente entendem de tudo).

É hora de olhar de perto para as provas, a formulação das questões e o gabarito. E debater. Por exemplo, o primeiro contato com a prova sobre linguagens e suas tecnologias, etc., produz efeito bastante negativo. Há problemas na primeira questão, que ficam mais graves na segunda, e a terceira não é muito feliz. A leitura de toda a prova mostra que há questões interessantes e bem formuladas. Mas que há ainda outras cuja presença não convence, e mais outras com problemas de formulação (salvo melhor juízo, sempre).

Não há espaço para comentar todas as questões. O fato de comentar algumas problemáticas não quer dizer que essa seja necessariamente a marca do exame. Mas significa que a prova que vazou tinha outros problemas, além do vazamento, e seria bom que não se repetissem. Vejamos.

A primeira questão trata da escrita típica das "conversações" pelo MSN. Começa com uma apresentação bastante razoável do fato. Mas a introdução às alternativas é um pouco problemática: diz que, para que uma comunicação desse tipo se dê em tempo real, "é necessário que a escrita das informações seja rápida". Não acho que esta seja a melhor maneira de encarar a questão: a escrita típica do MSN é um efeito tanto da situação quanto do fato de que se está "teclando" e de outras questões menos utilitárias, como a de sentir-se parte de um grupo. Além disso, nem sempre se trata de informações. Aliás, na "conversa" apresentada, há mais saudações e perguntas do que informações. Mas o mais grave, a meu ver, é a ocorrência de uma alternativa, a primeira, absolutamente sem sentido. A sensação é de descuido pelo menos na criação das alternativas erradas. A questão diz que, para que a comunicação se dê em tempo real, é necessário que a escrita seja rápida, o que é feito por meio de... A) frases completas, escritas cuidadosamente com acentos e letras maiúsculas (como "oq vc tá fazendo?"). Ora, o exemplo entre parênteses é o contrário do que está descrito. Pegadinha?

A questão dois versa sobre uma tira de Quino. Resumindo: Mafalda e seu pai estão no escritório. Ele vai até a estante, pega um dicionário, faz uma consulta e o devolve ao mesmo lugar. Mafalda, que viu a cena, grita (sua boca indica isso): "Desse jeito você nunca vai terminar de ler um livro tão grosso." A consigna é, pasmem: "O efeito de humor foi o recurso utilizado pelo autor da tirinha para mostrar que o pai de Mafalda..." E a resposta certa é, segundo o gabarito: "queria consultar o dicionário para tirar uma dúvida, e não ler o livro, como sua filha pensava." Ora, essa leitura é absolutamente equivocada. O que a tira significa é que Mafalda não sabe que não se leem dicionários como se faz com outros livros, e por isso diz o que diz a seu pai. E o efeito de humor não é algo que o autor use para uma finalidade qualquer, mas é o efeito que o texto produz, com base na ignorância de Mafalda sobre a utilidade dos dicionários, um ingrediente, aliás, que não está explícito e o leitor deve descobrir. Ou seja, a questão deveria ser sobre isso.

A terceira questão informa que a maioria das declarações de Imposto de Renda é realizada pela internet, etc., e a pergunta é se com isso se visa: (A) gerar mais despesas aos cofres públicos; (B) criar mais burocracia no relacionamento com o cidadão; (C) facilitar e agilizar os serviços disponíveis; (D) vigiar e controlar os atos dos cidadãos; (E) definir uma política que privilegia a alta sociedade.

O gabarito informa que a resposta é (C). Pode-se concordar. Mas de onde vem a resposta? E por que não é (D)? O que essa questão mede? Informação? Cidadania? Crença na boa vontade do Estado?

A questão 7 espera que, na situação hipotética em que ter á de escrever uma carta pedindo emprego, o aluno escolha a opção "evidenciará (sic!) a norma padrão". O sentido é de "escolher", "utilizar" etc. Por que "evidenciar"?

Mas há também boas questões. Talvez até constituam a maior parte da prova. Um exemplo é (11): fornece uma narrativa literária e pergunta qual das alternativas propostas em seguida tem o mesmo fato em linguagem jornalística. É bem sacada e bem elaborada, sendo que as alternativas a serem excluídas não são jornalísticas, mas não são qualquer coisa, são gêneros reais e identificáveis com relativa facilidade.

Está na hora de analisar e discutir as questões, de verificar a confiabilidade do instrumento de avaliação tanto quanto a da logística de impressão e de distribuição das provas. Não se pode achar que as falhas da prova sejam menos graves do que um vazamento. Não basta que o exame tenha muitas virtudes. Dado seu alcance, ele não pode ter nenhum defeito.

*Professor do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Os Humores da Língua - Análise Linguística de Piadas (Mercado de Letras, Campinas)

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