Vencedor do Nobel em 1929, Thomas Mann ganha reedição no Brasil

Vencedor do Nobel em 1929, Thomas Mann ganha reedição no Brasil

'Confissões do Impostor Felix Krull' tem muito a dizer ao País de hoje

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para O Estado de S. Paulo

07 Abril 2018 | 16h00

Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1929, o escritor alemão Thomas Mann (1875-1955) acompanhou os mais fundamentais eventos históricos registrados entre o fim do século 19 e meados do século 20. Como nos informa Mário Luiz Frungillo, professor de Teoria Literária da Unicamp e tradutor da obra Confissões do Impostor Felix Krull (Companhia das Letras), originalmente publicada em 1955, o arco que se estende de 1910 a 1950, décadas durante as quais o autor escreveu, de forma intermitente, as aventuras e desventuras de Felix Krull, “não foi um período qualquer.”

+++Nobel de Literatura em 1958, Boris Pasternak tem clássico publicado no Brasil

Já próximo do fim da vida, o escritor fez um sumário dos principais acontecimentos que a marcaram: “A hegemonia continental da Alemanha sob Bismarck; o ápice do império britânico sob a rainha Vitória; a corrosão intelectual das normas de vida burguesa em toda a Europa; a catástrofe de 1914, com a entrada da América na política mundial e a queda do império alemão; a Revolução Russa, em 1917; a ascensão do fascismo na Itália e do nacional-socialismo na Alemanha; o horror hitlerista, a aliança entre Leste e Oeste para enfrentá-lo, a guerra ganha e a paz ainda uma vez perdida.” 

+++Nobel mexicano Octavio Paz analisa a obra da primeira feminista da América

Ao sobrevoarmos o impressionante panorama histórico descrito (e vivenciado) por Thomas Mann, entrevemos que as noções de formação e apogeu, de um lado, e deformação e declínio, de outro, se complementam como duas faces da mesma moeda que o impostor Felix Krull sempre procura amealhar.

Sendo assim, esbocemos a genealogia da moral de nosso narrador-personagem: oriundo de “uma casa burguesa distinta, embora licenciosa” – em meio às colocações cínicas de Felix Krull, a conjunção concessiva “embora” bem poderia fazer as vezes da conjunção aditiva “e”; filho de Engelbert Krull, mulherengo rematado e proprietário de uma firma de champanhe de qualidade sobremaneira duvidosa; testemunha secreta de como a mãe e a irmã “atacaram juntas, com ditos picantes, um rapaz de olhos negros e avental branco que prestava serviços de pintor em nossa casa, até que lhe fizeram o sangue subir à cabeça, e o jovem, num acesso de fúria, perseguiu as duas mulheres esbaforidas até o sótão”; afilhado do senhor Schimmelpreester, que, para o (suposto) bem da arte pela arte, apreciava despir Felix Krull para torná-lo modelo de seus muitos quadros em um porão escuro; patrão da empregada Genovefa, uma “lourinha alta, bem nutrida e de olhos verdes irrequietos, que jamais condescenderia em dar ouvidos ao assédio à sua juventude proveniente de esferas inferiores, de soldados, operários e trabalhadores braçais, pois ela não se considerava gente do povo, cujo cheiro desprezava. Com o filho da casa, porém, era diferente, pois na medida em que ia crescendo e se tornando um rapaz atraente, sem dúvida excitava seu gosto feminino, e satisfazê-lo significava para ela algo como um dever de doméstica, além de uma aliança com a classe superior. Assim, meus desejos não encontraram séria resistência”. 

Um velho dito sentencia que a maçã não tende a cair longe da macieira. Assim, tais pais, tal filho: fazendo as vezes de um romance de (de)formação, as Confissões do Impostor Felix Krull arrolam para nosso (anti-)herói os seguintes adjetivos para a composição de sua ficha corrida: vadio, gigolô, fraudador, ladrão e, desde o título, impostor. Ainda assim, Mário Luiz Frungillo frisa que Felix Krull, a todo momento, “nos desautoriza a atribuir-lhe epítetos tão contundentes, pois a personagem não tem a menor dúvida de ter sido esculpida em madeira mais fina do que seus semelhantes”. 

Ora, se todos nós conhecemos um país cuja casta dirigente transforma Felix Krull em um mero aprendiz, por que a personagem de Thomas Mann deveria tratar suas confissões como rematados perjúrios?

Ocorre que nosso venerável ladino – “Vossa Excelência”, para usarmos um pronome de tratamento bem à brasileira – esboça uma (in)certa teoria para discernir o juízo proibitivo (e, segundo Felix Krull, limitado) em relação ao roubo do ato em si, uma vez que “tudo que fiz na vida sempre foi, em última instância, meu ato, não o de fulano ou sicrano, e embora tivesse de aceitar que, em especial por parte da justiça burguesa, lhe pespegassem o mesmo nome dado a milhares de outros, no meu sentimento misterioso, mas inabalável, de ser um filho predileto do poder criador, sempre me rebelei em meu íntimo contra um nivelamento tão contrário à natureza”.

Assim, ao invés de visar unicamente ao seu espólio, o roubo seria um fim em si mesmo para exprimir a radical individualidade do aventureiro que dele lança mão. Ora, quando piratas são alçados à condição de heróis – ou pior, quando os 40 ladrões de Ali Babá se encastelam no poder –, é preciso dar um voto de confiança para Felix Krull, quando ele sentencia que “a ruína bate à nossa porta com seus dedos ossudos”.

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa na Northwestern Univesity (EUA)

Mais conteúdo sobre:
literaturaThomas Mann

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.