Katherine Taylor/Reuters
Katherine Taylor/Reuters

Vencedora do Nobel, Louise Glück publicará sua primeira narrativa em prosa

Aos 79 anos, autora laureada ainda está abrindo novos caminhos

Hillel Italie, AP

29 de abril de 2022 | 10h00

NOVA YORK (AP) _ O próximo livro de Louise Glück foi tão inesperado para ela quanto provavelmente será para os leitores da vencedora do Prêmio Nobel. Depois de mais de dez coleções de poesia e dois livros de ensaios, entre eles os premiados The Wild Iris e Faithful and Virtuous Night, a escritora de 79 anos completou sua primeira narrativa em prosa, que deve sair em outubro. Marigold and Rose: A Fiction tem 64 páginas e se desdobra como uma fábula enquanto Glück imagina os pensamentos de duas crianças gêmeas.

Ela já escreveu sobre crianças, principalmente em sua aclamada coleção de 1990, Ararat. Mas, se seus poemas advinham de sua infância e de suas experiências como mãe, Marigold and Rose se origina de uma forma muito contemporânea: vídeos de suas netas Emmy e Lizzy, enviados por seu filho da Califórnia durante o tempo em que Glück não podia visitar a família por causa da pandemia.

“Eu me lembro de dizer a alguém que ver as gêmeas era como ir ao zoológico: você vê um comportamento que normalmente não vê nos bebês, porque as crianças estão se relacionando uma com a outra antes de se relacionarem com quase qualquer outra pessoa”, disse Glück, que mora em Cambridge, Massachusetts, durante uma recente entrevista por telefone.Assistir aos vídeos, disse ela, “virou uma obsessão para mim”.

Os sons e imagens de Emmy e Lizzy acabaram trazendo palavras. Glück compôs um pequeno capítulo e o enviou por e-mail ao filho, que lhe disse que gostara tanto que o estava lendo em voz alta para a família, mesmo que as bebês fossem pequenas demais para entender. Ela continuou escrevendo capítulos e os enviando. Poucas semanas depois, terminou aquilo que veio a ser Marigold and Rose.

“Foi uma felicidade escrever”, disse Glück, que se perguntou se a velocidade do processo de escrita poderia “aborrecer e confundir” alguns leitores. “As pessoas não gostam de ouvir isso porque sugere superficialidade. Mas, na minha experiência, alguns dos meus melhores trabalhos vêm com muita fluência. Não vejo como uma coisa ruim. Geralmente significa que você está surfando numa onda”.

Desde as linhas iniciais – “Marigold estava mergulhada no seu livro: tinha chegado até o V. Rose não ligava para livros” – Glück une e contrasta as vidas da introspectiva Marigold e da sociável Rose. Marigold já está formando uma história na cabeça ao observar a “calma autoconfiança” de sua gêmea e concluir que “juntas elas tinham tudo”.

Em capítulos com títulos como 'Compartilhando Coelhinhos' e 'Rose e o Elefante', Marigold e Rose passam um dia de verão observando o jardim da mãe, Marigold apresenta um título para o livro que quer escrever ('A Infância de Mamãe'), Rose começa a falar e os pais pensam em comprar uma casa. Glück até coloca uma versão de si mesma na história como a 'Outra Avó', aquela que “não está interessada nas coisas pelas quais as bebês se interessam”.

Glück, ganhadora do Nobel em 2020, explicou em seu discurso de premiação que sempre se sentiu atraída por poemas que fazem dos leitores ou ouvintes os “destinatários de uma confiança ou clamor, às vezes até conspiradores”. Em Marigold and Rose, Glück concede a si mesma e a seus fãs o conhecimento que anseia o narrador de seu poema 'Child Crying Out'. Parte da coleção Ararat, 'Child Crying Out' é uma meditação sobre a distância entre as pessoas, como o lamento de uma mãe sobre o silêncio da alma de seu filho, a sensação de que ele está “longe” mesmo quando ela o segura nos seus braços.

“Há muito mais angústia nesse poema porque quem fala é a mãe, mas a criança é inalcançável, de certa forma”, disse Glück. “Eu me lembro de ler o Dr. Spock na época (quando seu filho era criança), sobre como a mãe sempre sabe o significado do choro dos seus filhos. E eu pensava, ‘Ótimo, eu já fui reprovada’. Eu estava com dificuldade. Não fazia ideia. Não conseguia entender e me sentia impotente, desanimada e confusa. Depois foi ficando mais fácil. Mas só ficou mais fácil quando eles começaram a falar”.

Glück nunca publicou romances nem coleções de contos e disse que, antes de Marigold and Rose, não tinha vontade de escrever ficção narrativa. Ela se lembra de ter tentado escrever um conto no final da adolescência e achar o resultado pouco inspirador – “estéril, simplesmente terrível”. Décadas de cartas e ensaios serviram para “azeitar” o mecanismo da prosa estendida, disse ela, mas, mesmo assim, ela não esperava concluir uma obra como a mais recente.

“Eu diria que as chances de escrever um livro em prosa eram zero”, ela explicou. “Nenhuma chance mesmo”.

Jonathan Galassi, editor de Glück na Farrar, Straus & Giroux, disse que o novo livro foi uma “surpresa total”, mas também mencionou o que ele chama de “humor de Glück por excelência” – o toque irônico de fazer Marigold ser escritora antes mesmo de saber ler. Sua amiga e colega autora Kathryn Davis, a quem Glück envia os primeiros rascunhos de seu trabalho, disse que não ficou surpresa, porque Glück está “surpreendentemente disposta a admitir mudanças na sua vida”.

“A chegada das gêmeas foi o prelúdio para a possibilidade de mudanças ainda maiores”, disse Davis à AP. “A narrativa chegou como as gêmeas, como a narração de um sonho, ininterrupta, imutável”.

Em tom de brincadeira, Glück se refere a Marigold and Rose como um “retrato da artista quando bebê”. O tom é envolvente e espirituoso, mas Glück tece temas maiores e mais primitivos, dando ao livro a sensação de um mito de criação, um despertar da inocência. A avó materna das gêmeas morre (“Vovó foi para o céu. Não é como quando o papai vai trabalhar”). A própria Marigold percebe que o acúmulo e o arranjo das palavras coexistem com a perda e a transformação.

“Tudo vai desaparecer. Ainda assim, ela pensou, eu sei mais palavras agora. Ela fez uma lista na cabeça com todas as palavras que conhecia: mamãe, papai, urso, abelha, chapéu”, escreve Glück.

“E essas duas coisas continuariam acontecendo: tudo vai desaparecer, mas vou saber muitas palavras. Mais e mais e mais e mais, e então vou escrever meu livro”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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