WILTON JÚNIOR/ESTADÃO
WILTON JÚNIOR/ESTADÃO

Venda a casa do bispo!

Sugestão do bispo d. Mauro Morelli ao prefeito para ajudar crianças pobres

Luciana Nunes Leal, RIO

07 Fevereiro 2015 | 16h00

Em julho de 2003, d. Mauro Morelli, então bispo da diocese de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, sofreu um grave acidente de carro, ficando dez dias em coma induzido e um mês e meio internado. Entre as muitas lembranças que tem desse período está o “olhar de urubu” de amigos que o visitavam sem acreditar em sua recuperação. Um deles foi um colega religioso. “Ele, com a barriga enorme, olhava como quem diz ‘é, Mauro, você já foi’”. Eu pensei: “Se você não cuidar dessa barriga, vai na minha frente. E ele foi”, lembra o bispo entre risos.

D. Mauro ficou curado e, em 2005, renunciou ao cargo de bispo diocesano, tornando-se emérito. Em 17 de setembro ele fará 80 anos. Em 25 de janeiro, completou 40 anos da ordenação como bispo. Comemorou a data com uma celebração na véspera no Santuário Nacional de Aparecida. Em 28 de abril, serão 50 anos de sacerdócio. Em meio aos muitos aniversários deste ano, d. Mauro está em plena atividade à frente do Conselho de Segurança Alimentar de Minas Gerais e viaja pelo País em seminários e audiências sobre combate à desnutrição, preservação ambiental, direitos humanos. “É uma missão que ultrapassa as fronteiras da Igreja”, diz.

Foi a chegada a Duque de Caxias, onde trabalhou por 24 anos, que despertou em d. Mauro a atenção para o problema da desnutrição infantil e o fez mergulhar na causa da segurança alimentar. “Fiquei impressionado. Isso me perturbou muito. Saí pela diocese desafiando as pessoas a fazerem alguma coisa”, lembra. Com a colaboração de quase mil voluntários e três universidades, criou um mutirão materno-infantil que chegou a 40 mil crianças. “Eu dizia para o pessoal: ‘Antes de pesar e medir a criança, encoste a criança no seu peito, para ela sentir o calor de sua humanidade e você sentir a fragilidade dela’. O prefeito se viu obrigado a criar uma política pública. Eu disse a ele: ‘Se for preciso, venda a casa do bispo’, que era a minha.”

D. Mauro chegou à Baixada Fluminense vindo de São Paulo, onde era auxiliar do arcebispo, cardeal d. Paulo Evaristo Arns, que teve a atuação pastoral voltada para a periferia, a criação das comunidades eclesiais de base e foi um dos principais ativistas contra a ditadura militar, pelo fim das torturas e volta da democracia. D. Mauro trabalhava na região episcopal de Santo Amaro, área pobre da zona sul paulistana.

Em cinco horas de conversa com o Estado, na pousada de um amigo em Itanhandu (MG), o bispo emérito lembrou diversos episódios de resistência ao regime militar, entre eles a manifestação de 1º de maio de 1980 durante a histórica greve dos operários do ABC - marco de uma radical mudança no movimento sindical brasileiro. Mais de 100 mil pessoas decidiram contrariar a proibição de manifestações e foram para a rua, onde forte aparato policial estava pronto para a repressão. Mas o governo determinou a suspensão da ação policial. “Considero que naquele dia a ditadura caiu”, diz d. Mauro. “Homens e mulheres com crianças no colo e flores na mão fizeram o governo recuar.” 

Na mesma ocasião, ainda em Santo Amaro, o bispo ajudou movimentos sociais que organizavam um protesto contra o alto custo de vida a driblar a proibição de manifestação. “Se não pode ser na rua, abro a catedral”, decidiu, enquanto negociava com as autoridades policiais.

No Rio, d. Mauro passou a conviver com mais frequência com o conservador arcebispo da capital, cardeal d. Eugênio Sales, o representante da Igreja brasileira mais influente no Vaticano, onde ocupou vários cargos de grande prestígio. “Eu costumava dizer que a diferença entre d. Eugênio e este pecador aqui é que ele olha o mundo do alto do Sumaré (morro onde ficava a residência oficial do arcebispo) e eu olho da Baixada Fluminense. Ele tinha uma vista bonita e eu escutava tiro toda noite, via enchente, criança desnutrida com o intestino de fora”, lembra. D. Mauro ajudou a fundar o Movimento Ética na Política e, com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, atuou na Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

Bem adaptado à tecnologia, é um usuário assíduo do Twitter. No limite dos 140 toques faz reflexões e comentários sobre vários temas, de filosofia e política ao cotidiano de Penápolis (SP), cidade onde cresceu e voltou a viver no ano passado. No início do ano, publicou no Twitter que o ministro do Desenvolvimento Agrário, o petista Patrus Ananias, era “uma luz no ministério” da presidente Dilma Rousseff. “Acredito que Dilma está fazendo o que ela não gostaria de fazer, mas são ajustes dentro do que o mercado exige”, avalia. “Os governos são esquizofrênicos, o Estado brasileiro não passou por um pacto social. Um exemplo da esquizofrenia: existe o Ministério da Agricultura e o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Quem tem o poder na mão? O da Agricultura”, critica.

Até a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, d. Mauro tinha forte ligação com o PT, onde trabalhou na elaboração de projetos de segurança alimentar, em especial o Fome Zero. Escolhido para ocupar a Secretaria de Segurança Alimentar e Combate à Fome, que tinha status de ministério, no primeiro ano do governo Lula acabou preterido e substituído por José Graziano. A secretaria foi depois incorporada ao Ministério de Desenvolvimento Social e o Fome Zero passou a fazer parte do programa Bolsa Família. “O que foi implantado no governo Lula não é o projeto que tinha sido trabalhado no Instituto da Cidadania. O Fome Zero foi um remendo”, afirma. D. Mauro lembra uma “conversa difícil”, em meados de janeiro de 2003, com os ministros José Dirceu, da Casa Civil, e Luiz Dulci, da Secretaria-Geral da Presidência, em Brasília. “Eu disse que não deveriam criar um ministério, mas ter articulação transversal com vários ministérios. Ou todos se envolvem ou não funciona.”

Embora reconheça méritos no Bolsa Família, d. Mauro critica o fato de ser meramente assistencialista e não haver medidas para garantir a autonomia das famílias. Ele lembra a experiência da Cesta da Cidadania criada durante o governo Itamar Franco, quando ocupou a presidência do Conselho Nacional de Nutrição e Segurança Alimentar. As famílias beneficiadas se organizaram em uma associação e criaram um fundo, em que cada uma depositava R$ 10 mensais, o que, em alguns meses, permitiu o funcionamento de um sistema de pequenos empréstimos. “Considero o Bolsa Família uma grande medida, mas, em nível nacional, ainda estamos trabalhando muito o assistencial. O que importa é o direito, devíamos ter evoluído mais”, afirma.

D. Mauro também é crítico da política de desenvolvimento dos governos petistas. “O governo Lula teve uma preocupação muito grande e conseguiu socorrer muita gente passando fome, com o Bolsa Família. Mas fez uma opção que agravou a situação. Hoje todos têm carro. As cidades estão entupidas. Na área social foi feito um trabalho grande na dimensão assistencial, mas não sentimos uma correção de trajetória do modelo de desenvolvimento”, diz.

Aos 69 anos, antes da idade limite de 75 da aposentadoria dos bispos, d. Mauro deixou o dia a dia da diocese de Duque de Caxias para se dedicar com mais intensidade à causa da segurança alimentar e combate à desnutrição. Defende a tese de que o combate à fome depende da decisão política de governantes e sociedade. “Não é um problema divino, é um grave problema social, de matriz econômica e solução política”, define. “A política é construir o bem comum, planejar o desenvolvimento do País de forma que todos tenham assento no banquete. Se você tem um Congresso em que o deputado ganha R$ 35 mil, eu acho uma indecência diante do que o povo ganha. Como vai trabalhar o bem comum?”, provoca. 

Admirador do discurso do papa Francisco de “desmistificação do papado”, d. Mauro diz se identificar com o pontífice, especialmente pela atuação na periferia. “A experiência do papa Francisco foi na periferia de Buenos Aires, o que não é diferente da periferia da Baixada Fluminense. Francisco revelou que o papa é gente. Não se comporta como chefe de Estado nem cacique da Igreja. O papa não é um deus. Na minha cabeça, quando criança, Pio XII era um ser divino. Não se imaginavam coisas humanas, se ia ao banheiro, se comia. Isso não volta mais”, diz. Rejeita, porém, soluções mirabolantes como a venda de todo o patrimônio da Igreja para diminuir a fome no mundo. “O papa tem na mão uma herança de que não tem como se desfazer, a Santa Sé e a Cidade do Vaticano. Dizem ‘vende tudo e dá para os pobres’. Isso é bobagem. Você tem um patrimônio cultural precioso para a humanidade. É ridículo esse tipo de argumento. Vai entregar isso para quem?”

D. Mauro vive com uma aposentadoria de R$ 2.500 mensais e uma ajuda de custo para moradia. “Nunca tive vínculo empregatício com governos. Vivo com minha irmã, modestamente. Digo para ela: ‘Diante do povo que está aí, a gente é rico’. Não tenho parcerias com partidos, mas com governos.” Está bem de saúde, embora um problema no esôfago o incomode de vez em quando. Dirige o próprio carro, que comprou com ajuda de um amigo empresário.

No dia 31 de janeiro, um sábado, d. Mauro assumiu o volante no fim da manhã em Itanhandu e percorreu 448 quilômetros até Penápolis. No caminho, comeu pamonha e “esfirra de carne de excelente qualidade”, como descreveu em detalhes no Twitter. Costuma dizer que as redes sociais são como “sementes aladas”, que o vento leva e podem germinar, se a terra for boa. “Para mim o Twitter é uma espécie de semente que você profere com bondade, com esperança. Não tenho seguidores, o que faço é perseguir crianças desnutridas.”

Em duas semanas de descanso no sul de Minas, fez caminhadas pelas montanhas e planos para o futuro. Quer construir na região um centro inter-religioso de discussão sobre o meio ambiente e uma área dedicada à agricultura familiar. Também planeja uma viagem a Brasília, para defender no Congresso Nacional o aperfeiçoamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar. Pretende celebrar os 80 anos na nascente do São Francisco, na Serra da Canastra (MG), pela simbologia de um dos mais vigorosos rios do continente. “Todo dia me ajoelho, agradeço pela vida e peço a Deus: ‘Me guarde na fé e não me tire o bom senso’”.

Mais conteúdo sobre:
Mauro Morelli Bispo diocese Aparecida

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.