Vende-se um Niemeyer

Jornal do Partido Comunista Francês se desfaz do edifício-sede, projetado pelo brasileiro, para enfrentar a queda de circulação

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2008 | 22h12

Oscar Niemeyer, o centenário arquiteto brasileiro, acaba de garantir a voz dos comunistas franceses, ameaçados pelo declínio que marca sua história recente. Em um movimento capitalista por definição - a transferência de uma propriedade privada em troca de recursos financeiros -, os editores do jornal comunista L?Humanité, um dos mais tradicionais da Europa, encontraram a saída, ao menos temporária, do labirinto de déficits em que estão metidos. Afundado em dívidas de 8 milhões - cerca de R$ 20 milhões -, L?Huma estava estagnado em um raro cruzamento de crises mundiais: a queda de circulação da mídia impressa e a derrocada eleitoral da extrema esquerda. A solução: vender sua sede e viver de aluguel.O prédio, um dos monumentos projetados por Niemeyer em prova de fidelidade aos comunistas, está situado desde 1989 em um terreno apertado do centro histórico de Seine-Saint-Denis, um dos últimos redutos políticos do PCF na França. Edificação de linhas simples e elegantes, traz o DNA de seu criador: traços sinuosos marcam o movimento de uma fachada envidraçada, sustentada pela estrutura de concreto aparente típica da estética do arquiteto brasileiro. O efeito espelhado dos vidros assegura a interação contrastante do desenho moderno com outro monumento da cidade, situado a poucas dezenas de metros: a Basílica de Saint-Denis, o mausoléu gótico em que estão sepultados reis como Luís XVI, heróis como Joana D?Arc e anti-heróis como Maria Antonieta.Concebida entre 1987 e 1989, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim, a sede moderna de L?Humanité fora encarada à época como um símbolo do vigor comunista diante da contestação mundial e um sopro de renovação arquitetônica na cidade. O objetivo político do Humanité e do PCF era expressar ao mundo um grito de internacionalismo e de apoio à luta da esquerda latino-americana, além de provar sua influência na intelligentsia mundial. Já o desafio urbanístico de Niemeyer era renovar o centro de Seine-Saint-Denis, integrando o novo edifício à região da catedral. Missão cumprida, o prédio tornou-se um dos ícones da obra do brasileiro na França, ao lado da sede do PCF em Paris, da Casa de Cultura de Havre e de 13 outros projetos espalhados pelo país. Entretanto, o tempo de fartura encerrou-se para o Humanité. Fundado em 1904 pelo inspirador da esquerda francesa, Jean Jaurès, seu primeiro editor, o "órgão oficial do Partido Comunista da França (PCF)", como se orgulhava de afirmar na capa até a década de 90, sobrevive hoje em meio às más notícias. Editado por 60 jornalistas, vende uma média diária de 63 mil exemplares. Embora estável e em ligeiro progresso frente ao número de 2005, a circulação é uma sombra dos 150 mil exemplares vendidos todos os dias nos anos 70 - quando o mundo ainda se dividia entre Estados Unidos e União Soviética.Sua baixa circulação tem relação direta com a queda generalizada de venda da mídia impressa desde os anos 90, gerada pela internet e pelas novas tecnologias. Mas a crise também encontra na França outra explicação. Abraçado à ideologia do PCF, o jornal comunista vive a mesma agrura de seu braço partidário: a falta de apoio da população. Na última eleição presidencial, no ano passado, o partido teve seu mais baixo escore desde 1958: 1,93% dos votos.A confluência de crises tem um resultado prático bem capitalista: déficit. Mesmo após a abertura de capital realizada em 2001 - que injetou 30 milhões na empresa - e as reformas de gestão que reduziram o prejuízo anual de 3,1 milhões, em 2005, para 1 milhão, em 2007, as perdas continuam. Os custos crescentes com papel, impressão, transporte e distribuição, além de gastos com a manutenção do prédio de Niemeyer, elevaram a dívida atual para 8 milhões - valor estratosférico para o porte da publicação. Em outubro de 2007, em editorial, o diretor da publicação, Patrick Le Hyaric, com quem o Estado tentou conversar, sem sucesso, admitiu a gravidade do momento: "A amplitude do déficit acumulado põe em perigo a sobrevivência do jornal".A saída encontrada foi vender a jóia da família. Os jornalistas se mudam ainda este mês para um prédio alugado em Saint-Denis. A sede criada por Niemeyer foi vendida por 15 milhões. Especialistas em mercado imobiliário asseguram que a assinatura do brasileiro no projeto foi decisiva para o montante da oferta, feita pela SARL Imobiliária Paris-Saint-Denis. Trocando em miúdos, Niemeyer está salvando o Humanité da falência.Por quanto tempo, é difícil dizer. Autor de capas que servem como uma crônica da ideologia no século 20, o Humanité esteve nas ruas contando a versão proletária dos fatos em momentos tão cruciais como na Revolução Bolchevique, em 1917, e na queda da União Soviética, em 1991. Entre uma e outra notícia, opôs-se com ferocidade ao fascismo, foi contra a Guerra do Vietnã, denunciou o colonialismo francês na África e registrou a reprovação do PCF à repressão soviética à Primavera de Praga, em 1968. É essa história de 104 anos que corre risco de extinção. Há uma década, o jornal retirou os slogans pró-PCF da capa, cortando também os laços financeiros - o jornal não recebe mais auxílio do partido. Mas ainda hoje vive o dilema de ser um órgão oficial. Abrir mão de sua carteira de filiação, como fizera o companheiro de luta italiano L?Unità, entende o cientista político Jean Yves Camus, especialista em partidos de extrema esquerda e extrema direita, lhe permitiria representar não apenas os 2% de comunistas, mas os 9% da esquerda antiliberal francesa. "Vender o prédio é um símbolo, mas não resolverá a crise. Distanciar-se do PCF e tornar-se o porta-voz de toda a esquerda anticapitalista é a solução para as finanças do Humanité", disse Camus ao Estado. Esse processo está em curso, segundo Eliane Assassi, porta-voz do partido. "O PCF ainda participa do capital do Humanité, mas hoje a redação é autônoma. Eles (da redação) estão alargando seu campo de ação para toda a esquerda altermundialista (antineoliberal)", explica. "Hoje são apenas um jornal criado pelos comunistas." Em idêntica dificuldade financeira, o PCF também enfrenta percalços para manter sua sede - outro projeto de Niemeyer -, situada em uma região de imigrantes pobres do Décimo Distrito de Paris. Parcialmente desocupado, o prédio poderia abrigar o Humanité, racionalizando gastos do partido e do jornal. Mas as duas partes responderam "non, merci" à idéia, evitando a reaproximação. Agora, a sede do PCF é que está em risco e deve pôr salas para alugar em nome da sobrevivência dos comunistas. Não é difícil imaginar o anúncio: "Alugam-se salas em Paris. Prédio moderno. Projeto de Oscar Niemeyer".

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