Vendido, Sam!
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Vendido, Sam!

Piano de ‘Casablanca’, que deve pegar sete dígitos em leilão, é dos cacarecos mais famosos da memorabilia hollywoodiana

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00


“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três! Vendido pro cavalheiro ali o piano do lote 83.”

Quem será o cavalheiro (ou a dama) que vai arrematar o cobiçado piano que a Bonhams incluiu num de seus próximos leilões? Por quanto será arrematado? Só na tarde do dia 24 ficaremos sabendo. Se o lance final não tiver sete algarismos, os especuladores do mercado leiloeiro ficarão boquiabertos, pois o instrumento musical do lote 83 não é um piano qualquer, mas aquele que o mundo inteiro viu e ouviu ser tocado por um músico negro chamado Sam, num cassino marroquino de outro americano, o nova-iorquino Rick Blaine.

Há dois anos, outro piano do filme Casablanca - aquele que aparece no flashback parisiense, com o mesmo Sam dedilhando o teclado - foi leiloado por US$ 602.500. O de agora vale muito mais porque aparece muito mais em cena, desde o momento em que a câmera entra pela primeira vez no salão do Rick’s Café Americain, ao som de It Had To Be You e Shine, e porque é nele que Sam (Dooley Wilson) canta As Time Goes By para Ilsa Lund (Ingrid Bergman). De quebra, é sob seu tampo que Rick (Humphrey Bogart) esconde os salvo-condutos que servirão para tirar Ilsa e Victor Laszlo (Paul Henreid) de Casablanca.

Um porta-voz da Bonhams informou à sua distinta clientela que o piano ainda funciona, embora oito anos já tenham se passado desde a última vez em que foi testado em público, durante um concerto no Hollywood Bowl com a trilha sonora do filme. Funcionar é o de menos. Um piano com seu histórico é menos um instrumento musical do que uma relíquia, uma memorabilia cinematográfica - e justamente por isso mais valiosa que qualquer Steinway com 70 anos de uso. 

Outros móveis e utensílios de Casablanca - portas, mesinhas e candelabros do café, mais o papelório burocrático criado para o filme e uma cópia do último tratamento do roteiro - também serão leiloados na Bonhams (850 Madison Avenue, New York) sob o patrocínio do canal a cabo Turner Classic Movies (TCM), que à sua frequente desova de cacarecos cinematográficos deu o nome de There’s no Place Like Hollywood. 

Boa parte das demais atrações deste ano saiu do guarda-roupas: o vestido de brocado que Jean Louis desenhou para Rita Hayworth cantar Amado Mio em Gilda; o colante vermelho em que Marilyn Monroe desfilava seu corpaço pelo saloon de O Rio das Almas Perdidas; uma roupa de teste de Judy Garland para O Mágico de Oz; uma das indumentárias de leão utilizadas por Bert Lahr no mesmo filme; um longo branco de Grace Kelly em Mogambo, assinado por Helen Rose; um paletó preto com o qual Rhett Butler (Clark Gable) guiava uma charrete em ...E o Vento Levou; uma camisa que John Wayne suou e empoeirou em Justiceiro Implacável. 

Lance inicial do vestido de Gilda: entre US$ 40 mil e US$ 60 mil, surpreendentemente mais baixo que o sugerido para o paletó de Rhett Butler (entre US$ 60 mil e US$ 90 mil). Duas pechinchas se comparadas ao que estão pedindo pelo colante de Marilyn, grife Travilla: entre US$ 400 mil e US$ 600 mil, com uma expectativa de venda beirando o US$ 1,5 milhão. 

Ainda não se chegou a uma conclusão sobre o status artístico da memorabilia cinematográfica. Quão inapropriado seria falar em arte? E que tipo de arte? Kitsch? Kitsch do kitsch? Kitsch ou mero fetiche? “Não existe nada mais rico na cultura e no folclore americanos do que a pletora de objetos mitificados pelos filmes de Hollywood”, teorizou em causa própria um dos crupiês da Bonhams, até agora, que eu saiba, à espera de uma contestação. 

Nas primeiras décadas do cinema, quando os fãs se davam por satisfeitos com fotos autografadas dos ídolos da tela, os estúdios tratavam o que restava de uma filmagem como tralhas desprezíveis. Sem saber o que fazer com as sobras de uma produção que não lhes pareciam reaproveitáveis, ateavam fogo em tudo. Ocasionalmente diante das câmeras de outra produção. Aquela parte de Atlanta que vimos arder em ...E o Vento Levou fora antes o cenário da primeira versão de King Kong, produzida pela RKO. 

Técnicos e faxineiros costumavam recolher objetos de cena durante as filmagens para enfeitar suas casas, presentear parentes e amigos ou mesmo passá-los na gaita, às vezes com a anuência dos produtores. Frequentemente encontravam um badulaque com potencial de souvenir ao vasculhar as lixeiras do estúdio. Foi num depósito de quinquilharias destinadas ao incinerador da Warner que o costureiro Kent Warner encontrou a capa de chuva que Bogart envergava na sequência final de Casablanca, e iniciou sua coleção. 

De souvenir em souvenir, Warner tornou-se um emérito memorabilista, cuja expertise facilitou a organização, em 1970, do primeiro leilão oficial de um grande estúdio, justo o maior de Hollywood. Sob nova direção e precisando restaurar suas finanças, a MGM torrou o conteúdo de sete estúdios de som e embolsou US$ 1,5 milhão. Só com as roupas faturou US$ 350 mil. Do espólio faziam parte o cenário da Cidade de Esmeralda de O Mágico de Oz, vários pares do sapatinho de rubi de Dorothy (o mais calçado em cena por Judy Garland já pertencia ao curador do leilão) e a tanga de Johnny “Tarzan” Weissmuller. O que sobreviveu ao pregão foi despachado para a loja de lembrancinhas do MGM Grand Hotel de Las Vegas. 

Quem mais levantou o dedo naquele histórico leilão foi uma veterana estrela da MGM, Debbie Reynolds. Desembolsou US$ 180 mil, montou um pequeno museu doméstico e ainda lucrou com a revenda de alguns mementos. Como de hábito, milionários japoneses, americanos e europeus fizeram a limpa. São os maiores colecionadores de memorabilia, para frustração dos fãs desabonados e de museus com limitações orçamentárias. O Smithsonian se ressente um bocado dessa concorrência. 

O que já foi simples hobby alimentado pela nostalgia virou um dos negócios mais lucrativos ligados à indústria de filmes. O segundo piano de Casablanca, vendido pela primeira vez em 1988 por US$ 154 mil, obteve em 24 anos uma valorização de US$ 448 mil. O Oscar de melhor filme que Como Era Verde meu Vale assegurou a Darryl F. Zanuck (em detrimento de Cidadão Kane) foi arrematado por US$ 95,6 mil, em 2004, e leiloado por US$ 274.520, oito anos depois. No final do século passado, o joalheiro Ronald Winston comprou por US$ 398,5 mil uma das raras cópias do falcão maltês de Relíquia Macabra, que antes pertencera ao ator William Conrad, revendeu-a por US$ 1 milhão a um estroina desconhecido que, um ano atrás, se desfez dela por US$ 4 milhões. 

Até tudo, Spielberg? Mais cobiçado que a estatueta do falcão maltês (21 kg de chumbo) era - e talvez continue sendo - o trenó Rosebud de Charles Foster Kane. Que está em boas mãos. Em vez de adornar a mansão de um executivo de Tóquio, enfeita a de Steven Spielberg, seu proprietário desde junho de 1982, quando o comprou por US$ 60,5 mil. Orson Welles trabalhou com três cópias do trenó: duas feitas de balsa, para serem consumidas pelo fogo na cena final, e uma de pinho, mostrada no início do filme. Spielberg ficou com a de balsa. 

A de pinho? Um comprador anônimo, residente em Los Angeles, arrematou-a num leilão da Christie’s por US$ 233,5 mil, já lá se vão 18 anos. Seu primeiro dono foi um piloto de helicóptero chamado Arthur Bauer, que a recebera de presente da RKO ao vencer um concurso para estudantes promovido pelo estúdio em 1942. Se a nossa Atlântida Cinematográfica tivesse promovido igual concurso, tendo como prêmio a cigarreira prateada de José Lewgoy em Carnaval no Fogo ou a “nave russa” de O Homem do Sputnik, eu teria me candidatado. 

Leiloar memorabilia nunca passou pela cabeça dos produtores daqui nem dos europeus. Não por falta de relíquias, evidentemente. Os galpões de Cinecittà guardavam tesouros fabulosos que só Fellini parecia apreciar e aproveitar. Mas que empalidecem se comparados aos da cinematografia mais mitologicamente poderosa de todos os tempos. De qualquer modo, nenhum cartaz de cinema alcançou no mercado leiloeiro as cifras do pôster original de Metrópolis, de Fritz Lang, produzido na Alemanha em 1927. Seu último comprador pagou por ele U$ 690 mil, oito anos atrás. 

Numa enquete sobre os mais cobiçados props jamais leiloados da história do cinema, a robótica Maria de Metrópolis ganhou do monólito de 2001: Uma Odisseia no Espaço, do guarda-chuva de Mary Poppins e até do trenó de Cidadão Kane. Era uma fantasia de autômato, concebida por Walter Schulze-Mittendorff, moldando o corpo da atriz Brigitte Helm. Réplicas de plástico foram feitas nas décadas seguintes ao lançamento do filme, uma delas presenteada pelo próprio Lang ao colecionador de bizarrices fantacientíficas Forrest J. Ackerman, mas a original, que na certa valeria hoje uma fortuna, foi destruída num incêndio pouco depois do término das filmagens. Como um Rosebud em forma de mulher. 

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