Ver para não crer

O maior obstáculo no combate ao Ebola é muitas pessoas não acreditarem que o vírus exista, preferindo atribuir mortes a água envenenada por vingança, maldição ou injeções assassinas

Clair MacDougall, ZANGO TOWN / LIBÉRIA

02 Agosto 2014 | 16h00

Neste pequeno povoado agrícola, mulheres e homens idosos e calejados sentam-se do lado de fora de suas casas de adobe e telhado de sapé em meio a crianças espalhadas em volta. O lugar é calmo e desolado. Mas num dia de meados de julho, na maior casa do povoado, duas mulheres choravam com a informação da morte de um jovem num povoado vizinho pelo vírus Ebola.

O vírus letal também já havia chegado aqui. Segundo o vice-ministro da Saúde da Libéria, Tolbert Nyenswah, 19 moradores de Zango Town morreram. Outros acusaram a presença do vírus em testes e foram tratados em “centros de administração de casos” tocados pela Samaritan’s Purse, uma ONG cristã internacional. Mas muitos moradores de Zango Town duvidam do que lhes disseram. Alguns nem sequer acreditam que o Ebola atingiu sua comunidade. Eles imaginam que as mortes foram causadas por outra coisa, ou que sanitaristas estejam matando pacientes.

Algumas semanas atrás, pessoas do povoado atacaram uma equipe de saúde que veio pulverizar a área com cloro, uma maneira barata e eficaz de matar o Ebola, e tentaram incendiar seu carro. Restou no meio do povoado um solitário balde de plástico cor de rosa contendo água clorada para as pessoas lavarem as mãos. Ninguém chega perto.

Henry Jallah, um agricultor de 23 anos, perdeu recentemente cinco membros da família para a doença: a mãe, um tio, uma tia e dois filhos. Ele fala da perda sem emoção e diz que Deus está lhe dizendo para continuar tocando a vida. “Não há esperança”, conforma-se. “Tanta gente está morrendo.”

Jallah diz que acatou a recomendação do Ministério da Saúde da Libéria para ficar longe dos mortos e doentes do povoado, mas hesita em acreditar que tenha sido realmente o Ebola o dizimador de sua família. Ele tem outras explicações: água envenenada por vingança num conflito de terra, algum tipo de maldição. A família não levou a tia a um centro de tratamento porque “dizem que quando você vai lá e tem a doença eles injetam você e matam”.

A Libéria e suas vizinhas, Guiné e Serra Leoa, já foram devastadas pela guerra. Hoje enfrentam uma nova e mortal crise: o Ebola, um vírus que ataca órgãos e causa febre, diarreia, sangramento e, na maioria dos casos, morte, alastrou-se pelos países e ameaça ampliar seu alcance. O vírus, que não pode ser curado, mas pode ser tratado, ainda pode matar até 90% dos que o contraem. A taxa geral de mortalidade nos três países da África Ocidental é de aproximadamente 60%. Cerca de 1.200 casos foram identificados, a maioria num surto; perto de 670 pessoas já morreram.

No dia 25 de julho um caso foi confirmado na Nigéria, país mais populoso da África. Um liberiano desmaiou no aeroporto de Lagos e posteriormente morreu. A Libéria, onde 7 dos 15 condados identificaram casos do vírus, anunciou que está restringindo reuniões públicas, fechando muitos postos de fronteira e abrindo centros de testes em outros (uma razão porque especialistas em saúde pública acreditam que este surto tenha atingido simultaneamente três países e seus centros urbanos, pela primeira vez na história, são as fronteiras porosas. Com frequência, membros da mesma família que vivem em lados diferentes da fronteira cruzam-na para se visitar, enquanto outras pessoas o fazem para transações comerciais).

O diretor de operações da organização Médicos sem Fronteiras (MSF), Bart Janssens, pediu uma mobilização maciça de recursos por governos regionais e agências humanitárias para combater o surto. Mas não está claro de onde efetivamente virão esses recursos. A Libéria, que identificou 290 casos e registrou 137 mortes, criou uma força-tarefa para lidar com a situação; um plano nacional de operações será divulgado nos próximos dias. O plano requererá de US$ 10 milhões a US$ 15 milhões para ser implementado e o governo ainda precisa obter os recursos, segundo o vice-ministro Nyenswah. 

Mas o principal obstáculo na luta contra a disseminação do Ebola na Libéria parece ser a negação generalizada de sua existência e o medo em comunidades que desconfiam profundamente do sistema de assistência sanitária do governo e de instituições internacionais. Isso inclui áreas remotas relativamente intocadas pela administração, ou às quais ela só chega sob a forma de força e opressão. Mas Monróvia, a capital, não está imune à descrença: no efervescente Mercado Duala, 92% das pessoas disseram não acreditar que o Ebola exista, segundo pesquisa recente com mil entrevistados conduzida pela Samaritan’s Purse. Aliás, muitos na capital viram inicialmente o vírus como um golpe criado pelo governo para “comer dinheiro” de doadores humanitários. Além disso, os moradores com frequência enxergam os fatos da vida, incluindo as tragédias, pelo prisma da religião e superstição. Há um ditado liberiano que diz “nada é por nada” - significando que tudo acontece por alguma razão. Mesmo o Ebola.

No fim de semana passado, na comunidade Popalahun, distrito de Kolahun, Libéria, moradores bloquearam uma estrada e atacaram sanitaristas que viajavam num jipe, quebrando o para-brisa do veículo e furando os pneus com facão. Quatro liberianos que faziam parte da equipe, empregados pela Samaritan’s Purse e com a tarefa de recolher o corpo de uma pessoa que havia morrido de Ebola, fugiram para o mato para se proteger. Um foi agredido a martelo, mas conseguiu escapar. Kendell Kauffeldt, diretor da Samaritan1s Purse no país, diz que a organização foi obrigada a interromper a missão - isto é, recolher pacientes e cadáveres de cidades e povoados. “Simplesmente não podemos correr o risco”, argumenta.

Ataques semelhantes ocorreram na Guiné e em Serra Leoa. Em Freetown, capital de Serra Leoa, milhares marcharam para um centro de tratamento de Ebola no último fim de semana depois de acusações de uma antiga enfermeira de que o vírus mortal foi inventado para esconder “rituais canibalísticos” na instalação, disse um chefe de polícia regional à Reuters. Um médico local também contou à agência noticiosa que alguns trabalhadores da saúde não estavam comparecendo ao serviço por “suspeitas equivocadas de membros da comunidade”. A MSF também teve de abandonar uma clínica na Guiné rural após ataques em abril.

Na Libéria, famílias em Monróvia brigaram com funcionários de hospitais para recuperar corpos de membros da família que haviam morrido (tocar nos mortos é extremamente perigoso em razão do contágio do vírus). Num dos incidentes, pessoas apedrejaram o Hospital Redemption em New Kru Town, comunidade favelada densamente povoada, depois de testes no cadáver de uma mulher que sangrou até morrer após o parto acusarem a presença do vírus Ebola. Também em New Kru Town, moradores pararam a construção de um pavilhão de isolamento que limitaria os riscos de exposição dos sanitaristas ao Ebola.

A Samaritan’s Purse interrompeu a expansão de seu centro de administração de casos em Monróvia em razão de protestos da comunidade local. Essa unidade, a principal da Libéria, conta hoje com 20 leitos que estão totalmente ocupados com casos suspeitos e confirmados. A ONG pretende acrescentar mais 60 leitos, mas precisa que o governo negocie com a comunidade antes de fazê-lo. “Não temos mais espaço”, diz Kauffeldt. “Quando o próximo paciente chegar não haverá onde colocá-lo, e o pior será se esse paciente voltar para a comunidade.” E acrescenta: “Se continuamos tendo 90% de negação da existência do Ebola na zona mais perigosa de Monróvia é porque a comunicação não está funcionando”.

Embora não tenha havido violência, Kauffeldft está preocupado com a segurança. Os portões que cercam o centro de administração de casos são operados por policiais desarmados. A Polícia Nacional liberiana está desenvolvendo uma estratégia para lidar com incidentes violentos em hospitais e para acompanhar o transporte de corpos de vítimas do Ebola para sepultamento - o que deve ser feito por especialistas, com o uso de sacos mortuários e spray químico. A inovação, porém, contraria o costume arraigado em que membros da família são os responsáveis por lavar e preparar o cadáver para ser enterrado.

Para agravar os problemas, mesmo entre os que aceitam que o Ebola existe muitos temem os hospitais, por acreditarem que as instituições dão um atendimento precário - preocupação que já havia bem antes da crise atual. Na verdade, o sistema de saúde da Libéria melhorou desde que a guerra civil dilacerou a nação. Por exemplo, houve uma redução na taxa de mortalidade de crianças com menos de 5 anos. Entretanto, o maior hospital de Monróvia, o John Fitzgerald Kennedy Memorial Medical Center, ou JFK, é apelidado de “Just for Killing” ( só para matar) pelos moradores locais, porque as pessoas vão lá com doenças tratáveis, como a malária, e mesmo assim morrem. Houve relatos de que, recentemente, sanitaristas do JFK se recusaram a tratar suspeitos de terem contraído o Ebola, chegando a abandonar a sala de emergência da unidade. (O pavilhão para Ebola do hospital foi fechado depois disso. O JFK era “perigoso”, segundo Kauffeldt, porque os procedimentos adequados para lidar com a doença não eram seguidos.)

As infecções por Ebola em médicos e profissionais da saúde, na Libéria e em outros países, também suscitaram temores de contato com os sistemas de saúde. Um respeitado médico liberiano, Samuel Brisbane, que estava trabalhando como consultor da unidade de medicina interna no JKF, morreu e foi enterrado no fim de semana passado. Outro médico liberiano foi infectado e está sob tratamento. Dois americanos que trabalhavam na contenção do surto, um deles, médico, foram diagnosticados como portadores do vírus.

Sanitaristas liberianos se queixaram da falta de proteção e equipamentos, dizendo que limita sua capacidade de fazer o trabalho e permanecer saudáveis. Mas Nestor Ndayimirije, da Organização Mundial de Saúde (OMS), diz que parte do problema é o uso impróprio do equipamento. Ele exemplifica dizendo que os sanitaristas gastaram muito rapidamente um suprimento de 8 mil trajes protetores, usados para lidar com indivíduos infectados ou potencialmente infectados, porque os vestiam quando não era necessário.

“Alguns não têm o equipamento de proteção pessoal, mas isso não pode explicar o número de infecções de sanitaristas”, diz Ndayimirije, que trabalhou em graves surtos de Ebola na África no fim dos anos 1990 e início dos 2000. Há atualmente 37 casos suspeitos entre sanitaristas na Libéria, e já se registraram 16 mortes de profissionais.

O Ministério da Saúde diz que está fazendo um esforço para treinar melhor centenas de sanitaristas, incluindo de condados onde ainda não foram registrados casos do vírus. Mas isso será difícil porque o plano operacional do país contra o surto ainda não foi concluído e financiado.

A despeito de violência, ceticismo e outros obstáculos, no distrito de Foya, onde Zango Town está localizada, o governo e a Samaritan’s Purse obtiveram relativo sucesso no trabalho de aumentar a consciência e prover tratamento. No dia 17, o ministro da Saúde da Libéria, Walter Gwenigale, e a principal autoridade médica do país, Bernice Dahn, promoveram uma reunião de emergência em Zango Town para alertar os moradores sobre o vírus. Algumas pessoas foram ouvi-los, ainda que hesitantemente.

Há ainda um longo caminho a percorrer. Luana Korvah, médica de saúde mental que trabalha para o governo, estima que a vasta maioria dos moradores de Zango Town e da área circundante não acredita na existência da doença. E no caso do centro de administração de casos de Ebola em Foya, onde tendas brancas são separadas por malhas laranja, traumatizados sobreviventes do vírus admitem que temem voltar para suas comunidades por não saberem como serão recebidos.

Harrison Sakela é um. Ele foi o primeiro sobrevivente conhecido do Ebola no país, contraído quando sua mãe adoeceu após ir ao enterro de um parente em Serra Leoa. Sua mãe, pai e irmão morreram, e também sua sobrinha de 19 anos e a filha dessa, que morreram no centro de tratamento enquanto ele estava lá.

“As pessoas acreditam que se você vem aqui eles lhe darão uma injeção e o colocarão num saco mortuário”, diz Sakela, reproduzindo as palavras de Henry Jallah em Zango Town. “É isso que causa o medo, e as pessoas estão morrendo no mato.”

Saah Tamba também está preocupado. Um jovem plantador de arroz que contraiu o Ebola após cuidar do tio em Serra Leoa, Tamba voltará para sua comunidade após dois meses no centro. Seu corpo está fragilizado, a testa vincada, o rosto tenso. Em sua língua nativa kissi, ele diz que não tem certeza se a comunidade, a apenas dez quilômetros do centro, o aceitará.

Randy Schoepp, que trabalha no Instituto de Pesquisas Médicas de Doenças Contagiosas do Exército americano e está ajudando a monitorar um centro de testes nos arredores de Monróvia, diz que “a primeira linha de defesa” no surto é a comunicação. “Há relatos de pessoas escondendo parentes e amigos doentes; esses morrem e as pessoas que os estão escondendo ficam infectadas e morrem, e assim por diante”, explica. É um ciclo que precisa ser interrompido.

Ndayimirije, da OMS, diz que conquistar a confiança em comunidades, incluindo de idosos e líderes tradicionais, é a chave para combater o Ebola. Sem confiança, o medo e a suspeita não conseguirão ser separados de suas raízes profundas - e o trabalho de ajudar uma região a vencer uma doença devastadora pode se arrastar indefinidamente. Fazer as populações compreenderem a doença em termos científicos é urgente, diz Ndayimirije. “Precisamos ir de porta em porta.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Clair MacDougall cobre a África Ocidental de Monróvia, Libéria. Colabora com Newsweek, The Daily Beast, The Washington Times e outros. Escreveu este artigo para Foreign Policy

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