Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Gagosian
Gagosian

Vera Albers, herdeira do surrealismo no século 21

A escritora faz lembrar tanto Buñuel como um conto de Kafka, mas seu ‘Transcontos’ serve a outros propósitos

Dirce Waltrick do Amarante * , Especial para o 'Aliás'

05 de junho de 2021 | 15h00

Lemos Transcontos, uma antologia de contos oníricos de Vera Albers (já autora de Deformação, Ed.Perspectiva, 1980, e de Surtos Urbanos, Editora 34, 1998), como se estivéssemos diante de um quadro de René Magritte, de Leonora Carrington, entre outros surrealistas, ou assistindo a um filme de Buñuel. O conto A Cabrita poderia muito bem ter saído de uma cena do filme O Fantasma da Liberdade (1974), do cineasta espanhol; nele, um cão foge, uma cabrita surge do nada atrás dele e cruza ruas movimentadas; de repente ela está de coleira, guiada pela protagonista, e dando coices; ambas sobem num ônibus: “A esta altura já devia ser um daqueles ônibus ingleses porque tinha dois andares e ninguém estranhou a cabra”. Nesses breves relatos noturnos, revelados numa escrita que se vale do fluxo de consciência, tudo se funde e não há começo, meio e fim definidos. Vale lembrar aqui James Joyce, que explicou seu último romance, o onírico Finnegans Wake, da seguinte maneira: “É natural que as coisas não sejam tão claras à noite, não é mesmo?”. 

Realmente não são claras. Em Andar Térreo, a personagem entra num elevador e “não é que vim dar diretamente na igreja do Loyola e vejo o rabo da turma se enfiando no buraco da sacristia?”. Lá, conversa com o padre sobre tradução e, de repente, “a cena muda” e ela está em “um supermercado, agora, um saquinho de amendoim, um pincel, uma sacola, eu, nada”. Em Transcontos, Albers também faz uma breve incursão na dramaturgia. Em Grilo, há uma peça teatral (um ritual), sob o título Vamos à Formatura; esse drama curtíssimo lembra uma peça sintética futurista, cuja rapidez faz com que o enredo muitas vezes acabe sem sentido.

A propósito da formatura, ela retorna em outro conto: são formaturas que não acontecem, seja porque o professor não pretende comparecer “enquanto não resolver a incomunicabilidade da equação”, seja porque o padre morreu e pediu “que espalhassem suas cinzas pelos dois lados do recinto. E também, o que adiantava formar?” Em um outro conto, Peixinho, o carro da protagonista se transforma numa obra de Jeff Koons, mas não se mantém muito tempo como obra de arte: “O carro de repente torna-se um balão de plástico e estoura bem na minha frente”. A solução enjambrada parece destacar o amadorismo do pretenso objeto de arte: “Não faz mal, diz o conhecido, pegando-o na mão e examinando o furo na borracha da rabeira, é só passar uma colinha e a coisa está feita”.

Segundo Will Gompertz, “o surrealismo começou como um ataque frontal à sociedade”. Breton queria provocar “uma crise na cabeça da burguesia. A nova ideia era explorar suas mentes inconscientes no intuito de trazer à tona segredos indecorosos reprimidos em benefício da decência”. 

Na prosa contemporânea de Albers esses segredos indecorosos são em grande parte de cunho sexual, mas podem também ser religiosos, e vêm à tona abruptamente. Em Padre Sapsa, o pároco pede que a protagonista leia uma carta libidinosa que traduziu. Eis o que diz o padre: “Sei que você sabe, vejo, sinto pelas suas palavras que você escolhe na tradução: ‘Goza em silêncio as rebarbas secas de suas faíscas, é um fogo morto. Se fosse com vocês...’. Mas você não tem coragem, minha filha; às vezes é preciso fustigar a vida para que ela solte o que mantém escondido”. Nesta antologia pode-se ler ainda um conto à moda de Franz Kafka, O Esquema, no qual a protagonista é acusada de algo que parece desconhecer: “Onde há fumaça há fogo, mas nunca teria imaginado que começasse tão baixo. Na banca enfiam-me na mão um processo. A primeira página. Que logo corro com os olhos, acusa-me de algo cartorial que não entendo muito bem. As outras páginas são fajutas”.

Transcontos parece se debruçar, de maneira geral, sobre as “classificações de comportamentos”, para usar uma expressão da própria autora. Segundo o resumo da narradora do conto Verba: “Existem quatro comportamentos básicos no homem: consumação, gratificação, punição (fuga e luta) e inibição (quando o siri chia). Existem quatro cérebros no homem: sobrevivência; alimentação e cópula; memória; associação criativa. Esqueci algum? adaptabilidade? Defesa? Vão por conta da sobrevivência. Um é católico, outro é comunista, outro é pseudointelectual, o último é pseudoelitista”. 

* Dirce Waltrick do Amarante é escritora e tradutora. Traduziu, entre outros, James Joyce e Gertrude Stein

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.