Verdades e mentiras sobre o vício

Tentações que podem corromper nossa vida costumam ser pura indulgência. E os excessos nem sempre envolvem substâncias

Andrea Kauffmann Zeh*, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 21h26

Não foi por causa do Fábio (Assunção), nem por causa do Michael (Douglas) e nem mesmo pela preferência exagerada do namorado por hambúrgueres que deixaram seu pneuzinho um pouco inflado. Na verdade, este artigo é para declarar que talvez saibamos muito pouco sobre o que levou Fábio à cocaína, Michael ao sexo e o namorado ao McDonald?s mais próximo. E para admitir que de viciado todos nós temos um pouco. Somos espelhos dos fábios, michaels e namorados.Sobreviver implica desejar e, o desejo, a vitória ou a sentença. O peixe morre pela isca, o rato pelo queijo. Mas tais criaturas precisam da isca e do queijo para sua subsistência. Nós raramente temos essa consolação. As tentações que podem corromper nossas vidas são freqüentemente pura indulgência.Nossos excessos nem sempre envolvem substâncias. O jogo pode tornar-se compulsivo; o sexo, obsessivo. E o passatempo mundialmente popular, a televisão? Muitos admitem ter um relacionamento amor-ódio com a telinha. Queixam-se e então se aconchegam no sofá e agarram o controle remoto. Mesmo os pesquisadores que estudam a TV se surpreendem com sua capacidade de reter a atenção.E o que dizer sobre a tão falada predileção por alimentos processados, ricos em gorduras e açúcares? Aquela que tornou o namorado roliço? Dentro deste raciocínio, uma pergunta tem deixado a indústria alimentícia acordada: a comida processada vicia? E se a ciência provasse que estes alimentos agem no cérebro da mesma forma que a nicotina ou a heroína? Seríamos alertados, assim como nos avisam as fotos nos maços de cigarros? Veríamos a indústria alimentícia seguir pelo mesmo infortúnio que as companhias de tabaco, pagando enormes somas às pessoas que clamassem danos à sua saúde?Vários neurocientistas já alardearam pela mídia que alimentos processados, a TV e a internet viciam, porque afetam os circuitos do prazer em nossos cérebros da mesma forma que drogas recreativas. No entanto, tais conclusões podem ser simploriamente interpretadas. Nossos cérebros evoluíram para tornar comida e sexo prazerosos, para garantir a sobrevivência da espécie. Já foi demonstrado que diversas drogas nos fazem implorar por mais por cooptar tais circuitos do prazer. Mas defender que sexo e comida são viciantes, por que afetam os mesmos circuitos, é o mesmo que clamar que seres humanos são atraídos por sexo e açúcar por que eles nos lembram as drogas recreativas. Será? E o que concluir para outras dependências, como jogos e TV?A confusão é indicativa de quão pouco a dependência é entendida por muitos daqueles que escrevem e pregam contra o vício. Trata-se de um assunto complexo, altamente politizado e é exatamente por isso que precisamos entendê-lo bem.A questão que deveríamos nos ater não é se os alimentos, TV ou jogos agem como as drogas; e sim por que algumas pessoas se tornam viciadas e outras não. O raciocínio vale até mesmo para as substâncias recreativas. Por exemplo, embora o público raramente escute, pesquisas mostram consistentemente que só entre 10% a 20% daqueles que experimentam heroína se tornam dependentes. Isso significa que não pode ser a substância sozinha que causa a dependência, mas uma combinação complexa da substância, da circunstância e da biologia vulnerável do indivíduo.Essa confusão foi parcialmente explorada, por um bom tempo, pelas empresas de tabaco para evitar o pagamento de compensações. E é ainda mais difícil para os advogados provar que alimentos processados causaram a obesidade em seus clientes. Afinal, não há nada surpreendente sobre nossa preferência por gorduras e doces. No ambiente em que o homem evoluiu, tal necessidade era adaptativa: aqueles que comiam alimentos mais ricos em energia e a estocavam em seus tecidos eram mais aptos a sobreviver nos períodos de escassez. A gordura e o açúcar, que hoje preocupam nossa saúde, não importavam em um ambiente de rara fartura.Num admirável esforço de reduzir o estigma à dependência a drogas e promover tratamento em lugar da punição, o Instituto Nacional para o Abuso de Drogas dos EUA certa vez divulgou: "Dependência é uma doença, por que as drogas causam mudanças no cérebro". Seu veredicto foi largamente abraçado pela mídia e partes interessadas mundo afora. Aqueles que argumentam que os alimentos processados são viciantes se aproveitaram da deixa e apontaram para substâncias específicas encontradas nesses alimentos, que dizem agir como drogas e, assim, explicaram a perda de autocontrole do indivíduo.Mas, novamente, a realidade é bem mais complicada do que isso. O processo de aprendizado também causa mudanças no cérebro, mas ninguém argumenta que aprender é uma doença. E quase nenhum estudo comparou o cérebro de viciados em drogas com o daqueles que as usam ocasionalmente. Os pesquisadores não têm como provar que diferenças estruturais encontradas nos cérebros de viciados é o que os leva a utilizar drogas pesadamente e perder o autocontrole. O mesmo se aplica aos estudos quanto à dependência aos alimentos processados e outros "indutores" de dependência.A dependência em drogas, assim como nosso excesso no consumo de alimentos processados e nossa compulsão por telenovelas, resulta do fato de que nosso ambiente moderno é bem diferente daquele no qual nossos ancestrais viveram; quando heroína, hambúrgueres e televisão não faziam parte do cardápio e os mecanismos de prazer eram desenhados para dirigir a vontade por sobreviver maior do que a de perecer. Para lidar com o comportamento compulsivo de hoje, precisaremos desvendar a complexidade desse quebra-cabeça, o papel das diferenças genéticas individuais e os ambientes específicos em que elas se enquadram no mundo moderno.Até lá, é melhor assumir que, de verdade, quase todos somos dependentes: do cafezinho da manhã, do Orkut ou da novelinha. Variamos em quão propensos estamos a um ou a outro tipo de estímulo. Acusar dedo em riste qualquer um de "viciado" por seus excessos, só vai embaçar o cenário ainda mais. *Andrea Kauffmann Zeh é superintendente do Núcleo Relações Institucionais e Desenvolvimento de Oportunidades da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa - Fundep

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