Instituto Moreira Salles/Divulgação
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Versos de Annita Costa Malufe dialogam com poeta Ana Cristina Cesar

Novo livro da autora, 'Um Caderno para Coisas Práticas', trata do esquecimento como questão fundamental

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2017 | 16h00

“As lembranças são necessárias, mas para serem esquecidas, para que nesse esquecimento, no silêncio de uma profunda metamorfose, nasça finalmente uma palavra, a primeira palavra de um verso”. A frase do pensador francês Maurice Blanchot parece ser a pedra angular do novo livro de poesia de Annita Costa Malufe, Um Caderno para Coisas Práticas, que se ergue sobre o constante esquecimento da autora: “nada melhor/ do que a memória mas aí já/ é tarde demais não me lembro/ de nada não sei ter memória vida/ toda aprendendo a combater/ vida toda para esquecer ”. 

É de Blanchot, citado pela autora em seu livro, a seguinte afirmação: “o esquecimento, em cada acontecimento que se esquece, é o acontecimento do esquecimento”, de modo que ele “ergue a linguagem em seu conjunto reunindo em torno da palavra esquecida”, ou das imagens esquecidas, como de fato ocorre na poesia de Malufe: “imagem em vias de sumir/ seu rosto pulverizado pelo tempo/ ou bichos que comem papel fotográfico/ excesso de zoom pixelando o seu rosto”.

O esquecimento faz com que a voz se torne hesitante, “é como/ se tivesse sido ontem ou/ na semana passada/ tenho pressa de/ acabar pensando bem talvez/ não tenha pressa”. Mas a fala luta contra o esquecimento, fala para não poder esquecer, como diz Blanchot.

Essa hesitação na fala, que diz se desdizendo, assemelha-se à escrita de Ana Cristina Cesar, outra referência literária de Annita Malufe, que vem pesquisando e escrevendo sobre a poeta carioca há vários anos. Em A Teus Pés, de Ana Cristina, lê-se: “Trilha sonora ao fundo / Agora silêncio/ / Eu tenho uma ideia./ Eu não tenho a menor ideia./ / Muito sentimental./ Agora pouco sentimental./ / Esta é a minha vida./ Atravessa a ponte”.

Vale lembrar que o esquecimento acentua essas contradições, pois ele desorienta o sujeito, deixando-o sem pouso -- “não estou em parte alguma/ preciso voltar só não/ sei muito bem para onde” – e sem identidade -- “não estou aqui é muito/ claro os fios que regem esses/ braços e pernas são finos/ quebradiços prestes a/ se romper sou um/ ventríloquo títere não sou o que se enxerga daí”, conforme reiteram os versos de Malufe.

A autora deixa claro que não sabe quem fala em seu livro, já que ela nunca está “completamente presente há/ sempre algumas vozes a mais que/ me dividem elas me puxam ou/ empurram há uma confusão/ de vozes uma disputa de/ vozes que dividem o meu corpo nunca/ estou completamente aqui”. Talvez a voz de Malufe se confunda com as vozes que lhe servem de referência e que ela elenca ao final de seu livro: além de Maurice Blanchot e Ana Cristina, Samuel Beckett, Manoel Ricardo de Lima, Heitor Ferraz, Alberto Caeiro, Donizete Galvão etc. 

Os primeiros versos de Um Caderno Para Coisas Práticas não sugerem porém o esquecimento, mas o seu contrário, por meio de um inventário: “listas e mais/ listas os objetos os livros os/ verbos os números tanto faz/ contanto que esteja tudo devidamente listado”. Aliás, o próprio título do livro remete a uma espécie de arrolamento infinito. Mas o inventário aos poucos se transforma num diário, no qual o esquecimento é registrado: “talvez tudo tenha acontecido/ no início do mês antes/ eu estava bem ela vinha de quinze em quinze me/ ajudava nas compras isso foi/ antes de tudo acontecer ”; um diário à moda, diria, de Ana Cristina Cesar.

Não pense o leitor que encontrará algum segredo da autora nessas páginas. Caberia dizer sobre o diário de Malufe aquilo que ela mesma afirmou acerca do diário de Ana Cristina: “Os diários de Ana então não revelam confidências, mas distorcem, deformam a linguagem confidencial, que seria tão franca e direta, fazendo-a repleta de arestas, de incompletudes”. Se a poesia de Ana Cristina está cheia de reticências, de três pontinhos, a de Malufe está cheia de silêncios beckettinos, pois “a boca está cheia de areia”, e por mais que se gesticule, o gesto é “indecifrável”. 

Definiria talvez a poesia do esquecimento de Anitta Malufe com uma afirmação de Ana Cristina Cesar: “A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superfície tranquila do eu. A literatura mexe com essa contradição: desconfia da sinceridade da pena e do cristalino das superfícies; entra a fingir para poder dizer; nega a crença na palavra como espelho sincero– mesmo que a afirme explicitamente. Finge o que deveras sente, já se disse. O Romantismo, por sua vez, põe em cena essa discussão: quem é esse eu lírico que se derrama em versos? Será sincero? Reflete o Autor? Mascara?”. Essas perguntas ficam sem resposta na poesia de Malufe, que sabe muito bem que o eu sem memória é uma “massa amorfa” que substitui o rosto do poeta.

*Autora, entre outros, de 'Cenas do Teatro Moderno e Contemporâneo', da editora Iluminura

'Um Caderno para Coisas Práticas'

Annita Costa Malufe

Editora 7 Letras

104 pág.

R$ 34

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