Juan Esteves
Juan Esteves

Vertigem paulistana

Apaixonado por fazer imagens de arquitetura e retratos, o fotógrafo santista Juan Esteves apresenta um novo ensaio, Estruturas Improváveis, e, como lhe é caro, uma boa discussão fotográfica. Neto e bisneto de arquitetos, desde a infância Esteves respirou formas e estruturas. Influência iniciada quando seu avô trouxe para morar no Brasil um amigo espanhol, o pintor Antonio Prado, que espalhava retratos por todos os cantos da casa. Esteves, então, marcado pela estética espanhola presente na família e pelos quadros de Velázquez e Ribera, foi vendo sua fotografia ser tomada pelo claro e o escuro, notadamente o preto e o branco.

Mônica Zarattini, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h17

Há dois anos ele vem produzindo estas imagens arquitetônicas por meio de um aplicativo embutido em seu celular. E aí entra a boa discussão (ou provocação) fotográfica: fotografia feita assim é fotografia? Para além da reflexão, o ensaio de Esteves surge como um contraponto de seus tradicionais registros de prédios históricos paulistanos - um contraponto artístico feito a pinceladas cibernéticas.

Como nasceu Estruturas Improváveis?

JUAN ESTEVES - Começou há um ano e meio como uma contrapartida do meu trabalho mais clássico da arquitetura paulistana, que está no meu livro Capital - São Paulo e seu Patrimônio Arquitetônico, de 2010. Nesse livro as fotografias são totalmente livres dos ruídos que a gente encontra na cidade: fios elétricos, postes em excesso, ares-condicionados que não pertencem às fachadas, essas interferências contemporâneas. Os edifícios se tornam limpos em toda sua essência. As Estruturas Improváveis surgiram em oposição a esse conceito. O trabalho novo tem a ver com os edifícios contemporâneos, tão feios, seriados, copiados, repetidos - frutos de uma fast arquitetura de placas pré-moldadas, coisa horrorosa. Então, ao pensar em Estruturas Improváveis eu quis criar novas imagens que recuperassem essa arquitetura não tão bonita, e daí surgiram essas fusões e, digamos, uma nova arquitetura baseada essencialmente nos grafismos dos prédios.

E para isso você fotografou com o celular.

JUAN ESTEVES - Sim. Usei o aplicativo Hipstamatic do iPhone. Por vários motivos. Um é que esses aplicativos/celulares estão chegando a um padrão de qualidade muito bom. Hoje podemos fazer cópias grandes a partir de fotografias feitas com celular. Outro é a mobilidade que a gente tem com o celular, ou seja, não preciso carregar minha câmera o dia inteiro, pois a tenho no bolso. Existem dezenas de aplicativos para fotografia. Encontrei um capaz de produzir imagens muito próximas de meu trabalho convencional, basicamente feito no formato quadrado. E, além de tudo, o aplicativo se encaixou em minha proposta de uma maneira um tanto lúdica, porque não deixa de ser uma brincadeira também.

Mas me deixa fazer uma provocação: fotografia feita com celular é fotografia?

JUAN ESTEVES - Sem dúvida que é! O exemplo mais claro disso é o trabalho do Balaz Gardi, fotógrafo húngaro que fez o site basetrack.org, no qual transmitia diariamente as imagens dos soldados no Afeganistão feitas com um iPhone. Ele estava embutido na tropa americana e usou o mesmo aplicativo que eu uso. Recentemente, o fotógrafo Bico Stupakoff publicou dois ensaios com o Hisptamatic na revista Playboy. Anos atrás entrevistei a Maureen Bisilliat* e perguntei sobre uma série de fotografias que ela fez na década de 1970 com os vaqueiros do sertão, cujas imagens eram bem azuis e distorcidas. Ela me revelou como criou aquele efeito, totalmente artesanal. É uma das séries mais criativas que já vi na fotografia. Quis saber por que ela não continuou. Com toda aquela sabedoria, a Maureen me disse: "Criei uma linguagem para uma determinada obra. Se eu prosseguisse, ia virar um truque. Então parei. Não faço truques, faço fotografia". A imagem contemporânea, infelizmente, está um pouco assim, cheia de truques.

Instagram, Hipstamatic... Qual a próxima fronteira da fotografia?

JUAN ESTEVES - Não penso na fotografia do futuro, penso na de agora. O grande erro das pessoas é não aproveitar os recursos que têm à mão. Estamos pensando sempre no que virá, no que poderemos fazer, e muito pouco no que estamos fazendo. A fotografia é uma mídia muito nova se compararmos, por exemplo, com a pintura. Não tem ainda 200 anos, e a pintura já passou dos 5 mil. Paradoxalmente, nessa curta existência - que teve um andamento muito lento até o advento da informática -, ela vem andando em círculos. Hoje temos grandes fotógrafos usando processos fotográficos antigos. O italiano Paolo Roversi usa uma câmera 8 x 10 polegadas do inicio do século 20. Robert Maxwell, excelente retratista, ainda usa a técnica wet plate (chapa úmida) do século 19 para fazer retratos para a Rolling Stone. Recentemente o Hipstamatic lançou um aplicativo que simula um daguerreótipo e um cianótipo, duas técnicas antigas. Embutidas em um celular! Temos uma infinidade de mídias para usar, uma melhor que a outra. Na verdade não temos uma próxima fronteira. Temos, na verdade, desafios: criar, criar e criar!

*Referência. Maureen Bisilliat nasceu na Inglaterra em 1931 e se fixou em São Paulo em 1957. Notabilizou-se por fotografar o Brasil descrito nas obras de grandes escritores como Guimarães Rosa e Euclides da Cunha.

Harmonização. Para seguir seus passos em São Paulo, o fotógrafo sugere as canções The Man from the Oldest Building (Ed Motta) e Baker Street (Gerry Rafferty). Nós adicionamos Saudosa Maloca (Adoniran Barbosa).

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