Librado Romero/NYT
Librado Romero/NYT

Vespeiro social nos Estados Unidos

Detenção de professor mostra como o tema raça continua incômodo

Ian Buruma*,

03 de agosto de 2009 | 15h19

Na tarde de 16 de julho, dois homens davam a impressão de estar invadindo uma casa luxuosa na valorizada região de Cambridge, Massachusetts. Alertado por um telefonema, um policial chegou rapidamente ao local. Ele viu um homem negro de pé dentro da casa e pediu-lhe que saísse. O homem se negou a fazê-lo. O policial pediu então que o sujeito se identificasse. O homem, ainda se negando a sair da casa, disse ser um professor de Harvard, mostrou sua identidade e alertou o policial para que não o incomodasse. Disse também algo a respeito de os negros serem vítimas nos Estados Unidos e solicitou ao policial - branco - que fornecesse seu nome e identificação. O policial, com a ajuda de muitos de seus colegas, prendeu o professor por perturbação da ordem. Sabemos agora que o professor tinha arrombado a porta da própria casa, com a ajuda do motorista, porque a fechadura estava emperrada.

 

O aspecto incomum do caso não é a mão pesada do policial. Nos EUA, a maioria das pessoas sabe que, se respondemos aos policiais, eles ficam truculentos rapidamente. O fato de o homem ser negro pode ou não ter feito com que o policial procurasse pelas algemas mais rápido do que o faria normalmente. Mas isso também seria comum.

 

O que fez esse caso tão especial foi o fato de Henry Louis Gates Jr. ser um dos professores mais celebrados do país, famoso por seus livros, artigos de jornal e numerosas aparições na televisão. Ele é um prócer, uma figura que mobiliza e agita o universo acadêmico e a mídia, um amigo do presidente Barack Obama. Foi por isso que ele alertou o policial, o sargento James Crowley, para que não o incomodasse.

 

Classe e raça se sobrepõem nos EUA. Nesse caso, é impossível dissociá-las. Gates, muito ciente do terrível histórico das relações raciais no seu país - assunto em que é especialista -, pressupôs instintivamente que estivesse sendo vítima de preconceito. Suas palavras parecem sugerir que estava igualmente ciente do respeito que lhe seria devido enquanto distinto professor de Harvard e celebridade da mídia. Numa entrevista publicada na internet, ele diz à filha: "(Crowley) devia ter saído de lá e dito ‘me desculpe, senhor, tenha um bom dia, adorei sua série (de televisão), nos falamos outra hora’".

 

Infelizmente, o sargento Crowley nunca tinha ouvido falar do professor Gates. Natural da região, fã de esportes e técnico amador de basquete, Crowley, cujos irmãos todos servem na força policial, não transita pelos mesmos círculos sociais que Gates.

 

As acusações foram devidamente retiradas e o caso poderia ser considerado encerrado - se o presidente Obama, cansado e frustrado depois de semanas de luta pela reforma do sistema de saúde, não tivesse intercedido em favor de seu "amigo" Gates, e chamado a polícia de "estúpida". Obama e Gates falaram em "aprender" com o incidente. É possível que Gates esteja até planejando produzir um documentário televisivo sobre perfis raciais.

 

O caso nos ensina - se é que ainda não sabíamos - como as sensibilidades raciais estão à flor da pele na vida americana, apesar da eleição de um presidente negro. As complexidades da raiva negra, da culpa branca e do medo de brancos e negros são tão exasperantes que a maioria dos americanos prefere simplesmente não tocar em raça. Trata-se de um campo excessivamente minado. Uma das grandes conquistas de Obama foi transformar o tema num tópico sério por meio do brilho e sutileza de sua retórica.

 

E ainda há muito o que debater: a grotesca desproporção do número de negros nas prisões americanas; a falta de oportunidades educacionais em regiões pobres de população predominantemente negra; o péssimo sistema público de saúde; e a brutalidade concreta empregada pelos policiais contra negros que não têm o privilégio de ostentar uma identificação de Harvard. É provavelmente verdade que muitos policiais brancos, mesmo tendo sido treinados para evitar abordagens preconceituosas - como é o caso do sargento Crowley -, precisam ser convencidos de que um negro possa de fato morar em uma das casas mais chiques de Cambridge, ou de qualquer outra cidade americana.

 

Mas será que o caso de Gates é a maneira certa de entrar nesse debate? Pode-se argumentar que sim. Se o professor Gates não lutar contra isso, quem o fará? Justamente por ser um prócer, ele está em posição de atrair a atenção do país para um problema grave. Se a mesma coisa acontecesse a um negro desconhecido no Harlem, ou em algum outro bairro pobre de população predominantemente negra, ninguém jamais ouviria falar do caso. O fato de isso ter acontecido com um professor em Cambridge chama a atenção de todos.

 

Há, no entanto, o risco de que o caso tenha um efeito adverso sobre o tão necessário debate nacional sobre a questão racial. Ao criar tamanha celeuma por causa de uma ocorrência relativamente menor, Gates poderia ser acusado de banalizar instâncias muito piores de abuso.

 

De fato, nem mesmo sabemos ao certo se o caso poderia ser enquadrado como tal. Crowley jamais mencionou a cor da pele de Gates. Não houve violência. O que sobrou foram os nervos irritadiços e a hipersensibilidade diante de um desrespeito sugerido, por parte do professor e do policial. A indignação em defesa de um professor que não pode ser incomodado não é a melhor maneira de debater o sofrimento de incontáveis pessoas pobres e anônimas, as quais a maioria de nós ignora com surpreendente facilidade.

 

*Escritor, jornalista e professor de democracia, direitos humanos e jornalismo na Universidade Bard. Seu livro mais recente é o romance O Amante da China (Penguin, EUA)

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