REUTERS/Murad Sezer
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Via de mão dupla

Redes sociais deram mais liberdade à autoria, mas existe o rastreamento. ‘Pessoas defendem o direito de falar, mas esquecem a vulnerabilidade a que estão sujeitas’, diz socióloga

Entrevista com

Maria Cristina Castilho Costa

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 16h00

Para a professora do Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura da USP, Maria Cristina Castilho Costa, ao mesmo tempo que as redes sociais deram a liberdade de autoria às pessoas, também criaram processos censórios. “O usuário não conhece as regras que administram o que posta.” A seguir, trechos da entrevista concedida ao Aliás.


Por que a senhora diz que a liberdade de expressão é uma utopia?

Para a formação da coletividade, indivíduos abrem mão de particularidades. É da cultura humana ver a censura do coletivo sobre o individual. Processos de poder influenciam esse coletivo, que acaba oprimindo a individualidade. A tal ponto que nós, ao mesmo tempo que pertencemos ao coletivo, sentimo-nos estranhos a ele.

A censura está ligada ao convívio social?

Ao convívio, à cultura e à dinâmica entre o indivíduo e a maioria. Não a maioria numérica, mas a com poder. A liberdade de expressão é muito nova, um anseio, considerando a heterogeneidade.

Isso não ocorria no passado?

Numa sociedade tribal, relativamente isolada, onde a distribuição do conhecimento e da informação é igualitária, não se percebe o estranhamento, a perda e a repressão que temos na nossa sociedade. Haver um espaço em que as opiniões possam ser expressas e negociadas é difícil. 

Qual o impacto das mídias sociais nesse processo?

Por um lado, dá liberdade às pessoas de serem autoras. Existe a produção coletiva, de textos, de histórias, de mensagens, debates. Mas há dois aspectos problemáticos. O primeiro é o rastreamento. Você tem a impressão de que está se dirigindo a amigos, mas está falando para todo mundo. As pessoas defendem o direito de você falar, mas não se preocupam com a vulnerabilidade a que estão sujeitas. A segunda coisa é o fato de as redes sociais estarem criando seus próprios processos censórios.

Quais seriam esses processos?

Primeiro, questões morais e éticas. Seio nu não pode, nem numa campanha de amamentação. Trocas homoafetivas também não. Quem disse isso? Que autoridade respalda essa ação? Além disso, há os interesses comerciais dessas redes. A circulação da informação vai para onde elas querem, você não define quem lerá o seu post. Existe uma gestão, que não é clara nem transparente. Se por um lado o público pensa ter maior liberdade de expressão, por outro não tem conhecimento das regras que administram aquilo que posta. 

A censura está se transformando?

A censura tradicional estatal, clássica, oficial, típica da primeira metade do século 20, dos governos totalitários, de direita e esquerda, que é a fiscalização, caiu em descrédito e foi praticamente extinta dos países ocidentais. Só que as forças de controle continuaram necessitando de rastreamento, perseguição e controle. Além disso, a opinião pública é a favor da censura.

Poderia explicar melhor?

Fizemos pesquisa. O arquivo Miroel Silveira, por exemplo, traz documentos relacionados à peça Perdoa-me por me Traíres, do Nelson Rodrigues, entre eles, um abaixo-assinado com 3 mil assinaturas pedindo a censura da peça. O dado espantou: tanta gente favorável à censura? Daí fazer a pesquisa de opinião pública.

Que pesquisa foi essa?

Ela foi feita de 2008 a 2011. Era qualitativa, com base em entrevistas abertas em São Paulo, Santos e Fortaleza sobre o que as pessoas pensavam sobre a censura. Resultados mostram que elas se declaram a favor da liberdade de expressão, mas querem censurar. Acham que nem tudo pode ser visto. Quando defendo a liberdade de expressão, falam: “você quer que a sua neta veja uma cena de estupro na TV ao meio-dia?” Um argumento absurdo. Isso não aconteceria. As empresas são responsáveis, o mercado, o público não aceitaria.

A que a senhora atribui essa reação?

Esse argumento tenta pressionar eticamente a defesa da liberdade de expressão como imoral. Há sempre uma condição, na verdade uma intervenção. Quero deixar claro que sou favorável a que as pessoas saibam o que vão ver. Em 1943, a peça Ben Hur sofreu vários cortes. Traz a história de um revolucionário judeu contra o Império Romano. Na montagem, havia cantos dos soldados louvando Roma. O censor mandou cortar esses versos. Por quê? Getúlio se aproximava dos Aliados na 2ª Guerra. Não queria que uma peça desse a impressão de que apoiava Mussolini. As questões éticas e morais são uma justificativa para a adesão do público em geral. Na verdade, quando o poder pode, ele usa a censura em seu interesse.

Por que a senhora diz que a censura é inteligente?

Peças vetadas e depois liberadas nunca mais foram encenadas. Não porque fossem ruins, pelo contrário. Mas, enquanto assistimos ao debate “tira, não tira”, os anos passam. Quando a peça enfim é liberada, não tem mais a repercussão que teria quando produzida. Falo do teatro. Isso desestimula, cria a autocensura. 

Isso vale para os dias de hoje?

Todo mundo sabe que não se pode falar em aborto. Não tem censura, mas não vai haver verba, não vai atrair público. Em outras palavras: não pode. Em novela, não tem arma antes das 22 horas, como se a criança não visse arma em outros ambientes. O mundo que a censura defende é falso. Dizem: estamos defendendo a criança. De que criança falamos? 

Como seria feita a proteção?

De baixo para cima. Não é Getúlio Vargas que vai decidir se Ben Hur pode exibir cantos a Roma. Somos um país super autoritário. Já ouvi autoridades de classificação indicativa dizerem: “se criarem uma comissão popular, ela será mais rígida que nós”. Democracia é para discutir, mas a população não imagina que quem não pensa como você pode trazer uma contribuição. 

A liberdade de imprensa é importante para garantir a liberdade de expressão?

A liberdade de imprensa é vista como um espaço de articulação política e construtora da democracia. A poesia, a ficção, a produção audiovisual também o são. Nessa área o descaso é muito maior. Defender a liberdade de imprensa é mais fácil do que defender a liberdade do cineasta, do poeta, da companhia de teatro.

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