Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Viagem à dor do passado: uma entrevista não publicada com o poeta Ferreira Gullar

Em julho, quando preparava uma nova edição de sua obra-prima ‘Poema Sujo’, o poeta Ferreira Gullar, morto no domingo passado, relembrou para o ‘Estado’ o forte impacto emocional provocado pelo processo de criação, durante o solitário período de exílio forçado em Buenos Aires, em 1975

Ubiratan Brasil, Impresso

10 Dezembro 2016 | 16h00

Uma injusta fama de mal-humorado acompanhava o poeta Ferreira Gullar, morto no domingo, 4, aos 86 anos. Ainda que restrita, havia uma parcela de jornalistas e editores que evitava conversar com ele, temendo respostas atravessadas ou mesmo a indiferença. Nada mais irreal – Gullar era dono de uma risada que, se não atingia a estatura de uma gargalhada, trazia embutida um misto de galhofa e sinceridade. E o poeta sabia rir e fazer rir, especialmente quando narrava as estripulias de seus gatos – foram vários, sempre com o mesmo nome de Gatinho.

Gullar vivia em Copacabana, no Rio, na Rua Duvivier. Era muito conhecido na região, onde era tratado pelo nome. Ele gostava de contar uma história sobre um morador de rua que também vivia por ali e que observava a forma como o poeta era tratado. Até que, em um dia, parou diante do próprio e disse: “Ferreira Gullar! Tão famoso e eu nem sei quem é!” Uma história que o escritor adorava contar e recontar.

No final de julho, quando a Companhia das Letras iniciou a reedição de sua obra a partir do já clássico Poema Sujo, o repórter conversou por telefone com o poeta. A intenção era a publicação de uma matéria, que acabou, por motivos diversos, não sendo publicada. Apesar do triste motivo, o momento atual tornou-se propício, como uma homenagem ao poeta.

Qual sua relação com o Poema Sujo?

Há muito tempo que não relia o poema e agora, com a nova edição em uma nova editora e, consequentemente, com uma nova composição gráfica do poema, fui obrigado a relê-lo para fazer a revisão. Para ver se não tinha algum erro. E me espantei porque tinha me esquecido do que ele era realmente. Levei um susto por eu não saber o que ele era. É, de fato, um poema engajado, não um poema político, não foi feito com intenção política, mas ele é um poema entranhado na coisa social e sobretudo na minha vida, na minha cidade. Ele é um que reflete todos os outros problemas, mas a sua raiz está no que vivi no Maranhão, com meus pais, meus irmãos, os subúrbios, as palafitas. Eu fiquei bastante surpreendido com o poema.

Eu me lembro de quando você leu um trecho na Flip, em 2010, o que te provocou emoção – você ficou com lágrimas nos olhos...

Ele nasceu numa situação muito especial. Numa situação altamente dramática. Eu já disse isso, mas é verdade. Eu não sabia o que ia acontecer comigo no momento em que me dispus a escrever o poema. Escrevi como se fosse a última coisa da minha vida. Eu já tinha saído do Chile, com a morte do (Salvador) Allende. Por um triz não fui sequestrado pelos militares chilenos e levado para aquele lugar onde mataram muitas pessoas. Então, eu já tinha saído daquilo. Assim, estou em Buenos Aires (em 1975) e começa a conspiração de um novo golpe. Tentei ir para Europa, mas não tinha passaporte. Fui à embaixada brasileira, que negou a me dar um passaporte. Não podia fazer nada, tinha de ficar ali. Então, escrevi como se fosse a última coisa porque não sabia o que aconteceria comigo. Esse estado também contribuiu para o poema ter uma emoção, pois foi assim: vou escrever o que me resta escrever.

Você tinha noção que ele ia ser longo?

Sim, sabia. Ao começar a escrever, tinha certeza de que seria um poema com mais de 50 páginas. Não sei por que, mas sabia.

É interessante o prefácio de Antonio Cícero, que coloca Poema Sujo como ponto central da sua extraordinária carreira. Ele faz uma releitura de seus poemas, dividindo por fases, e coloca o Poema Sujo como um divisor de águas.

Acho que os críticos têm cada um sua visão e maneira de situar o poema e avaliar. Para mim, ele é uma experiência poética que, de tão intensa, até mudou minha vida. Em função dessa entrega e por ter sido trazido ao Brasil pelo Vinícius (de Morais, que gravou uma fita cassete e promoveu uma audição a intelectuais no Rio, o que facilitou sua publicação), e a repercussão que provocou ao ser lançado, ele possibilitou que eu saísse do exílio. Engraçado isso. Ele me deu coragem, pois, em função da repercussão do poema no Brasil, pensei em voltar porque dificilmente os militares fariam comigo o que poderiam ter feito antes. Meu retorno se deu em função da repercussão que o poema teve aqui. Como experiência artística, o poema foi decisivo na minha vida, porque nunca tinha acontecido de eu passar meses entregue a um poema. Eu andava pela rua fazendo poema, eu ia no supermercado fazendo o poema. Ele estava sendo feito na minha cabeça a todo momento. Eu não me desligava dele. Isso durou meses. Eu voltava para casa e retomava a escrita do poema, escrevia, escrevia, escrevia e parava. Aí, voltava tudo de novo, o mesmo estado que exigia a continuação até que, de repente, parou, esgotou. O poema não estava terminado e tinha se esgotado. Eu sabia que não tinha terminado, mas eu tinha saído daquele clima. E aí começou: como terminar o poema? Fiz uma tentativa e não deu certo. Até que encontrei uma solução que era citar no próprio poema. Está na última estrofe (a cidade não está no homem / do mesmo modo que em suas / quitandas praças e ruas).

É incrível como ele é conclusivo.

É uma coisa muito estranha porque fiquei um tempo sem saber como terminar o poema. Foi quando me lembrei de uma frase do Hegel (filósofo alemão, morto em 1831), em que ele diz que a árvore é o universal e a folha da árvore é o particular. Comparando o universal e o particular, a árvore seria o universal e a folha da árvore, o particular. Essa frase ficou na minha cabeça a ponto de me levar a uma coisa estranha: a cidade está no homem e o homem está na cidade. Então, a ideia do particular e a do universal estão interligadas e surgiu dessa frase do Hegel. Foi assim que consegui concluir o poema.

Você sempre me falava que o poema não tem inspiração, que nasce do espanto. Esse foi um exemplo claro pra você?

De certo modo foi, mas ele não foi propriamente um espanto porque envolve isso também, mas, como falei, nasceu de circunstâncias dramáticas da minha vida, de um momento no qual eu não sabia para onde ir. É claro que isso gerou o espanto, mas é uma coisa mais complexa do que eu escrever um poema porque vi um pássaro cruzar a janela. É diferente. É algo que envolveu mais coisas que um simples espanto. Porque, como já contei para você, era minha própria vida que estava em jogo.

Era um momento de exceção.

Exatamente. Mistura a vida e o poema. Nisso, Poema Sujo difere dos outros porque é fruto da situação dramática, do próprio momento da vida na qual não era simplesmente um espanto que me revelaria a beleza de uma determinada coisa. Era questão de vida ou morte.

Especialmente por não saber se continuaria a escrever depois disso.

Eu não sabia se continuaria a viver. Porque estava se preparando um golpe e podia acontecer comigo o mesmo que houve com outros companheiros em Santiago do Chile. Eles foram assassinados. Eu podia ser assassinado também.

Você tem ideia de como o Poema Sujo chega às pessoas? Qual a recepção você espera para esse trabalho?

A experiência que tenho é que as pessoas se comovem e se identificam muito. Não é por acaso que o poema ganhou tamanha popularidade, tal prestígio na opinião das pessoas mais diversas. Porque, de fato, ele tem algo que comove, que envolve as pessoas. Não conheço ninguém que tivesse lido o poema e dito: não gostei. É sempre uma reação apaixonada, as pessoas se entregam e, quando me encontram, falam do poema como se tivessem de fato vivido igualmente aquela situação que o texto revela.

Toda sua obra vai ser reeditada pela Companhia das Letras. Como é rever esse trabalho?

Revi apenas o Poema Sujo (lembre-se, leitor, que a conversa aconteceu em julho) justamente porque esse é o primeiro livro a ser reeditado. Vou ter de reler os outros porque é uma questão de corrigir e editar erros. Mas o Poema Sujo me trouxe a experiência que te falei há pouco. Foi uma surpresa porque fazia muito tempo que não lia o poema nem mergulhava naquele drama, naquele emaranhado de coisas. O incrível que, ao mesmo tempo que é fruto de uma situação dramática, o poema também é uma transcendência daquilo. Vou reler os outros livro, mas acho que não será uma experiência como essa. Poema Sujo faz uma conexão com um momento especial da minha vida. Não é um momento qualquer.

A releitura do Poema Sujo te trouxe também a lembrança de imagens de Buenos Aires?

De certo modo, eu revivi aqueles momentos em Buenos Aires. Foi uma experiência bastante comovente.

Você chegou a retornar à capital argentina depois daquela vez?

Não. Voltei uma única vez. E foi porque alguns amigos me forçaram a voltar. Depois disso, não voltei mais.

Nenhuma mesmo?

Não. Eu não sou muito de viajar. E tinha um certo receio de voltar a Buenos Aires do ponto de vista emocional. Não sou muito de ficar curtindo o passado. E procuro evitar não me comover demais.

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