Vice-presidente do grupo Benetton fala da polêmica campanha e, parafraseando Fellini, diz que o mal está nos olhos de quem vê

ANTONIO GONÇALVES FILHO

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h08

Pouco antes de lançar a polêmica campanha Unhate na última quarta-feira, o vice-presidente executivo do grupo Benneton, Alessandro, segundo filho do criador da marca, Luciano Benetton, recebeu a reportagem do Aliás para uma entrevista exclusiva na megastore do Boulevard Haussmann, em Paris. Nesse encontro, o atlético empresário de 47 anos já suspeitava que o Vaticano teria uma reação violenta à campanha publicitária mais ousada do grupo nos últimos 15 anos. Não esperava, contudo, ser ameaçado com processo. "Sempre estaremos abertos ao diálogo, pois nossa campanha é de reconciliação, não de incitação ao ódio." Desde a ruptura com o publicitário Oliviero Toscani - que assinou no passado as agressivas campanhas da grife - não se via nada parecido. Na última quinta-feira, todas as vitrines das lojas da Benetton (e ela tem 6 mil ao redor do mundo) amanheceram com o papa Bento XVI beijando na boca o imã da mesquita de Al-Azhar, o xeque Ahmed Mohamed el-Tayeb, líder religioso do mais importante centro moderado de estudos islâmicos no mundo.

Trata-se, claro, de uma fotomontagem - tão perfeita como as outras concebidas pela Fabrica, centro de pesquisas e criação mantido pela Benetton em Treviso, Itália, que, sob comando de seu diretor, o cubano Erik Ravelo, inventou beijos entre líderes políticos e religiosos do mundo todo. Num cartaz, Barack Obama aparece beijando o líder chinês, Hu Jintao. Em outro, o presidente norte-americano beija o venezuelano Hugo Chávez, seu arqui-inimigo. Há beijos para todos os gostos: entre o palestino Mahmoud Abbas e o premiê israelense, Binyamin Netanyahu; entre o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, e até entre os presidentes das duas Coreias, a do Norte e a do Sul. Havia até mesmo um cartaz de Berlusconi beijando um dos seus milhares de inimigos, mas o líder italiano caiu antes do lançamento da campanha...

Provavelmente, as autoridades católicas não comungam da mesma fé. E a Benetton recuou. Antes mesmo que isso acontecesse, Alessandro Benetton garantiu que essa seria a medida adotada pela empresa caso as autoridades religiosas se sentissem ofendidas. No entanto, a grife tem na internet uma aliada: a campanha, como se diz, "bombou" na rede, especialmente no Facebook e no aplicativo Kiss Wall (Paredão do Beijo), onde os internautas podem colocar sua foto beijando quem quiser - até mesmo o papa.

A inspiração do polêmico beijo, diz Alessandro Benetton, nasceu do histórico encontro em 1979 entre o ex-líder soviético Leonid Brejnev (1906-1982) e Erich Honecker (1912-1994), político que governou a Alemanha Oriental de 1976 até a queda do Muro. Por essa época, o lema de Honecker era "Vorwärts immer, rückwärts nimmer" ("Sempre avante, nunca para trás"). Gorbachev acreditou e fez nascer a glasnost e a perestroika. Honecker não seguiu seus passos, mas o beijo fraternal em Brejnev, de alguma forma, funcionou. A abertura política veio para a ex-URSS e o muro entre as duas Alemanhas caiu. Alessandro Benetton acreditaria, por acaso, que uma campanha como a do beijo poderia provocar uma mudança assim tão radical no mundo de hoje, marcado pela crise econômica, a violência, o desemprego e a intolerância racial? "O amor global pode ser utópico, mas não a ideia de se combater a cultura do ódio", responde o empresário, formado em Harvard. Lembro a ele que há 40 anos Antonioni fez um filme (Zabriskie Point) sobre jovens idealistas e essa história acabava muito mal - mais precisamente, com o mundo explodindo em câmera lenta. "Ah, esse discurso (contra o establishment) era dominante na época. Nós, ao contrário, não queremos criar outra lista de ódios no mundo nem chocar, apenas incentivar o diálogo, entender as razões que motivam nossos oponentes", finaliza o empresário, que criou uma fundação, a Unhate, para contribuir com essa nova cultura da tolerância.

Entre as ações futuras está um curta-metragem do jovem cineasta Laurent Chanez que vai na contramão de Zabriskie Point. Chanez também fala de jovens revoltados, filma brigas, conflitos de rua, mas, no final, tudo se revolve não com uma explosão, mas com o encontro amoroso entre os adversários - um beijo da paz que será veiculado no YouTube, no site da empresa e, brevemente, nos cinemas. Enquanto isso, o grupo vai recolher cápsulas de balas usadas em guerras para construir com elas uma grande escultura, uma pomba da paz (do cubano Erik Ravello). Deve provocar menos barulho que os banners do papa, mas ainda resta o filme, que traz entre outras imagens a de casais homossexuais trocando ardentes beijos. Outra polêmica à vista? "Não queremos banalizar uma relação amorosa nem provocar ninguém, até porque a malícia está nos olhos de quem vê", finaliza o empresário, que tirou a grife Benetton do ostracismo publicitário das duas últimas décadas, prometendo para 2012 um retorno triunfal ao Brasil.

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