Vida de bicicleta

Casal de artistas plásticos britânicos fez da estrada sua última obra

O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h08

IVAN MARSIGLIA

A viagem abruptamente interrompida há alguns dias começou numa terça-feira, 12 de julho de 2011. Foi quando o casal de artistas britânicos Peter Root e Mary Thompson pegou o ferryboat das 17h na Ilha de Guernsey, no Canal da Mancha, em direção à comuna de Saint-Malo, na costa francesa. Na bagagem, duas bicicletas encaixotadas, suprimentos básicos e roupas para todo tipo de clima e altitude.

O ponto de partida foi a ilha onde Peter passou a infância, depois de nascer na vizinha Jersey - mais conhecida dos brasileiros pelas offshores que ocultariam fortunas de um certo político paulista procurado pela Interpol. Ele conheceu Mary, natural de Bristol, há 14 anos, quando cursaram juntos o Falmouth College of Arts, na Cornualha, sudoeste do Reino Unido.

Nascidos no mesmo ano de 1978, Peter e Mary coincidiam em quase tudo e tinham planos em comum. O principal deles finalmente estava em curso, após seis anos de economias e preparativos - já que ambos sempre foram os patrocinadores do próprio sonho. Viajante por natureza, Mary incorporava souvenirs e referências cartográficas nos desenhos e instalações que fazia. Recentemente, fora convidada a participar de uma mostra na Watermans Gallery de Londres. Peter gostava de usar materiais inusitados em suas obras. Em 2012 mereceu uma reportagem no tabloide britânico The Sun por uma série de esculturas em batatas. O bom momento na carreira artística, porém, não os impediu de trocar a imitação de vida em seus estúdios pela vida de verdade sobre duas rodas.

Da primeira à última pedalada, foram mais de 25 mil quilômetros de percurso, atravessando a Europa, a Ásia Central e a China. No caminho, registraram a imensa paisagem natural e humana que se desenrolava em vídeos, fotos e posts no site www.twoonfourwheels.com. As imagens mostram o casal sorrindo sob o sol inclemente do Turcomenistão, divertindo-se com a visão de uma vaca no banco de trás de um automóvel usbeque, banhando-se nas cachoeiras da Cordilheira Pamir, tomando a vodca de um típico café da manhã no Quirguistão. Mas também quedas, insolações e cenas de um confronto armado que deixou mais de cem mortos.

No entanto, não foi a guerra ou a criminalidade que tiraram tragicamente de circulação as bicicletas de Peter e Mary, no último dia 14 - mas um acidente de trânsito. Os dois foram colhidos de frente por uma picape em uma estrada da Província de Chachoengsao, a 30 quilômetros de Bangcoc, capital da Tailândia. A polícia encontrou seus corpos estendidos na estrada, entre pertences e bicicletas retorcidas, ao lado do veículo, que se chocou numa árvore depois de atropelá-los. O condutor, um jovem de 25 anos, disse que atravessou a pista sem querer, ao se abaixar para pegar um chapéu caído no assoalho. Exames vão determinar se ele estava alcoolizado.

"Nesses países, como no Brasil, o respeito à bicicleta quase que inexiste", lamenta o carioca Paulo de Tarso, de 48 anos, do clube Sampa Bikers, pioneiro no ciclismo de aventura no País. Paulo passou por situações de risco pedalando na América Central, mas diz que a emoção compensa. "É uma tal sensação de liberdade que você não quer mais viajar de outra forma."

O ciclista paulista Antônio Olinto Ferreira, de 46 anos, que fez sozinho, entre 1993 e 1996, a volta ao mundo que Peter e Mary não puderam completar, concorda. "A ideia nesse tipo de viagem não é a adrenalina, mas a busca de conhecimento", diz ele, que vê no ciclismo um tipo de meditação em que "as pedaladas se sucedem como um mantra" e o viajante se sente em comunhão com tudo a seu redor. Há seis anos, Antônio leva com a mulher, Rafaela, vida semelhante à do casal britânico: rodando numa motorhome equipada com bicicletas e escrevendo guias de turismo especializados. "Fatalidades acontecem; triste é não realizar seu sonhos", conclui.

A família de Peter e Mary também soube entender a escolha que norteava o casal. "Eles foram muito inspiradores", disse o pai de Peter, Jerry Root, numa entrevista à agência Associated Press. "O que me ajuda é pensar em quão felizes eles estavam um com o outro. Em como faziam aquilo que queriam. Foram as mais felizes e frutíferas das vidas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.