Hatem Omar
Hatem Omar

Vida de tatu

Serpenteando pela rica e corrupta indústria que fura o bloqueio israelense a Gaza

Ayman Mohyeldin*, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2010 | 01h21

Sob a fronteira entre o Egito e a Palestina, na cidade dividida de Rafah, prolifera a indústria mais proeminente da Faixa de Gaza. Conhecidos pelas autoridades de ambos os lados, mas escondidos de centenas de milhares de palestinos que se beneficiam deles, os túneis de Gaza se transformaram em canal de ligação com o mundo exterior. Uma armadilha para os que trabalham neles e um símbolo de resistência contra o cerco imposto por Israel a aproximadamente 1,5 milhão de palestinos.

Hoje, a viagem pela fronteira entre Egito e Gaza revela fileiras de tendas improvisadas que são usadas para cobrir as aberturas dos túneis. Durante 24 horas por dia, sete dias por semana, cerca de 20 mil palestinos alternam-se em três turnos, trabalhando embaixo do chão, num labirinto de quase 900 túneis por onde circulam toneladas de mercadoria diariamente.

O que esses homens trazem pelos túneis e para quem trabalham? Quem se beneficia financeira e politicamente das vias? Qual o impacto desse mercado negro na vida de Gaza? As respostas a essas perguntas são tão obscuras quanto o breu da profundidade dos túneis - alguns se esgueiram a até 20 m abaixo da superfície e avançam até 1 km de extensão nas entranhas do Egito.

Os túneis que cruzam a fronteira Gaza-Egito não são um fenômeno recente. Os primeiros surgiram há cerca de 50 anos. E desde a guerra de 1967 os palestinos têm cavado sob o solo, inicialmente para contrabandear armas para dentro da Faixa de Gaza e armar os guerrilheiros palestinos e as facções paramilitares. 

                                                                                                          

Abu Mahmoud e Abu Khaled trabalham no ramo de túneis desde sempre. Os dois homens, sócios há 15 anos, apostam que poucos em Gaza conhecem as entranhas dos túneis tão bem quanto eles. Em uma noite gelada de janeiro, sob o brilho da lua do Mediterrâneo, os dois dirigiram até a cidade de Gaza, vindos de Rafah, para falar comigo sobre sua operação. Na condição de anonimato (seus nomes nesta reportagem não são os verdadeiros), eles revelaram os meandros da nebulosa indústria dos túneis - com cuidado para não serem ouvidos pelos demais clientes do café de um popular hotel que dá vista para o litoral.

Abu Mahmoud é um homem corpulento de 38 anos nascido em Gaza e detentor de um diploma em matemática. No final dos anos 80, depois de uma breve experiência como dono de um pequeno comércio em Gaza, ele voltou os olhos para um negócio muito mais lucrativo e infinitamente mais perigoso: o contrabando de armas. Rapidamente se estabeleceu como um empresário confiável e logo fez de Abu Khaled, um amigo de infância e vizinho, seu sócio. A parceria sobreviveu à guerra, ao cerco, às fraudes e à emergência de feudos mafiosos das poderosas famílias de Gaza, todos desejosos de um naco da multimilionária indústria dos túneis.

Na década de 90, os túneis de Abu Mahmoud faturavam US$ 1 milhão por mês, com a maior parte do dinheiro usada para pagar subornos e intermediários ao longo do caminho. Mas naquela época, os riscos eram maiores e a indústria dos túneis era mais secreta do que é em 2010. Túneis do lado palestino começaram a ser cavados dentro das casas na cidade fronteiriça de Rafah. Os militares israelenses rotineiramente vasculhavam as propriedades em busca de aberturas no solo, para reprimir o contrabando de armas. Hoje, Mahmoud e Khaled são apenas uma parte pequena das centenas, talvez milhares, de "empreendedores" que, por meio de relacionamentos familiares ou privados, são donos ou operam túneis.

"Muitos proprietários jamais puseram os pés em um túnel. Eles vivem em Gaza e você nunca saberá quem eles são. Eles também nem sequer sabem onde ficam os túneis", me contou Mahmoud. "Dá para tocar tudo por telefone." Os custos para o dono mandar cavar um túnel podem chegar a US$ 300 mil, dependendo do número de trabalhadores e do tempo que levam para completar a tarefa, que em média pode demorar de dois a três meses, sem interrupção. Uma vez que o túnel é construído e começa a funcionar, o trabalho é mantê-lo aberto e operando.

Escavação de túnel é um srviço árduo e perigoso. A organização palestina de direitos humanos Al-Mezan estima que 123 pessoas, incluindo 3 menores, foram mortas durante o trabalho nos túneis desde janeiro de 2007. Mais de 250 ficaram feridas. O governo do Hamas tem tentado responsabilizar os donos dos túneis e fazê-los pagar indenização de até US$ 10 mil às famílias das vítimas. Grande parte das pessoas que trabalham nos túneis o faz para sobreviver. Com o desemprego em alta e cerca de 80% da população dependendo de doação de alimentos, muito homens, alguns com diploma universitário, são forçados a trabalhar nos túneis por não mais que US$ 25 por dia.

Abu Mohammed conhece de perto essa triste situação. Ele perdeu o filho e o irmão quando o túnel que escavavam ruiu. Desde então proibiu seus outros filhos de trabalhar em túneis, decisão que gerou perda financeira para a família.

O negócio dos túneis em Gaza ocorre num limbo moral de uma atividade condenada em público e endossada no âmbito privado. As pessoas sabem dos riscos e do estigma social associados ao trabalho nos túneis, mas todos reconhecem a importância da sua existência para assegurar condições básicas de vida para os cidadãos comuns de Gaza. Sem os túneis, a entrada de comida é extremamente controlada pela burocracia dos dois lados, incluindo listas de mercadorias que devem ser aprovadas antecipadamente pelos israelenses. E isso, claro, leva tempo.

A parcela do governo controlada pelo Hamas pode não encorajar o uso dos túneis publicamente, mas ele é amplamente aceito e em um momento foi até facilitado pela municipalidade de Rafah. Antes da guerra entre Israel e Gaza em dezembro de 2008, a prefeitura de Rafah providenciou linhas de luz elétrica para alguns túneis. Em troca "nós recebíamos 10 mil shekels israelenses (quase US$ 3 mil) dos donos dos túneis", diz Issa al-Nasshar, prefeito de Rafah. Para muitos, essa atitude simbolizava a cumplicidade do governo com o negócio de túneis. Hoje, poderosos indivíduos e famílias donos de túneis são considerados a nova classe endinheirada de Gaza.

 

                                                                                                                             Foto: Hatem Omar Palestino desce pela boca de um dos mais de 900 túneis existentes na fronteira Gaza-Egito; alguns deles atingem 20 m de profundidade e até 1 km de extensão

"Homens que há apenas há alguns anos não tinham dinheiro nem para comer foram capazes de convencer outras pessoas a fazerem pequenos investimentos de US$ 10 mil, US$ 20 mil aqui e ali para comprar um túnel", diz Abu Khaled, de 41 anos, pai de sete filhos.

Os túneis em Gaza operam em um sistema de muitas camadas, onde os donos investem a quantia inicial, ficando costumeiramente longe dos riscos físicos próprios do ramo. Intermediários que prometem lucros apetitosos costumam abordar indivíduos com dinheiro para convencê-los a investir no setor. Uma vez que empresários ricos ou um grupo de investidores concordam em bancar a empreitada, os intermediários arredam um pedaço de terra (que em geral pertence a um parente cuja residência um dia se localizou na fronteira antes que fosse demolida pelo Exército israelense). Os intermediários serão os responsáveis por contratar os trabalhadores, às vezes jovens de até 14 anos, para iniciar as escavações. Ao mesmo tempo, vão assegurar um parceiro confiável do outro lado da fronteira com o Egito, conhecido em árabe como ameen, ou fiador.

O ameen se responsabiliza por achar um local seguro para a saída do túnel, alugando a casa de alguém ou subornando policiais de fronteira. Oficiais egípcios podem ganhar entre US$ 60 mil e US$ 100 mil dólares por ano em subornos. Os ameen, então, passam a recolher as listas de produtos encomendados pelos intermediários palestinos.

A atual indústria do túnel começou em 2005, quando Israel, após ocupar militarmente por quase 40 anos a Faixa de Gaza, decidiu retirar seus soldados e desmantelar os assentamentos judeus. Isso, segundo Mahmoud e Khaled, desencadeou uma série de eventos cataclísmicos que levou à situação de hoje e à dependência de 1,5 milhão de palestinos dos túneis.

Em setembro de 2007, quase um ano depois de combatentes palestinos na fronteira capturarem um soldado israelense, o gabinete de Israel declarou Gaza "território hostil". Pela declaração, Israel imporia como sanções a Gaza "a restrição à entrada de vários bens à Faixa de Gaza e a redução do suprimento de combustível e eletricidade".

À declaração seguiu-se a um ano de crescentes sanções israelenses a Gaza, após a eleição parlamentar que levou ao poder o movimento islâmico Hamas - classificado pelos Estados Unidos e Israel de organização terrorista.

Organizações de direitos humanos israelenses disseram que essa política era explicitamente desenhada para impedir o funcionamento da economia de Gaza. O cerco não só destruiu a economia palestina, mas vem sendo descrito como "punição coletiva" que tirou dos habitantes de Gaza a dignidade.

As restrições de passagem na fronteira de Gaza significa que muitos bens de primeira necessidade não mais podem entrar pela superfície. Assim, para sobreviver, os palestinos usam as vias subterrâneas. Não existe uma lista oficial do que Israel permite entrar em Gaza pelas passagens fronteiriças. Mas, segundo o governo, somente "suprimentos humanitários" são permitidos. Isso quer dizer que só podem entrar alimentos básicos e produtos de higiene.

Numa visita a um supermercado na estrada litorânea de Gaza, o proprietário, Abu Sha"aban, me disse com orgulho que 80% dos produtos nas prateleiras entraram em Gaza por túneis. De chocolate a bebidas e produtos domésticos básicos, tudo viera por debaixo da terra. Abu Tarek, um homem baixo e compacto no início dos 50, foi direto: "Sem os túneis estaríamos vivendo no inferno. Tudo que compro para meus seis filhos, de material escolar a roupas e brinquedos, de calçados a batata frita, vem pelos túneis."

Por algumas estimativas, os túneis, anfaaq, em árabe, respondem por no mínimo 75% dos bens de consumo diário em Gaza. É um comércio que movimenta milhões de dólares por mês. Combustível, material de construção, roupas, comida, até drogas, tudo entra em Gaza pelos túneis.

Ihab Ghessein, porta-voz do deposto Ministério do Interior, diz: "É direito dos palestinos fazer o que puderem para quebrar o cerco sob o qual vivem, obter o que precisam, mesmo através de túneis. Mas ao mesmo tempo estamos de olho em tudo que entra."

E isso é que preocupa funcionários israelenses e americanos. Eles alegam que os túneis são também a via de contrabando de armas com as quais facções palestinos atacam Israel. Jatos israelenses bombardeiam regularmente os túneis, na tentativa de interromper o movimento que rotulam de "atividade terrorista".

Nos últimos meses, o Egito vem se vendo sob crescente pressão de funcionários americanos e israelenses que querem a fronteira sul de Gaza completamente fechada - o que significa o fim da vista grossa para o comércio pelos túneis no qual lucram funcionários egípcios da alfândega e mercadores que proveem os inflacionados suprimentos tão necessários no território palestino.

Há poucas semanas, quando engenheiros egípcios e equipamento de construção apareceram ao longo da fronteira com Gaza, surgiram rumores entre os operadores dos túneis e em Gaza de que o Egito planejava construir um tipo de estrutura metálica subterrânea, com desenho americano, que destruiria a rede de túneis. Isso provocou histeria nos moradores de Gaza, que começaram instantaneamente a comprar tudo que podiam nos supermercados. Combustível egípcio, bombeado através de mangueiras e dutos através dos túneis, desapareceu das bombas da noite para o dia.

O governo egípcio, sob o olhar atento de toda a região, tem muito a perder com seus esforços para interromper a indústria dos túneis. Seu prestígio entre árabes e muçulmanos vem diminuindo em função do que muitos veem como crescente cumplicidade no cerco israelense a Gaza. Essa raiva pode levar o ressentimento para dentro do território egípcio, onde a população tem empatia moral e emocional com os vizinhos de Gaza.

Se o Egito insistir em seu projeto subterrâneo e Israel se mantiver intransigente no cerco a Gaza, o povo aqui se sentirá isolado e diminuído - e Gaza, sem seus túneis para o mundo externo, se tornaria de fato o inferno na terra que muitos de seus residentes temem.

*Jornalista egípcio, é correspondente da rede de TV Al-Jazira na Faixa de Gaza. Escreveu este artigo para o Aliás

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