Vida interrompida

O que acontece quando postes, árvores, caminhões, postos de gasolina e frentistas estão no seu caminho

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2008 | 01h07

Se for beber, não dirija. Ou melhor: não dirija se for beber. A ordem dos fatores pode alterar o produto - no caso, o risco de você provocar um acidente de trânsito. Há quem afirme que só sendo imperativo negativo para livrar o motorista da condicional. Só dizendo de imediato "Não faça isso", em maiúscula, é que você entenderia o peso da coisa. Porque o álcool é categórico no seu corpo. Se você tiver primórdios orientais, mais ainda. Os asiáticos são mais suscetíveis à bebida; os caucasianos, menos; os negros ficam entre um e outro. Mas o álcool não perdoa nenhuma ascendência. Cedo ou tarde toma conta de todas as suas células praticamente em estado bruto. Cai no estômago e, a partir dali, pode ter efeito ainda mais veloz se você nada comeu. Sem concorrência na digestão, é rapidamente absorvido pelo cérebro, coração, músculos, rins, alvéolos pulmonares. Por isso o bafo intenso e nauseante no etilômetro. Etanol na veia e no pulmão, é o que você tem nesse momento. Só o fígado pode quebrar a espinha do álcool, transformando-o em partículas menores, que serão reabsorvidas ou eliminadas. "Não há outro antídoto contra o álcool senão descanso para o fígado trabalhar", resgata Alberto Sabbag, especialista em medicina de trânsito. Alongamento, café, banho frio, canja, tucupi, nada alivia os sintomas deprimentes - no sentido mesmo da depressão - que você invariavelmente começa a ostentar no volante depois de 30 minutos da ingestão da bebida: tendência a se fixar num ponto único na paisagem; tempo maior para avaliar o que significa um semáforo fechado, por exemplo; reações imprecisas; suposto aumento da autoconfiança; pé fundo no acelerador. As vias urbanas são sua principal rota. Motoristas embriagados predominam mais na cidade do que na estrada. E é capaz de você não ver problema em pegar a direção por estar a um pulo de casa. Provavelmente desconhece que mais da metade dos acidentes urbanos de automóvel acontece a menos de 10 quilômetros da residência do condutor. A velocidade pode duplicar. Postes, árvores, canteiros , postos de gasolina e frentistas estão no seu caminho.Se estiver cansado, também não dirija. Melhor: não dirija se estiver cansado. "A fadiga não pode ser medida pelo exame de sangue, mas já é apontada como principal causa de acidentes nas rodovias brasileiras", afirma Rodolfo Rizzotto, coordenador do site SOS Estradas. Os europeus se preocupam há tempos com ela. E o governo australiano lançou um vídeo, à disposição no YouTube, cuja frase terminal é "Take a Break. Fatigue Kills". Desculpe, contei o fim, mas é o único ponto de obviedade do filme. Mostra o pai de dois garotos que não aceita encostar para o cochilo, apesar do pedido da mulher no banco ao lado. Sorry: outra obviedade. Mulheres são normalmente carona no carro da família, embora mais prudentes como motoristas.Repare como, em certo momento do vídeo, o motorista discretamente abre o vidro para o vento bater no rosto. É sintoma clássico de cansaço. Você também já deve ter colocado o som no último, sentido um peso na ponta no nariz, os olhos obesos e a necessidade de mudar de posição no banco para ficar mais ereto. Na pista, sua atitude tende a ser trôpega, como a do motorista embriagado. Pesquisa com policiais dos EUA e do Canadá revela que 98% deles admitiram ter abordado motoristas cansados pensando que dirigiam alcoolizados. Muitos haviam invadido a pista contrária numa reta. Você até pode despertar com os olhos-de-gato que às vezes separam as faixas. Bastam, porém, 2 segundos de dormência para percorrer dezenas de metros a 100 km/h sem se dar conta disso. Se for bater, que esteja com o cinto de segurança. E que tenha obrigado a todos do carro a acionar os seus antes de dar a partida. Sérgio Franco, chefe do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UFRJ, compara o motorista com o comandante do avião. Só deveria sair quando todos os passageiros estivessem afivelados. Overbooking automobilístico também estaria fora de questão (sete pessoas num carro em que cabem cinco inviabiliza cinto para todos, visão lateral e concentração do motorista). É o cinto que protege das cicatrizes faciais e que evita que a pessoa de trás seja atirada para fora do carro ou que massacre a da frente com o peso alterado pela velocidade. Um adulto de 60 kg, por exemplo, vira um mamute de 1 tonelada quando arremessado à frente numa batida a 50 km/h. Estudo publicado na revista Lancet em 2002 mostra que 80% das mortes dos ocupantes da frente poderiam ser evitadas se os passageiros de trás estivessem envolvidos pelo cinto. Se for sobreviver, que esteja entre aqueles que sofrem apenas danos materiais. Mas em 14% dos casos, e foram 35 mil acidentes de trânsito no Brasil só no ano passado, há lesões. Os órgãos mais comprometidos são o fígado e o baço. A bexiga, se cheia, pode estourar. Fraturas de joelho, fêmur e bacia são cotidianos, assim como problemas na coluna cervical, mais fragilizada no acidente por causa do efeito chicote, de vai-e-volta. A cervical do carioca Fabio Fernandes foi e voltou quando ele sofreu um acidente no Rio, em 1999. Havia três noites que não dormia por causa de um trabalho insano. Eram 3h30 da manhã - os horários de maior pico de acidentes são das 2h às 5h e das 13h às 15h - quando apagou. Seu carro bateu em uma placa, subiu no canteiro e capotou várias vezes. Fabio ficou tetraparético. Movimenta os braços, mas seu tronco não se firma. Mesmo assim pratica esportes de aventura, como salto de pára-quedas e mergulho, e mantém um site pensando na inclusão social do deficiente. Ainda faz trabalho de conscientização ao levar a universidades carcaças de carros. Acha que o jovem só vai entender a importância da prevenção e da educação no trânsito se ficar chocado. Se você for pai ou mãe, que tente sobreviver ao choque da morte de um filho por causa de um acidente. O arquiteto Gabriel Padilla credita sua resistência ao livro que escreveu de forma compulsiva logo depois da morte de Ana Clara, em setembro de 2006. A filha, de 17 anos, morreu instantaneamente na Tragédia da Lagoa, acidente na Rodrigo de Freitas, no Rio, no qual faleceram os cinco jovens ocupantes de um Honda Civic dirigido pelo namorado de Ana Clara, que estava alcoolizado. A garota era a única a usar o cinto, porém sua cervical sofreu o tal efeito chicote quando o carro bateu a 120 km/h em uma árvore. "O livro foi a forma que encontrei para manter Ana Clara perto de mim e, aos poucos, ir me despedindo dela", diz. Relato de um Amor foi lançado no ano passado e Gabriel continua lutando diariamente para se despedir da filha. Tal qual Samuel de Moura, pai de Narel, também de 17 anos, morta no acidente de Mogi nessa semana, Gabriel pede maturidade àquele que assume o controle de um veículo. Passa isso nas respostas aos jovens que leram seu livro e se solidarizam com ele por e-mail. Ele também exige o fim da impunidade. "Na Inglaterra, o cara que for pego dirigindo embriagado é preso, mesmo que não bata o carro", diz. "Aqui quem mata à direção paga sua pena com três cestas básicas, e olhe lá."

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