Prefeitura do Município de Itaguara
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Vilarejo dizimado pela malária que Guimarães Rosa retratou em 'Sagarana' agora luta contra covid-19

Surto de malária em Pará dos Vilelas, distrito de Itaguara, nos anos 1930 inspirou o conto 'Sarapalha', de Guimarães

Fernando Granato*, Especial para o Estado

14 de maio de 2020 | 05h00

Um povoado esquecido na beira de um rio, com casas, capela, três vendinhas, o cemitério, e a rua, sozinha e comprida, cheia de mato. Assim o médico e escritor João Guimarães Rosa (1908-1967) descreveu o cenário de seu conto Sarapalha, de Sagarana, seu primeiro livro, de 1946.

A matéria prima para o conto foi adquirida anos antes, em 1930, quando o recém-formado médico foi exercer a profissão na pequena Itaguara (MG), distante 90 quilômetros da capital Belo Horizonte. Ali ele conheceu a vila de Pará dos Vilelas, que havia sido dizimada por uma epidemia de malária. E nesse lugar ambientou seu conto.

Em tempos de outra epidemia, esta uma pandemia, de covid-19, Pará dos Vilelas, distrito de Itaguara, resiste com poucas mudanças da época em que era frequentada pelo jovem médico Guimarães Rosa. Permanece a capela de Nossa Senhora da Conceição, de 1773 e, ao lado, o pequeno cemitério para onde foram muitas das vítimas da malária. No mais, uma rua e uma praça quase sem gente. Na cidade, conforme o último boletim oficial da Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais, divulgado nesta quarta-feira, 13, havia 4 casos confirmados.

Uma das localidades mais antigas de Minas Gerais, Pará dos Vilelas teve na maleita o principal motivo da sua estagnação. Antigo ponto de parada de tropeiros e boiadeiros, o lugar tem posição geográfica privilegiada e chegou a ser cogitado para abrigar a capital do Estado. Porém, as epidemias de malária tornaram-se constantes e afugentaram os moradores. A explicação para a proliferação da doença está na proximidade com o Rio Pará e áreas alagadiças, que formam o criadouro natural do mosquito Anopheles, transmissor do protozoário que causa a enfermidade.

No conto, Rosa descreve a chegada da doença na pequena localidade: “Ela veio de longe, do São Francisco. Um dia, tomou caminho, entrou na boca aberta do Pará, e pegou a subir. Cada ano avançava um punhado de léguas, mais perto, mais perto, pertinho, fazendo medo no povo, porque era sezão da brava – da ‘tremedeira que não desamontava’ – matando muita gente”.

Na história, o médico/escritor conta a saga de dois primos que lutam contra a doença numa “fazenda denegrida”, distante três quilômetros da vila. Todos os dias, eles se sentam ao sol, para se esquentar do frio causado pela febre. Um frio que “cai entre os ombros, e vai pelas costas, e escorre das costas para o corpo todo, como fios de água fina”, como descreve um dos personagens. E, ali, eles fazem um inventário de suas vidas, entre um acesso e outro de tremedeira. Do povoado, os moradores foram embora, “os primeiros para o cemitério, os outros por aí a fora, por este mundo de Deus”, nas palavras de Rosa.

Em outro trecho da história, aparece a figura do doutor, que teria sido o próprio Guimarães Rosa, a aconselhar os moradores a irem embora daquele lugar: “Não adianta tomar remédio, porque o mosquito torna a picar...Todos têm de se mudar daqui...Mas andem depressa, pelo amor de Deus”.

No conto, misturam-se as vivências pessoais do médico de roça, que ia atender seus pacientes em lombo de burro e, muitas vezes, recebia como pagamento galinhas, porcos e ovos. Isso, quando os clientes não podiam pagar a taxa de 30 mil réis por légua percorrida, que era praxe naquele lugar. Como não havia fartura de remédios, receitava coisas como ruibarbo, erva medicinal usada como purgante. E, para malária, quinino, remédio que provocava grande zunido nos ouvidos dos doentes e, por isso, muitas vezes era rejeitado no meio do tratamento.

Pelo vilarejo, nos dias de hoje, ainda se escutam histórias do tempo da malária, quando os mortos eram carregados das fazendas em carros de bois e trazidos para o pequeno cemitério junto à capela. Era uma época em que só se viam os cachorros pela rua e o lugar entrou num processo de “taperização consumada”, na descrição de Guimarães Rosa. Mas, agora, o que mais assusta os moradores de Pará dos Vilelas e de Itaguara, mais até do que a covid-19, é o surto de uma outra doença: a depressão. A coordenadora do Centro de Referência de Saúde Mental (Cersem) da cidade, Maria Silvia Gomem, confirma que esse é um dos principais problemas de saúde pública que o município enfrenta, daí a abertura desse centro especializado.

Cidade pacata, onde o tempo parece que passa mais devagar do que nos outros lugares, Itaguara tem apenas 23,4% da sua população, de 12 mil habitantes, ocupada. E um PIB per capita de R$ 20,1 mil, enquanto a média nacional é de R$ 34,5 mil, de acordo com o IBGE.

Em Pará dos Vilelas, as atividades econômicas são ainda mais escassas e os médicos que atendem a população rural apontam o alcoolismo e as doenças decorrentes dele, cirrose e pancreatite, como as mais comuns entre a população.

A vila ganha alma nova uma vez por ano, entre os dias 4 e 6 de setembro, na festa de Nossa Senhora do Rosário. Os moradores se fantasiam, cantam e dançam. No mais, a vida segue sempre igual. O Rio Pará continua a correr, barrento. E a vegetação, monótona, até encanta o viajante que passa e não fica. “Ao redor, bons pastos, boa gente, terra boa para o arroz”, escreveu Guimarães Rosa. “Que lugar bonito p’ra gente deitar no chão e se acabar”.

*FERNANDO GRANATO É AUTOR DE 'O NEGRO DA CHIBATA' E DA SÉRIE 'MEMÓRIAS DO SERTÃO', SOBRE GUIMARÃES ROSA

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