Visca Espanya!

Meu coração fecha com a Espanha. Os laranjas de 2010 não se comparam aos de 1974 e 1978 e me pergunto se não seria uma gafe a Holanda dos africânderes triunfar na África do Sul

Sérgio Augusto

10 de julho de 2010 | 11h47

Começou devagar mas terminou empolgante. E de maneira justa (os quatro melhores na ponta) e de algum modo favorável ao Brasil. Uma final com Espanha e Holanda foi um consolo e tanto para o país que mais temia o tetra da Alemanha.

 

Antecipadamente histórica por sua localização, a primeira Copa da África também entrou para os anais como o Mundial em que a soberba, a disciplina militarizada, a reclusão conventual, o pragmatismo burocrático, o estrelismo, os evangélicos, os brucutus, os supersticiosos e a Nike se estreparam. Show de bola da Divina Providência.

 

Foi "o Mundial dos mosqueteiros", saudou um escriba do El País, ainda eufórico com a sobranceira vitória da Espanha sobre a Alemanha. Nos dois lados do campo, um por todos, todos por um; o conjunto acima das individualidades (é football association, certo?); e dois técnicos low profile no banco (Vicente del Bosque mais parece um reitor universitário e Joachim Löw, como bem disse o Verissimo, um professor de filosofia da Rive Gauche). Os estereótipos também se estreparam nesta Copa.

 

O que parecia imprescindível revelou-se supérfluo. O supervalorizado Ballack não fez falta à Neue Welle alemã, a maior surpresa estilística da Copa. Equipes como a do Chile e Paraguai disfarçaram a falta de solistas com a solidariedade de secundários notáveis. Morreremos sem saber se o Brasil teria chegado ao hexa com Ganso e Neymar no time, e a Argentina ao tri, com Zanetti, Cambiasso e Riquelme alimentando Messi e Tevez. Vale o que foi escrito.

 

Não preciso identificar os soberbos, os autoritários, nem os galáticos e os atletas de Cristo, muito menos os brucutus, mas já que falamos neles, não custa lembrar que a primeira falta da semifinal entre os alemães e a Furia Roja ocorreu quase ao 27º minuto do primeiro tempo. O "jogo bonito", agora praticado por alguns de nossos adversários outrora desdenhados como duros de cintura e robotizados, não é só vistoso, fluido, preciso, mas sobretudo, limpo. Vai ser duro voltar à truculência, aos erros de passe e aos gramados de várzea do Brasileirão.

 

Juntemos aos supersticiosos (aos nossos crentes, ao horoscopista Raymond Domenech) os internautas que escolheram, em nome da Fifa, os craques de cada jogo, os profetas da mídia que previram a Inglaterra, a Argentina e o Brasil na decisão ou uma Copa América nas quartas de final, e aqueles numerólogos que, também pela internet, tentaram demonstrar por x + y e x - y que a Alemanha seria a campeã do torneio. Como? Subtraindo 2010 de 3964. Dá 1954, o ano em que a Alemanha conquistou sua primeira Copa. Somando os dois outros Mundiais dos alemães (1974 e 1990) também obteremos 3964.

 

(Só não gelei ao descobrir que o Uruguai repetiria o feito de 1950 em 2014 porque, logo em seguida, ao subtrair 3964 de 2006, não bati na Itália, campeã em 1934 e 1938, mas no vencedor de 1958, que, como sabemos, foi o Brasil. Se a Itália já desmoralizara essa cabala aritmética, quatro anos atrás, coube agora à Espanha enterrá-la de vez. Muchas gracias, Puyol.)

 

Por fim, a Nike. Perdeu feio em suas apostas. Seu selecionado de galáticos tinha um jogador que nem foi à Copa (Ronaldinho), outro que lá chegou contundido e não jogou pedrinha (Drogba) e quatro dos mais patéticos fiascos do torneio: Rooney, Ribéry, Cannavaro e Cristiano Ronaldo. Seu comercial da Copa, dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, o cineasta de Amores Perros, era visualmente impressivo mas sua mensagem, "Write the future" (Escreva o futuro), furada. Enquanto ele rolava nas TVs do mundo inteiro, o futuro do futebol ia sendo escrito pelos wunderkinder teutônicos. O escritor Juan Villoro, conterrâneo de Iñárritu, já previra: "Quem joga maravilhosamente bem nos anúncios corre o risco de ser castigado pelos zelosos deuses das canchas".

 

Rooney e Cristiano Ronaldo foram os jogadores mais superestimados da Copa, e se o português ao menos fez um gol, ainda que esquisito, quase involuntário, nenhum outro mais mascarado e autista pisou os gramados africanos. Craque revelação: Mesut Özil. Gratas confirmações: Xavi, Iniesta, Sneijder, Schweinsteiger, Forlán. Pior técnico? Vale um ex-aequo: Domenech, Dunga e Maradona.

 

Esperando pouco da seleção do Dunga, transferi minha olímpica torcida para Espanha e Holanda antes da abertura do Mundial (De como Virar a Casaca Canarinha, Aliás, 13.6.2010), o que de certo modo me aproxima de Paul, o nostradâmico polvo de Oberhausen, o único profeta confiável deste Mundial. Que hoje vença o melhor. Meu coração fecha com a Espanha. Já não vejo a premiação tardia do injustiçado carrossel holandês que revolucionou o futebol com a mesma simpatia de um mês atrás. Os laranjas de 2010 não se comparam aos de 1974 e 1978. E me pergunto se não seria uma gafe a Holanda dos africânderes triunfar na África do Sul.

 

A consagração simultânea do futebol holandês e espanhol tem um subtexto curioso, que envolve até a seleção argentina. O toque de bola dos espanhóis e a geometria de suas jogadas muito devem às inovações de Rinus Michels, o técnico neerlandês da era Cruyff, que em duas temporadas treinou o Barcelona, por onde, aliás, passaram duas gerações de craques holandeses. Em dezembro, num amistoso no estádio do Barcelona, a seleção da Catalunha sapecou 4 gols na equipe dirigida por Maradona. Em campo, defendendo as cores catalãs, Xavi, Puyol, Piqué, Busquets e Iniesta. Espinha dorsal, penhor e flecha do escrete espanhol, a seleção da Catalunha tem futebol para se sair bem em qualquer torneio internacional e até chegar em primeiro lugar. E é por isso que não resisto à tentação de proclamar Visca Espanya!, em vez de Arriba España!

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