National Portrait Gallery - London
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'Visões', de William Blake, é reeditado

Referência dos poetas beatniks, obra do escritor é aclamada nos EUA

Cláudio Willer, Especial para o Estadão

08 de janeiro de 2022 | 16h00

William Blake tornou-se, merecidamente, um mito literário. Isolado e ignorado, talvez tivesse soçobrado no esquecimento se os pré-rafaelitas Dante Gabriel Rossetti, Alexander Gilchrist – autor da primeira biografia do “pictor ignotus” – e sua mulher Anne não tivessem recolhido as obras “iluminadas”, junções de texto e gravuras que agora ornam museus. O tigre é, ao que consta, o poema mais frequente em antologias de poesia em língua inglesa. William Butler Yeats preparou a primeira edição completa de sua obra, em 1893 e o tomava como paradigma, situando-o acima de fontes especificamente ocultistas nas polêmicas no âmbito da ordem esotérica da qual fazia parte. Outra contribuição decisiva para a recepção de Blake foi Fearful Simmetry de Northrop Frye, mostrando-o como estudioso, conhecedor de mitos e sagas da Escandinávia à Índia, e não apenas um visionário intuitivo.

Em Blake, através da imaginação pode-se atravessar vórtices, viajando por um universo que não corresponde mais ao que captam os cinco sentidos. Deixa de haver diferença entre subjetividade e objetividade; a terra é redonda e também plana e infinita; e o corpo humano contém o universo assim como, reciprocamente, o universo tem forma de corpo humano. Realizou a observação de outro expoente do romantismo, Schlegel: “Apenas aquele que tem uma religião de si mesmo e uma concepção original do infinito pode ser um artista” Em suas obras assim como no sonho, os símbolos flutuam na relação com o que significam. É seu infinito, visto em cada coisa quando as portas da percepção estão abertas.

A expansão do prestígio de Blake deve muito aos beats. Allen Ginsberg teve uma “alucinação auditiva” ao ler The Sick Rose – “A rosa doente”. Há um Blake “pop”, examinado por Eneias Tavares, que coordena um núcleo de estudos blakeanos na Universidade de Santa Maria (RS). Seus temas e estilo de desenhar hoje estão presentes em tiras em filmes, séries de TV, quadrinhos, “games” e outras produções de massa. Um exemplo: o nome do conjunto “pop”, The Doors, escolhido por Jim Morrison é alusão às “portas da percepção” – também título do livro de Aldous Huxley sobre alucinógenos e epígrafe de Uivo de Allen Ginsberg. 

Assimilou, conforme já comentei (em Um obscuro encanto e Geração Beat) o inconformismo dos adeptos do gnosticismo, religião que associa a salvação ao conhecimento. Já citei Hans Jonas: “Não-conformismo era quase um princípio da mente gnóstica, intimamente ligado à doutrina do “espírito” soberano como fonte de conhecimento direto e iluminação”. Sobre a caracterização de Blake como místico, questionada por Frye e outros, cabe recorrer a um especialista, Gershom Scholem: Blake representou o misticismo “sem laços com qualquer autoridade religiosa”, em companhia de Rimbaud e Whitman, também “heréticos luciferianos”,

O prestígio de Blake no Brasil é atestado por uma quantidade de boas edições. Cabe mencionar o trabalho de Alberto Marsicano, que afirmou ter encontrado William Blake, ou o seu espectro, em Londres, e a coletânea por Paulo Vizioli, de 1986. À bibliografia blakeana no Brasil vem juntar-se este Visões – Poesia completa, a cargo de um especialista, José Antonio Arantes, que já havia preparado para a mesma editora O matrimônio do Céu e do Inferno – o Livro de Thel, em 1987. Na verdade, não chegam a ser as poesias completas, porém onze dos “livros iluminados”, escritos ao longo de sete anos. A presente edição, bilingue, prefaciada e anotada, alcança 428 páginas; a edição Keynes do Blake completo tem mil páginas. Não obstante, é o melhor acesso disponível, dentre tantas boas edições, à obra do Bardo. Merece ser considerado um dos destaques editoriais deste período, no qual, felizmente, a leitura e produção de livros não recuaram diante dos retrocessos em políticas educacionais e culturais. Uma pena (conforme admitido pelo próprio Arantes) não ter sido possível adicionar as ilustrações: a unidade do visual e verbal, bandeira de vanguardistas, teve em Blake seu grande realizador. 

Além do extenso prefácio, a profusão de notas, contribui para a decifração da complexa cosmogonia blakeana e o entendimento de suas fontes bíblicas, de outras mitologias e da literatura. Principalmente, a tradução é precisa. Há preservação do ritmo em textos que, ao que consta, eram cantados enquanto iam sendo escritos. Por isso, Visões de Blake é um convite à leitura em voz alta, de modo coerente com as intenções de um poeta que procurou e conseguiu ascender à altura dos profetas.

Visões 

Autor: William Blake 

Editora: Iluminuras 

Tradução: José Antonio Arantes 

428 páginas 

Ano da edição: 2021

R$ 119,00 (livro) R$ 44,91 (e-book) 

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