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Doação de US$ 100 milhões feita por um magnata deve encerrar de vez a história de declínios e recuperações do Central Park

LISA W. FODERARON, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h12

Na manhã de terça-feira, quando o administrador de fundos de hedge John A. Paulson ficou de pé em frente da Fonte Bethesda com suas águas caindo mansamente em cascata, no coração do Central Park, e anunciou um presente de US$ 100 milhões para a Central Park Conservancy (entidade privada que administra o parque), o anúncio foi tão inesperado como uma bola desgarrada saída de uma das quadras esportivas do parque.

Mas o presente, a maior doação em dinheiro na história do Departamento de Parques da Cidade de Nova York, e possivelmente do país, num certo sentido estava previsto havia décadas, remontando aos dias em que Paulson, hoje com 56 anos, ainda adolescente, brincava na fonte, embaixo da estátua de bronze do Anjo das Águas, na época coberta de grafites e totalmente seca. A ideia da doação, porém, tomou forma mais recentemente, nas caminhadas com o presidente da Conservancy, Doug Blonsky, pelo bosque de North Woods, no parque.

O aporte chega no momento em que o Central Park está no apogeu, depois de décadas de melhorias e restaurações de suas elaboradas pontes de pedra e prédios históricos, grandes gramados, laguinhos e riachos, realizadas pela entidade que o administra em nome da cidade desde que foi criada, em 1980.

O parque nunca esteve tão bem desde que os arquitetos paisagistas Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux o projetaram, no século 19, em um retângulo de 341 hectares no centro de Manhattan. Mas os dirigentes da Conservancy observam que o sucesso futuro do parque nunca esteve garantido, citando os períodos de declínio, particularmente a pior fase de decadência, nos anos 1970. O presente de US$ 100 milhões deve mudar isso. "Os ciclos de declínio e restaurações serão rompidos para sempre", disse Blonsky.

A doação também deve dar uma melhora na imagem de Paulson, que nos últimos anos ficou um tanto manchada. Dono de uma fortuna estimada em US$ 11 bilhões, ele lançou seu fundo de hedge, o Paulson & Company, em meados dos anos 1990. Ficou famoso e fez sua fortuna em 2007 quando resolveu não apostar nas hipotecas de alto risco antes de o mercado imobiliário ruir. Recentemente, perdeu um pouco do brilho, tendo sofrido enormes prejuízos, o que levou os investidores a retirar parte do dinheiro dos seus fundos.

Os sucessos financeiros de Paulson também foram mostrados sob uma luz pouco lisonjeira há dois anos, quando a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, em inglês) abriu um processo contra o Goldman Sachs que envolveu um fundo de investimento em hipotecas de cuja criação Paulson participou. Na ação, a SEC acusou o Goldman de não ter avisado os investidores que estavam adquirindo títulos de crédito duvidosos. Paulson não foi citado no processo.

Ele também entrou numa onda de compra de imóveis. Nesse verão pagou US$ 49 milhões pelo Hala Ranch, 50,5 hectares, e propriedades contíguas em Aspen, Colorado. Sua residência principal é uma casa de mais de 1.800 metros quadrados localizada a alguns passos do Central Park, na Quinta Avenida com a Rua 86. No ano passado, manifestantes do Occuppy Wall Street protestaram diante da casa e das de outros magnatas das finanças.

Mas foram a infância e a vida familiar de Paulson, particularmente seu entrelaçamento com o Central Park, que ficaram à mostra na terça-feira, quando as autoridades municipais anunciaram o presente. Ele, que nasceu e cresceu em Queens, descreveu a longa ligação da sua família com o Central Park. Seus avós tiveram o primeiro encontro ali, nos anos 1920. Sua mãe era levada ao parque num carrinho de bebê e mais tarde ela o trazia no seu próprio carrinho. Lembrou dos desordenados anos 1970 e 80, quando o parque estava em "grave estado de deterioração, sua infraestrutura estava aos pedaços, a paisagem arruinada e o local era um antro de drogas e crime". Nada no Central Park trará o nome de Paulson, o que é raro no caso de uma doação desse porte.

Nas últimas décadas ele acompanhou a transformação do parque, que recebeu US$ 700 milhões durante 33 anos, permitindo a realização de restaurações radicais. A maior parte desse dinheiro foi arrecadada junto a moradores, empresas e fundações. Adrian Benepe, membro do Trust for Public Land que recentemente se demitiu do posto de diretor de parques da cidade, disse que essa doação de Paulson ajudará a evitar que o parque morra: "São 40 milhões de visitantes por ano, o que vem afetando a paisagem. O parque sozinho não tem como fazer frente a isso".

Não foi o primeiro ato de filantropia de Paulson. Em 2009 ele doou US$ 20 milhões à New York University Stern School of Business e US$ 5 milhões ao Southampton Hospital em Long Island, cujo pronto-socorro leva seu nome e o de sua mulher, Jenny. E este ano foi um generoso doador político: ofereceu US$ 1,4 milhão a candidatos republicanos, organizações do partido e comitês. Também realizou um evento em sua casa para arrecadar fundos para Mitt Romney.

Ao deixar o parque, Paulson não quis falar sobre negócios e filantropia. Falou só sobre o Central Park: "Gosto dele em todas as estações", afirmou, enquanto as folhas caíam pelo chão. "É muito tranquilo quando neva. Mas você precisa usar os sapatos adequados." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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