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Vizinhos de Trump: a polêmica candidatura ecoa nos arredores do hotel de luxo do bilionário no Rio

A candidatura de Donald Trump à Casa Branca começa a ecoar entre os vizinhos do novo hotel de luxo do bilionário, na Barra da Tijuca

Guilherme Mendes, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2016 | 16h00

Em um dos quarteirões mais requintados do Rio de Janeiro – a poucos quilômetros da vila olímpica, com o asfalto da avenida Lúcio Costa separando a calçada das branquíssimas areias da praia da Barra da Tijuca e dos seus carismáticos vendedores de mate e biscoitos Globo – pois bem, ali nasceu um hotel. É feio, triangular e branco, mas é um hotel. Depois de dois anos de obras (e, dizem alguns, mais de oito meses de atraso), aquele edifício de 13 andares, 171 quartos, piscina com fundo de vidro e detalhes em mármore turco começou a funcionar. Quem vem pela beira-mar inclusive pode ver o nome no topo do prédio, “Trump”, em letras vermelhas.

As letras, elegantes até, pouco se assemelham ao espírito de Donald J. Trump, o magnata colocador-de-nomes-em-coisas que, além de ser o CEO da rede hoteleira, se tornou o candidato mais polêmico da história eleitoral americana. Dono de um discurso ultranacionalista, Trump acusa os rivais (e, às vezes, o próprio Partido Republicano que o acolheu) de não evitar que empregos e renda do americano médio acabem indo outros países, quando ele próprio é dono de hotéis e prédios comerciais em sete países – o projeto brasileiro, o primeiro na América do Sul, vai começar a receber reservas a partir dessa semana, com diárias partindo de R$710.

No bairro, um dos mais ricos da cidade, o empreendimento não causa muitos comentários, mas o nome famoso parece causar muitas reações. Logo à direita da entrada do hotel, Natasha Bragança comanda uma franquia de hambúrgueres vegetarianos há nove meses – ela escolheu ali em parte pela localização, em parte pelo hotel que demorou para aparecer. E Apesar de lembrar que “a rede de hotéis dele (Trump) tem uma boa fama”, a empresária não confia em nada na política do candidato. Entre todos os entrevistados, ela é a única que disse temer ir aos EUA em caso da eleição do republicano.

Desde o início das obras, o Lúcio Lenz viu os lucros da Vice-Rey, a cervejaria que ele comanda logo ao lado do hotel, caírem pela metade. Sentado numa das mesas do bar vazio, os olhos azuis claros atrás dos óculos, os 80 anos expressos na face cansada, seu Lúcio em parte culpa a crise econômica que está levando o país “ladeira abaixo” - mas são as intermináveis obras do hotel que não o deixam em paz. A casa térrea onde seu Lúcio instalou seu negócio não pode competir na força contra um prédio, e por isso saiu perdendo feio: parte do jardim na varanda da cervejaria cedeu com o terreno, rachaduras hoje são visíveis na estrutura e, no meio de uma noite, uma janela estourou. Isso foi há mais de ano e, apesar de manterem algum contato, os construtores do hotel nunca vieram consertar os estragos.

O presidente da associação de moradores do Jardim Oceânico, um senhor simpático de 84 anos de nome Luiz Igrejas, vê o projeto com bons olhos a médio e longo prazo. “O compromisso da obra é de revitalizar a área da frente, um pedido antigo já”, comenta. O clima não azeda nem quando pergunto sobre o topetudo candidato americano: “Embora eu veja pela TV, ele é uma pessoa audaciosa, empreendedora e carismática. Por isso tudo, ele é polêmico”, propõe – mas logo se posiciona. “Mas pessoalmente eu sou a favor da Hillary Clinton”.

Ouvindo a conversa, a Célia Reis, outra diretora da associação, interpela: “Ele vai fazer mal aos EUA. Ele quer construir muros”, brada a senhora de 75 anos. “São ideias que vão deixar países intranquilos, pessoas intranquilas”.

E enquanto conversamos no terraço da cervejaria, o seu Lúcio relativiza sobre o seu novo vizinho: “O que vem de notícia, não é suficiente pra gente formar opinião. Tudo o que eu sei é que ele é um bilionário”. E então a voz de seu Lúcio fica quase inaudível devido ao barulho de marretas e serras que operam à toda velocidade em andaimes e paredes do hotel. A casa, pintada de um tom rosa, está bem pálida. Os coqueirinhos na entrada, assim como tantas plantas decorativas, estão com uma camada grossa de fuligem, mais cimento da obra que a areia da praia.

O sócio Além do nome Trump, os vizinhos pouco sabem sobre quem construiu o prédio. A principal construtora envolvida, a Polaris, mantinha um escritório a cinco quilômetros da obra, mas saiu de lá e hoje só resta o nome acima das portas. O dono da imobiliária que hoje ocupa o imóvel, inclusive, lembrou que existe uma pilha de cartas acumuladas endereçadas à construtora, jamais recolhidas.

O CEO da Polaris está na Flórida. Se trata de Paulo Figueiredo Filho, economista e neto do general João Baptista Figueiredo (1918-1999), último presidente da ditadura militar. Em muitas das páginas mantidas dele na Internet, é possível encontrar lembranças à genealogia e homenagens ao avô-presidente. Ele, que não respondeu aos pedidos de entrevistas pedidas pelo Estadão (assim como seu advogado), mantém uma admiração irrestrita por Trump – sua página no Facebook inclusive contém fotos suas na companhia do candidato.

Outro exemplo deste egocentrismo do candidato à presidência dos EUA deveria estar no centro do Rio: prometido como “o maior centro comercial dos BRICs”, as Trump Towers seriam cinco torres de 38 andares, um projeto de R$13 bilhões com a promessa de fazer parte da revitalização da região do porto. Prometido para a Olimpíada, jamais saiu do papel: o site do projeto, bem bacanudo, não é atualizado há pelo menos dois anos – e a área onde os edifícios de 150 metros de altura deveriam estar ainda está coalhado de velhos barracões de escolas de samba. Das empresas listadas no site das Trump Towers, a Engineering disse não fazer mais parte do projeto; a Even não comenta projetos em andamento; e a Cushman&Wakefield diz que só faria parte dele depois de concluído. A prefeitura do Rio não quis comentar, por se tratar de projeto de natureza privada e a Trump Inc. não retornou os contatos.

Quanto a Donald Trump, ele admitiu em uma entrevista recente que, em caso de derrota para candidata democrata Hillary Clinton nas eleições de novembro, poderá tirar “umas férias longas e muito legais”. Quem sabe, poderemos vê-lo em breve, num hotel de luxo, numa cidade à beira-mar onde ele poderá tranquilamente se esticar e fazer algo que goste: ver o próprio nome, em letras vermelhas, estampado no teto.

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