Você apoia a compra de best sellers pela rede pública de ensino?

Estratégia para fisgar novos leitores

O Estado de S.Paulo

14 de março de 2009 | 22h14

Com o objetivo de melhorar as consecutivas notas baixas em português dos estudantes da rede pública, a Secretaria do Estado da Educação vai investir aproximadamente de R$ 19 milhões na compra de livros best sellers juvenis. Mais de 4 mil escolas de 5.ª a 8.ª séries do ensino fundamental e de ensino médio receberão o material. Ao todo, o governo vai comprar 2 milhões de exemplares. Entre os divulgados. estão títulos da série Harry Potter, Crepúsculo e A Menina que Roubava Livros.

Resultado da enquete:

Sim> 72%

Não> 28%

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O QUE PENSAM OS ESPECIALISTAS

?Não é papel da escola estimular o consumo desse tipo de livro?

WELINGTON ANDRADE

DOUTOR EM LIT. BRAS PELA USP E PROF. DA FAC. CÁSPER LÍBERO

A priori, não tenho nada contra os best sellers, textos confortáveis, que, além de agradar aos leitores, podem também, dizem alguns, convidá-los a querer, um dia, fruir leituras mais sofisticadas. Entretanto, não é papel da escola estimular o consumo desse tipo de livro. As escolas brasileiras já fracassam há um bom tempo no ensino da língua portuguesa, trocando o escrito pelo falado, o culto pelo inculto, o formal pelo informal. Por que, então, a pretexto de atrair o público jovem para o combalido mundo da leitura, elas resolvem adquirir obras que jamais ultrapassarão o terreno das saciedades especulares e espetaculares - típicas da comunicação de massa? O desafio da formação escolar é transmitir aos alunos conhecimentos humanísticos que os levem ao contato com obras complexas por meio das quais eles possam interagir com a tradição cultural e a memória social, sem as quais, a rigor, não se consolida um país. Somente assim o papel da escola fará sentido: levar jovens cidadãos ao exercício de outras possibilidades de leitura que escapem ao discurso ideológico do indivíduo médio.

''Campeões de venda também podem ter qualidade estética''

MARIA TEREZA AMODEO

PROFESSORA DA FACULDADE DE LETRAS DA PUC-RS

A aquisição de best sellers é vista com reserva, talvez pela associação que se faz do termo com a produção serial, de pouca qualidade estética, que visa ao lucro. Contudo, as facilidades de circulação de mercado que o mundo contemporâneo oferece também atingem a literatura. Ela também incorpora elementos dessa contemporaneidade tão controversa, relacionando-se com outros produtos culturais, formas de arte, conhecimento, etc. Nesse contexto, muitas obras de qualidade estética também podem ser best sellers. Nem todos os livros vendidos são ruins. Esse hibridismo, por vezes desconcertante, que inaugura relações sociais e culturais inusitadas, pode, sim, surpreender e provocar rejeições. O fato de um Harry Porter vir encantando os pequenos não exclui a qualidade literária do texto. Partir dos interesses dos alunos é um ótimo começo para formar leitores. Ampliar o universo de leituras é tarefa da escola. No entanto, a oferta de materiais precisa estar associada ao investimento na formação continuada de professores.

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