Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO
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"Vocês estão precisando de gente?"

Com o desemprego em alta, épreciso aprender a olhar o drama que os números escondem – e não tentar calcular o incalculável

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2016 | 06h00

 

José de Souza Martins

A referência à preocupante cifra de 11 milhões de desempregados no Brasil não explica o que é próprio da situação social de desemprego e do drama que é na vida de quem o padece. Ele incide mais sobre os jovens. Na região do ABC paulista, em 2015, 39,4% dos desempregados estavam na faixa de 16 a 24 anos de idade e 33,7% na de 25 a 39 anos de idade. Nas famílias de trabalhadores, 25% dos desempregados eram os chefes da casa e 50% os filhos.

O desemprego torna os jovens mais dependentes da família num momento da vida em que mais carecem de independência. Incide mais no setor de Serviços, aquele que tem sido o de confirmação da ascensão social da classe trabalhadora. Ascensão que está sendo anulada pelo desemprego. Além disso, os limites mínimos e máximos de ganhos dos ocupados e assalariados tem sofrido sensível redução, de ano para ano, fazendo cair os ganhos tanto dos que ganham menos quanto dos que ganham mais. Um desdobramento do crescente desemprego: mais gente procurando trabalho e menos trabalho procurando gente.

Desemprego é socialmente mais complicado do que um número, um índice que sobe e desce. Seus dados mais ocultam do que revelam. Transformam o drama social em mero indício de crise econômica. Economizam palavras e verdades, tornam calculável o que calculável não é: a privação de condições de vida para ter tranquilidade, para ser feliz, para ir à balada; namorar, passear, ler um livro, encontrar amigos, viver a paz da família. O desemprego priva suas vítimas até do que não tem preço nem pode ser comprado, do que não depende do salário que se paga a quem trabalha. É nesse sentido que o desemprego é cruel e muito maior do que um índice negativo de problemas econômicos, o mero dado estatístico.

Quem nunca ficou desempregado não sabe o que é o desemprego. Quem nunca peregrinou pelas portas das fábricas para espiar a tabuleta de “Precisa-se” da portaria, “para ver se estão precisando de gente”, que é a comum expressão proletária dos que buscam e não acham trabalho, não tem condições de avaliar o que é “ficar desempregado”. Quem nunca passou horas lendo as letras miúdas de anúncios de emprego em jornal, como em famosa fotografia de German Lorca, fotógrafo brasileiro, procurando o que não está lá, não sabe o que é procurar trabalho em vão.

Há poucos dias, saindo de uma consulta no Hospital Universitário, vi duas mocinhas tímidas, relutantes, encostadas à cerca do jardim da frente, sem saber o que fazer. Fui até elas e lhes perguntei se estavam procurando emprego. Balançaram a cabeça afirmativamente, olhando para o chão. Explicaram-me que moram no bairro do Jaraguá. Souberam que uma empresa terceirizada contratada para os serviços de limpeza do Hospital estava recrutando empregados. Não sabiam com quem falar. Sugerir-lhes que falassem com o porteiro de uma porta ao lado, funcionário da terceirizada. Ele lhes indicaria o caminho. Vinham de longe. Sair de casa com o dinheiro contado, muitas vezes ficar sem comer o dia inteiro, para a peregrinação infrutífera, as humilhações descabidas, o desalento que abate, a depressão que não é rara. Essa busca é um calvário. Lembro nessas horas de um poema do poeta alagoano Judas Isgorogota, radicado em São Paulo, na época das grandes migrações de nordestinos, dos anos 1950, que vinham para o Sudeste de pau de arara, arrastando a família, em busca de emprego, expulsos da terra pela seca: “Vocês não queiram mal aos que vêm de longe, aos que vêm sem rumo certo, como eu vim; as tempestades é que nos atiram para as praias sem fim...”

Quem quiser entender o que é esse naufrágio, o que é o desemprego, deve vasculhar as estatísticas para descobrir os rostos que se escondem envergonhados por trás delas. E, não raro, as lágrimas.

Somos uma sociedade em que a modernidade se constituiu à custa do suor de migrantes e de imigrantes mal pagos, adultos e crianças, homens e mulheres, que valorizavam e valorizam o trabalho como fundamento da decência e da vida, em que não ter trabalho envergonha e demorar a encontrá-lo envergonha mais ainda. Desemprego estigmatiza, aniquila a esperança com o passar das horas e o passar dos dias sem fim da busca e das portas fechadas. Não é o trabalhador que inventa a crise, que fecha fábricas e lojas. Satanás tece em silêncio até em recintos remotos, com as agulhas de ouro da especulação e da irresponsabilidade, às escondidas, a trama que enreda as vítimas da falta de trabalho. Os que tem poder e não compreendem que o mando político é missão social e não privilégio, é dever para com todos e não só com alguns, é mandato e não mando, os que administram mal a economia e alimentam ou agravam as crises econômicas, que distribuem dividendos negativos e embolsam os positivos.

É justo que se queira emprego e também justiça porque é moralmente delito destruir a possibilidade do trabalho dos que só tem como alternativa a faina em terra alheia, em tear alheio, em máquina alheia, em casa alheia, para ter à mesa o pão nosso de cada dia.

José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto).

 

 

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