Volta, Kim!

Volta, Kim!

Por que o mundo deveria estar torcendo para que o ditador da Coreia do Norte retorne logo de sua misteriosa ausência

Isaac Stone Fish, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2014 | 16h00

Faz mais de um mês que Kim Jong-un foi visto pela última vez em público. Sua ausência está sendo positiva para a Coreia do Norte e para a ameaça que ela representa para o mundo? Ou deveríamos esperar que ele retornasse?

A maioria dos especialistas na região acredita que em breve ele porá fim a sua ausência - ou pelo menos dará algum sinal de que continua no poder. Falou-se que seu regresso poderia ocorrer no dia 10, aniversário da Fundação do Partido dos Trabalhadores do país. Em contrapartida, muitos veículos noticiosos ocidentais - ou pelo menos suas manchetes - especulavam que Kim estaria sofrendo de uma grave doença, ou teria sido afastado por um golpe. Manchetes como a da primeira página do Guardian - “Kim Jong-un: a dinastia norte-coreana terá entrado em colapso?” proliferam.

Deixando de lado por enquanto a impossível resposta sobre o paradeiro de Kim - a mídia oficial de Pyongyang diz que ele está doente, embora também possa estar em prisão domiciliar ou morto, ou ainda em férias, ou simplesmente cansado de aparecer em público -, a Coreia do Norte evidentemente é muito mais estável com Kim na direção. (Ressalve-se que, quando se escreve sobre a Coreia do Norte, não se deve esquecer da eterna advertência: o país é mais nebuloso do que se pode imaginar; portanto, grande parte do que estou escrevendo é especulação.)

O mais perigoso a respeito da Coreia do Norte é que se trata de um país totalmente imprevisível. Por sabermos tão pouco sobre o que Pyongyang pretende, ou sobre o motivo pelo qual faz o que faz, dificilmente estamos preparados para contingências. A Coreia do Norte deu recentemente alguns passos para aperfeiçoar sua capacidade de disparar mísseis contra os Estados Unidos: modernizou o principal local de lançamento de foguetes, aumentou a produção de material físsil e testou os motores de um míssil que poderia atingir o território americano. Os planejadores militares e os responsáveis pela tomada de decisões no governo dos EUA e de outros países precisam aperfeiçoar-se para tentar prever a possibilidade de Kim lançar um ataque contra o seu país.

Nos misteriosos corredores do poder de Pyongyang, Kim, que assumiu o cargo em dezembro de 2011 depois da morte do pai, Kim Jong-il, é uma entidade relativamente conhecida.

O mundo exterior sabe mais sobre Kim - sua formação, sua saúde, suas atividades - do que qualquer norte-coreano na Coreia do Norte. E embora não se saiba de nenhuma autoridade americana que tenha estado cara a cara com Kim, muitos chineses de alto escalão já estiveram. Parte dessa experiência supostamente é filtrada para Washington nas reuniões de alto nível com Pequim. Presumivelmente, o material sigiloso vazado enriquece o conhecimento ocidental sobre o funcionamento interno de Pyongyang e da mente de Kim.

Por outro lado, consideremos o septuagenário vice-marechal Hwang Pyong-so, promovido recentemente, que alguns dizem ser o segundo homem mais poderoso da Coreia do Norte, cujo nome é frequentemente mencionado nas conversas sobre possíveis golpes no país. A descrição mais detalhada e confiável de Hwang que pude encontrar em inglês é a de Michael Madden, que escreve o blog North Korea Leadership Watch: “Afirma-se que Hwang teria estreitos vínculos com a mãe de Kim Jong-un, Ko Yong-hui. Ele é casado e tem filhos adultos que trabalham no partido central e no comércio exterior. Hwang é um homem afável, de maneiras suaves, determinado e objetivo”. E isso é tudo.

De fato, é muito difícil imaginar até que ponto a personalidade de Kim tenderia para o reformador secreto, o pragmático, o intransigente, ou o louco. Mas Hwang, e qualquer outro que possa ser o braço direito do líder, são entidades ainda menos conhecidas - o que torna muito mais difícil tentar adivinhar. Como o mundo provavelmente teria mais dificuldade para prever ou compreender o processo decisório se alguém como Hwang governasse a Coreia do Norte, essa nova incerteza tornaria o país ainda mais perigoso.

Além disso, se Kim morreu, se está às portas da morte ou se foi deposto, seu sucessor seria dotado de muito menos legitimidade. Kim Il-sung, que governou de 1948 até morrer, em 1994, é uma figura amada unanimemente na Coreia do Norte. O culto a sua personalidade marca a existência do país. Parte de sua popularidade passou para o filho Kim Jong-il, que por sua vez legitimou o filho Kim Jong-un. Segundo a mitologia do clã Kim, a família existe para proteger a existência da Coreia do Norte num mundo turbulento e perigoso. Se Kim Jong-un foi ou será deposto - e deixará de funcionar como figura de referência -, os novos líderes terão de estabelecer sua credibilidade aos olhos dos norte-coreanos, que, em grande maioria, passaram a vida governados por um membro da dinastia Kim.

É provável que novos líderes da Coreia do Norte viessem a recorrer à repressão internamente e a ameaças externamente, pelo menos de início, enquanto consolidassem o poder. Poderia haver expurgos em massa, mais lançamentos de mísseis e mais testes nucleares.

Mesmo que um membro da família Kim assuma o controle - o Global Post especula que a irmãzinha de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, poderá governar o país na ausência dele - não teria a legitimidade de Kim Jong-un, que foi amparado por uma campanha de propaganda ao longo de vários anos em toda a Coreia do Norte.

Se Kim caiu, devemos entender que a Coreia do Norte vá se precipitar no caos? Já ouvi compararem o país a uma bicicleta da qual o ciclista desmontou. Tornou-se um país cambaleante que um dia tombará. Isso pode ocorrer em poucos meses - ou levar décadas. 

No longo prazo, a queda de Kim poderia ser algo positivo. É possível que levasse à reunificação com a Coreia do Sul, proporcionando aos norte-coreanos um bom governo, um padrão de vida melhor, acesso ao mundo exterior e direitos humanos fundamentais. Mas, no curto prazo, poderia levar à guerra civil, a outra epidemia de fome e possivelmente à venda de armas nucleares norte-coreanas a grupos ou mesmo países terroristas.

Outra metáfora conhecida para a Coreia do Norte: um assaltante se aproxima de um pedestre (digamos na China ou nos Estados Unidos), aponta uma arma para a própria cabeça e grita: “Devolva meu dinheiro ou atiro”. O pedestre não quer ser responsabilizado pela morte do ladrão, nem quer que os miolos do marginal espirrem em sua roupa. Grande parte do ônus da implosão da Coreia do Norte recairia sobre os norte-coreanos, mas o colapso do país também poderia desestabilizar o nordeste da China com a fuga de centenas de milhares de refugiados que cruzariam a fronteira norte da Coreia do Norte. Poderia também permitir que elementos mal comportados da Coreia do Norte vendessem material nuclear a inimigos dos Estados Unidos.

Portanto, até que ponto deveríamos nos preocupar? Certos sinais indicam que há algo estranho acontecendo. Três funcionários de alto escalão da Coreia do Norte visitaram repentinamente a Coreia do Sul no dia 4, realizando o contato de mais alto nível entre os dois lados em anos. Nada parece sugerir algo bizarro no site de notícias em inglês da Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA), porta-voz internacional de Pyongyang - além de um artigo publicado no dia 6: “O primeiro-ministro da República Popular Democrática da Coreia inteirou-se da situação da agricultura na província meridional de Hwanghae”. Em geral, é Kim quem aparece nesse tipo de notícia. É, portanto, um sinal curioso quando alguém que não seja ele trate dessas coisas.

Não acho que este seja o fim de Kim. Seu desaparecimento é inusitado, mas, por outro lado, muito pouco parece usual no comportamento da Coreia do Norte. Na última sexta-feira, esperava-se que a imprensa publicasse fotos de Kim acenando para uma enorme multidão, o cabelo penteado para trás, com sua postura confiante, seu peso inalterado.

E, por mais surpreendente que possa parecer, ver novamente seu sorriso, sua marca registrada, seria um alívio. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Isaac Stone Fish escreveu este artigo para a Foreign Policy, da qual é editor de Ásia PPP 

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