South African Tourism/Divulgação
South African Tourism/Divulgação

Vozes d'África

Por conta da próxima Copa o continente ganha nova evidência, mas há muito lançou seu grito de força

Sérgio Augusto*,

26 de dezembro de 2009 | 16h30

Bafana, vuvuzela, Drogba, Zuma... Prepare seus ouvidos, você ouvirá esses nomes muitas vezes em 2010. E daqui a seis meses eles lhe soarão quase tão familiares quanto bantu, zulu, Transvaal, bôeres, watusi, tuaregue, simba, Makeba, Milla, Eto’o e outros africanismos com os quais nos familiarizamos no passado.

 

Sobretudo por conta da próxima Copa do Mundo de futebol, a África tornou-se o continente mais em evidência dos últimos meses, com destaque, evidentemente, para a África do Sul, anfitriã do torneio pela primeira vez disputado num país do continente. A bola começa a rolar em 11 de junho, em Johannesburgo. Durante um mês, os olhos do mundo inteiro estarão concentrados na terra de Nelson Mandela e Steven Pienaar. E, por tabela, em toda a África negra.

 

Guerras civis, disputas tribais, fome, miséria, aids, opressão contra as mulheres - são essas as primeiras coisas que a África nos evoca. Ditadores também. Numa lista dos 20 piores déspotas do planeta, compilada em 2006, 6 tiranizavam no continente africano. Ainda tiranizam, mas essa África, com seus horrores conradianos e o pitoresco primitivismo mitificado por Kipling, Rider Haggard e Evelyn Waugh, tende a desaparecer como desapareceu o apartheid. Aí então poderemos estirar a língua, ou melhor ainda, dar uma banana para os historiadores Andrew Roberts, Robert Calderisi e outras viúvas do colonialismo europeu, que até hoje professam uma descabida fé nas virtudes superiores dos impérios que por décadas a fio dominaram, a ferro e fogo, as savanas e o deserto africanos.

 

Apesar do colossal atraso (18 dos 20 países mais pobres do mundo ficam lá), da persistência dos cruéis rituais zulus de iniciação sexual, do flagelo da aids e de um baita etc., a África afinal não se deteriorou por completo depois que os bwanas a deixaram entregue à própria sorte, obrigada a superar obstáculos criados e amplificados pelo colonialismo predatório de ingleses, franceses, holandeses, portugueses e alemães. Quem podia imaginar, três décadas atrás, que a África do Sul fosse abolir o apartheid e tornar-se um dos países politicamente mais estáveis e democráticos do mundo, um modelo para os vizinhos, uma meca turística, um polo de produção cinematográfica - e, agora, sede de uma Copa do Mundo, após ter sediado uma Copa das Confederações?

 

Na África nasceu o verdadeiro Adão. Também lá brotaram as raízes da melhor música popular de todos os tempos. Os cromossomos do jazz e do samba saíram de suas aldeias, o blues surgiu no Mali e a rumba, no Senegal. Na constelação da World Music o canto de Salif Keita, Kandia Kouyate e Ndala Kasheba, o som das guitarras de Sam Mangwana e Boubacar Traore e o juju nigeriano de King Sunny Ade brilham com notável intensidade, reverberando nos iPods caucasoides. Hugh Masekela, o Mandela da música de protesto contra o apartheid, suposto precursor do hip-hop, abafou a banca no Barbican de Londres, no início de dezembro. Até ópera os africanos já estão exportando.

 

Enganam-se os que pensam que africanos só se sobressaem em artes primitivas (música, artesanato) e esportes de corrida. O que dizer de Timbuktu, por exemplo? Como milhões de ocidentais ignorantes, cresci achando que Timbuktu era um lugar fantasioso, uma aventuresca locação de cinema (com Victor Mature e Yvonne De Carlo em primeiro plano), uma Xangri-lá africana (tão presente no imaginário de Pato Donald como no do escritor Paul Auster), até descobrir que ela não só existe de verdade, num dos países mais pobres da África, Mali, como foi uma espécie de Paris da Idade Média. Quando a Renascença mal começava na Itália, Timbuktu já era um centro cultural e religioso sem paralelos na Europa, com o maior acervo da palavra escrita do seu tempo e o que de mais rico o islamismo produzira até então. Está fazendo 20 anos que a Unesco transformou-a em patrimônio mundial.

 

Na África nasceram cinco Prêmios Nobel de Literatura, dois deles (Nadime Gordimer e J.M. Coetzee) na África do Sul, detentora também de três Nobel de Medicina. Disgrace, de Coetzee, aqui traduzido pela Cia. das Letras com o título de Desonra, foi o melhor romance que eu li nos últimos dez anos. É uma cultura forte, a sul-africana, com autores de projeção internacional também no teatro, como o dramaturgo Athol Fugard, cuja filha, Lisa Fugard, despontou há três anos como a mais grata revelação da prosa local, com as duas histórias que juntou em Skinner's Drift.

 

De bola são apenas razoáveis. Mas sediar a Copa foi como erguer uma taça, um triunfo nacional e continental. Foi uma longa caminhada, uma lenta conquista, muito ajudada, ainda que de forma capciosa, pelo Brasil. Ou melhor, pelo carioca de origem belga Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange, vulgo João Havelange. Foi ele quem "descobriu" o futebol africano. Então presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), a CBF da época, e desde sempre de olho na presidência da Fifa, Havelange aproximou-se do futebol africano, e não só do africano, no fim dos anos 60, ao descobrir que precisava dos votos do Terceiro Mundo para superar os concorrentes europeus. Sua campanha contou com um cabo eleitoral inigualável, Pelé, ídolo em todos os quadrantes, e mais ainda no continente africano.

 

Poderes quase divinos tinha Pelé. Em 1967, a Nigéria e o Estado dissidente de Biafra suspenderam sua carnificina durante 24 horas, para que os dois lados da guerra pudessem assistir a uma exibição do Santos de Pelé, que excursionava pela África. Naquele tempo, os países pobres não compareciam aos congressos da Fifa, sempre em cidades europeias, por falta de dinheiro para custear passagem e estadia. Ao lado de Pelé, Havelange prometeu mundos e fundos aos delegados africanos. Se eleito, ampliaria o número de disputantes da Copa do Mundo, incluindo uma ou mais seleções africanas. Para assegurar os votos africanos, bancou a viagem de todos os delegados ao congresso da Fifa na Alemanha, em 1974.

 

E assim foi como Havelange derrotou o britânico sir Stanley Rous e assumiu a presidência da Fifa, à frente da qual permaneceu 24 anos, globalizando - e sobretudo comercializando - o futebol. Maiores detalhes sobre essa e outras jogadas no livro Como Eles Roubaram o Jogo, de David A. Yallop, lançado (e logo traduzido pela Record) no ano em que Havelange passou o bastão ao suíço Joseph Blatter.

 

Se na Copa de 1970 uma seleção africana, do Marrocos, já se fizera presente, repetindo-se a média nos dois mundiais seguintes, com a participação de Zaire e Tunísia, duas outras novidades despontariam simultaneamente no mundial da Espanha, em 1982: Argélia e Camarões, esta com o primeiro craque africano de projeção internacional, Roger Milla, que estaria novamente presente nas Copas de 1990 e 1994. Nos últimos sete torneios, o mínimo que a África classificou foram duas seleções de cada vez, aumentando a quota para três em 1994 (Nigéria, Camarões e Marrocos), quatro em 1998 (Nigéria, Camarões, Marrocos e África do Sul), cinco em 2002 (Nigéria, Camarões, África do Sul, Senegal e Tunísia) e 2006 (Angola, Costa do Marfim, Gana, Togo e Tunísia).

 

Desta vez, seis países estarão representados: Camarões, Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Argélia e os anfitriões da festa, treinados pelo brasileiro Carlos Alberto Parreira. Em campo teremos pelo menos uma dezena de jogadores que há tempos brilham nos gramados europeus, como o camaronês Samuel Eto’o, o sul-africano Steven Pienaar, os marfinenses Didier Drogba, Emmanuel Eboue e Yaya Toure e os ganenses Essien e Montari. Foram esses, todos milionários, os que mais se beneficiaram das ambições internacionalistas de João Havelange.

 

Mais dia, menos dia, um deles terá as mesmas honras do astro do rúgbi sul-africano François Pienaar, que acaba de ser imortalizado num filme dirigido por Clint Eastwood, Invictus. Sem nenhum parentesco com seu homônimo futebolístico Steven Pienaar, François era o capitão da equipe que conquistou o mundial de rúgbi em 1995, concretizando em campo os ideais de conciliação e harmonia entre brancos e negros propostos por Nelson Mandela. Matt Damon interpreta o jogador e Morgan Freeman encarna o presidente sul-africano.

 

Invictus é apenas a mais badalada das produções cinematográficas rodadas na África do Sul em 2009. Outras estão a caminho. O romance Desonra já foi adaptado à tela por Steve Jacobs, com John Malkovich no papel do professor, e até já se fala de uma cinebiografia de Winnie Mandela, a polêmica primeira mulher de Nelson. Um grandioso estúdio de cinema será em breve inaugurado na Cidade do Cabo. Os sul-africanos parecem seriamente empenhados em mostrar ao mundo que também são capazes de sediar uma Hollywood.

 

*Jornalista, foi da equipe de O Pasquim e é autor, entre outros livros, de Lado B (Record) e As Penas do Ofício (Agir). É articulista do Aliás e do Caderno 2

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