Vozes de caserna

As Forças Armadas não pertencem só aos chefes, mas são integradas por brasileiros de todas as origens

Luiz Carlos Moreira, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2012 | 03h07

A imprensa registrou, por ocasião da cerimônia de instalação da Comissão da Verdade, que os chefes militares permaneceram impassíveis, até mesmo quando, em sua maioria, a plateia aplaudia os oradores. Isso me leva a algumas reflexões no tempo. O pensamento e a ação de militares não podem apoiar-se, tão somente, nas convicções políticas dos seus chefes, porque senão a democracia, que duramente conquistamos, será solapada e tal conduta há de se constituir, sempre, numa ameaça às instituições. As ações de governantes de conteúdo político-ideológico contrário a esse pensamento, justificadas pela defesa dos interesses da sociedade brasileira, não podem ser objeto de censura nem de "quarteladas".

O Brasil registra ao longo de sua história muitas dessas intervenções, sendo historicamente a mais recente a derrubada de um governo legítimo, o governo do presidente João Goulart, que pretendia levar adiante as "reformas de base". E os militares o fizeram no momento em que o mundo se achava dividido em plena Guerra Fria, entre comunistas e não comunistas, como afirmavam. Apoiados na história de que o País caminhava para o comunismo, o que foi incentivado e estimulado pelos Estados Unidos, como confessa em seu livro o embaixador Lincoln Gordon, após fracassadas tentativas de levar ao poder as forças políticas afinadas com esse pensamento, quando deveriam fazê-lo pela via democrática da eleição, recorreram à força, implantando em 1964 a ditadura.

As Forças Armadas não pertencem somente aos seus eventuais chefes. Elas são integradas por brasileiros de todas as origens sociais e nelas, em seus diferentes escalões, temos dedicados e íntegros profissionais, sendo que muitos são levados a aderir a esse pensamento, até para preservarem suas carreiras. E foi o que se deu em 64, ressaltando que a maioria desses honrados companheiros não sujou suas mãos na prática das barbáries havidas.

O Brasil não é mais uma republiqueta latino-americana, elevado que foi à nação de Primeiro Mundo. Hoje integra uma organização mundial, que se mostra vigilante e atenta quanto à soberania dos povos, onde o maior primado é o da defesa e acatamento às leis e à ordem democrática, além do respeito aos direitos humanos. Se alguns ainda não sabem conviver com os contrários, que aprendam. Professar credo político divergente é direito constitucional. Assim regula nossa Carta Magna, ao estabelecer que as diferenças terão que ser respeitadas e nenhum poder pode se sobrepor aos demais. O Brasil, com a instalação da Comissão da Verdade, caminha, agora, rumo a seu verdadeiro destino.   

LUIZ CARLOS MOREIRA É CAPITÃO DE MAR E GUERRA REFORMADO, ADVOGADO DA ASSOCIAÇÃO DEMOCRÁTICA NACIONALISTA DOS MILITARES (ADNAM), PRESIDIDA PELO BRIGADEIRO RUI MOREIRA LIMA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.