Vozes de lá e de cá

Pablo Neruda fazia seus poemas com força visceral, mas os recitava como se estivesse em um repouso infinito, numa perpétua despedida

Ariel Dorfman, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2014 | 16h00

Há 110 anos, em 12 de julho de 1904, o mundo escutava pela primeira vez a voz do recém-nascido que algum dia se chamaria Pablo Neruda. Bem, o mundo não: os que ouviram aquele vagido do futuro poeta foram a parteira e a mãe do menino, que foi batizado com o nome inverossímil de Neftalí Reyes.

É essa voz que desejo evocar agora neste aniversário mais que centenário, um enigma e uma mensagem que se escondem nas profundezas da fala tão especial e inesquecível de Neruda.

Não fui amigo pessoal do poeta. Conheci-o quando eu era adolescente, muito de passagem: diversas visitas com outros estudantes a sua lendária casa de Isla Negra, algumas ocasiões em que topei com ele em apartamentos de amigos comunistas de meus pais, um par de palavras de admiração e agradecimento trocadas depois de um recital. Em cada uma dessas oportunidades eu pude ouvi-lo, às vezes de maneira superficial, outras, mais extensamente, declamar seus versos. E o que mais me chamou a atenção, quase de imediato, era como a sensualidade vulcânica da torrente de suas palavras escritas contrastava com a monotonia quase tediosa, um zumbido sem ênfase e sem graça com que o autor insistia em enunciar sua obra. Era como se uma tartaruga procurasse relatar a corrida alucinante de uma lebre, passo a lento passo, palavra após calmante palavra, sem a menor paixão, num ritmo sonífero. Aqueles versos tão sutis, caudalosos, desatados, sacudidos entre respirações e soluços, mereciam, assim eu pensava, uma encarnação sonora equivalente, igualmente dramática e opulenta.

Como poderia o criador de uma lírica que me estremecia, me inspirava e me cadenciava na solidão, no amor e na luta colocar-se a tanta distância da emoção que suscitava? Era algo que discuti com prazer com minha noiva e futura mulher, Angélica, para quem li, justamente, Los Versos del Capitán, os Veinte Poemas de Amor e as Residencias porque ela incorporava, para mim, tudo que era belo e bendito e afluente no universo.

Tivemos finalmente ocasião de desvelar o mistério da voz de Pablo certa tarde em meados do inverno chileno de 1964. Nesta época eu estudava literatura nas aulas e embaixo das árvores do Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, a mesma faculdade de humanidades onde Neruda havia feito seus estudos. Por isso, não foi difícil convencê-lo a fazer uma apresentação em sua antiga casa, como parte da campanha presidencial de Salvador Allende (que ainda demoraria seis anos para triunfar e se colocar à frente do Chile).

Na época, eu era, com meus fogosos 22 anos, o chefe dos allendistas do Pedagógico e como tal me coube, com Angélica, buscar o grande poeta que havia prazerosamente aceitado nosso convite. Neruda e sua mulher, Matilde, viviam, quando em Santiago, num apartamento do bairro de Bellavista, o mesmo onde velariam, nove anos depois, seus restos em meio a uma inundação desatada pelos militares de Pinochet, pensando que com isso imporiam outra humilhação ao maior poeta do Chile.

Mas essas tristezas tremeluziam num futuro remoto e inconcebível, e a conversa com Pablo e Matilde versou sobre outras coisas.

Neruda havia estipulado uma condição para comparecer ao recital: ele estava mal de uma perna e caminhava com a ajuda de bengala; seria imprescindível, portanto, ir buscá-lo de carro. Não tendo veículo próprio, recorri a meu pai diplomata, dono de um imenso Oldsmobile, carro muito luxuoso para o Chile da época.

Neruda gostava de objetos bonitos, quer eles fossem figuras de proa de barco ou garrafas cheias de pedras belíssimas de todas as latitudes do mundo, e também, embora não creia que guiasse, dos elegantes carros americanos dos anos 1960. Por isso ele ficou muito contente com o de meu pai, apesar de estranhar que um estudante como eu pudesse contar com semelhante carruagem. Eu lhe expliquei como havia conseguido o veículo, acrescentando que tinha vergonha de chegar à universidade em algo tão opulento, o que me fez escondê-lo muitas vezes a vários quarteirões de distância para que os outros estudantes não zombassem de mim e de minhas origens “burguesas”.

Jamais esquecerei o sorriso de Neruda e seu conselho de que de nada servia esconder quem se era. Os únicos mistérios que vale a pena ocultar de olhos alheios, ele disse, são os mistérios das origens da própria criatividade, o que nós temos no mais íntimo. E passamos a falar de temas mais agradáveis e menos graves: o Nobel possível, os vaivéns políticos do momento e, como não, de assuntos culinários. Angélica, cujo pai era amigo de Neruda, o havia visto várias vezes devorando umas enguias ao fogo brando no Restorán Miraflores, em Santiago. Ao comentar isso com o poeta, ele nos confidenciou a receita do prato, acrescentando que o mar não servia apenas para inspirá-lo com suas ondas e sua luz, mas era também uma fonte infinita de sabores e prazeres. 

Eu me lembro que quase lhe perguntei, com juvenil atrevimento, sobre sua voz, por que não lhe dava mais efusão e arrebatamento em suas leituras públicas. Mas por uma vez soube morder minha impertinente língua. Meu silêncio foi recompensado pouco depois, quando Angélica e eu pudemos, com várias centenas de revolucionários imberbes, ouvir seu feitiço poético.

Com efeito, o vate nos ofertou uma enfiada monocórdica e minguada, quase flácida, de palavras que, escritas eram carnais e ardentes.

Como as ondas de um lago num dia sem vento, uma e outra e outra, cada uma expressada como se não houvesse diferença, nem turbulência nem matizes.

Neruda nos presenteou durante uma boa hora e meia com uma seleção de seus versos mais conhecidos, além de vários inéditos que estava a ponto de publicar, seu Memorial da Ilha Negra. Um dos poemas chamava-se Insônia, título de que me lembro muito bem porque eu padecia do mesmo fenômeno e me fazia naquela época, e ainda agora, a mesma pergunta da primeira estrofe:

No meio da noite me pergunto,

que acontecerá com o Chile?

Que será de minha pobre pátria sombria?

Mas o mais crucial desse recital veio ao final, quando compreendi, de imediato, a razão profunda, de raízes obscuras, que animava o estilo declamatório de Neruda.

Foi quando ele repetiu algumas estrofes do Canto Geral, provenientes de A Terra se Chama João, especificamente um poema que se articulava desde a perspectiva de Margarita Naranjo, uma mulher das minas de salitre de quem, em 1948, a polícia do presidente González Videla sequestrara o marido, Antônio. Margarita havia começado uma greve de fome que não terminaria, Neruda disse, até que lhe devolvessem seu homem. Em vez do amado, o protesto lhe trouxe a morte, da qual Neruda a fazia falar como se estivesse viva, de dentro e debaixo do deserto onde estava enterrada.

Estou morta, eram as palavras iniciais do poema. E concluía: 

Agora, 

aqui estou morta, no cemitério do pampa 

não há senão solidão em volta de mim, que já não existo,

que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.

Absorvendo aquelas palavras ali, na Universidade do Chile, presenciando como Neruda se fazia de médium e intermediário do fantasma de uma mulher desamparada e desaparecida, tive uma revelação que ainda hoje me acompanha e consola, 50 anos depois.

Compreendi que Neruda, ao escrever seus poemas, não podia ser mais inspirado, vital, vibrante, visceral. Mas, ao recitá-los, o fazia de um repouso infinito, como se estivesse perpetuamente se despedindo, se expressando do além, como se, à maneira de Margarita Naranjo, já estivesse morto. A voz com que pronunciava cada palavra não queria interferir em nossa apropriação, não queria influir no que cada leitor e ouvinte faria com esse presente, nos estava dando permissão para que fizéssemos nosso seu som.

Creio, quero crer, que Neruda estava nos preparando para um tempo em que ele não estivesse vivo, em que só disporíamos das palavras que nos deixou para recordá-lo. Com Margarita Naranjo e todos os mortos da humanidade ele nos estava dizendo então, e agora, cem anos depois de seu nascimento, aqui estou, na solidão do cemitério, e já não existo, somente existo se você e você e você me fizerem companhia, me mantiverem vivo como naquele dia longínquo em que minha mãe escutou pela primeira vez minha voz nascida para aplacar a dor da terra e da eternidade. Só existo se Vocês me derem nascimento. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*

Ariel Dorfman, escritor chileno, é autor, entre outros livros, de 'Entre sueños y traidores: un strip-tease del exilio' (Seix Barral)

Mais conteúdo sobre:
pablo nerudaariel dorfmanchile

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.