Vozes do desterro

Cubanos chegados à Espanha falam do cárcere, consideram-se desterrados e prometem lutar pelos que ficaram

Maite Rico, EL PAÍS

17 de julho de 2010 | 16h00

"Será que não conseguiram nos levar para mais longe?", murmura Blanca Reyes, representante europeia das Damas de Branco, ao entrar na hospedagem onde se alojaram os primeiros sete presos libertados pelo governo cubano. O local, de fato, é desolador: um polígono industrial nos confins do bairro madrilenho de Vallecas, perto de um terreno baldio seco.

 

Mas os dissidentes não reparam nisso: 72 horas atrás estavam todos em uma prisão castrista, dessas prisões vedadas aos observadores internacionais dentro das quais os detidos acumularam uma história de horrores desde que foram detidos, na Primavera Negra de 2003. "São estruturas desumanas, e digo isso como jornalista, não como preso", afirma Ricardo González, de 60 anos, correspondente da organização Repórteres Sem Fronteiras na ilha. "Superlotação, goteiras, umidade, celas nas quais os detentos são obrigados a defecar num buraco, no mesmo lugar onde dormem..."

 

Isso é considerado normal para todos os reclusos. Mas, para aquele grupo de 75 jornalistas e defensores dos direitos humanos, sentenciados a penas de até 28 anos, o governo aplicou o regime "de maior severidade", isolando-os em celas especiais de castigo. Ricardo Gonzáles passou três meses numa cela na qual as luzes permaneciam acesas 24 horas por dia. Por sua vez, Léster González, de 33 anos, foi confinado em um cubículo sem luz. "De segunda a sexta, me tiravam da cela por alguns momentos diários, para tomar banho de sol", explica.

 

Veja também:

La reconciliación cubana?

Mão episcopal

As gravatas coloridas do exílio

 

Os dissidentes ficaram detidos nas prisões mais distantes de suas cidades natais. "Recebíamos uma visita a cada três meses. As visitas conjugais ocorriam duas vezes ao ano", explica Ricardo, que ficou preso a 533 km de Havana. Num país em que o acesso ao transporte é uma agonia, isso equivale a uma tortura tanto para os presos quanto para suas famílias.

 

"O objetivo era separar os casais. Mas, em vez de nos abandonar, nossas mulheres se uniram e criaram as Damas de Branco", diz Ricardo. Junto dele está Alida, sua companheira. "Ela tem nacionalidade espanhola e queria sair de Cuba antes que eu fosse detido. Estando preso, dei-lhe permissão para deixar o país." Alida recusou. "Eu não podia deixá-lo na prisão", explica a mulher, que foi demitida do banco em que trabalhava e teve de sobreviver com a ajuda enviada pelos parentes no exterior e "pedindo empréstimos e acumulando dívidas". "O que mais me preocupava era levar para ele a bolsa com comida para quatro meses, com tudo que eu conseguia juntar", diz Alida. Nada de muito especial, dada a escassez crônica de alimentos que aflige Cuba, mas qualquer coisa é melhor que "o picadinho de soja e o peixe moído com tripas" da dieta carcerária.

 

A pressão internacional obrigou as autoridades a suavizar as condições dos dissidentes, que foram colocados com os presos comuns. "Alguns nos tratavam bem, mas outros tornavam nossa vida impossível, com a conivência dos agentes penitenciários", conta Léster, cujo olhar denota uma inquietude profunda. "Estou com medo. Não tenho dormido. Há momentos em que penso que isto é um sonho e tenho de voltar para a prisão. Sinto-me muito afetado psicologicamente", reconhece. Sua mãe, Mireya, professora da educação infantil, não se separa dele.

 

No espaço de 83 m² que abrigava 66 presos, alguns dos quais dormiam no chão, Pablo Pacheco, de 40 anos, foi escrevendo com outros dois dissidentes um roteiro daquele submundo, que conseguiu levar para o exterior num blog, chamado Voces Tras las Rejas (vozes por trás das grades). Os presos políticos cubanos, ao menos, contam com o respaldo das organizações de defesa dos direitos humanos. Mas ninguém vela pelos presos comuns. Pacheco lembra de suicídios e ferimentos autoinfligidos pelos presos para obter remédios ou fugir da dor. Num dia, um furava o próprio olho; no outro, alguém bebia produtos de limpeza com ácido clorídrico...

 

As sequelas físicas mais evidentes podem ser verificadas no corpo de José Luis García Paneque, que perdeu 40 kg em decorrência de uma infecção parasitária e desnutrição. As autoridades torturaram covardemente esse cirurgião especializado em queimaduras, lúcido e combativo, condenado a 24 anos por dirigir uma agência de notícias independente. Nem mesmo o estado em que se encontrava o livrou das agressões de presos instigados pelo aparato cubano de segurança.

 

Apesar de tudo, García Paneque mostra-se impressionantemente inteiro. Quem suportou mal o cativeiro foi o economista Antonio Villareal. Quando ele não saiu do quarto, os dissidentes explicaram: "Está muito mal. Eles o quebraram psicologicamente". Antes de mandar os dissidentes para a Espanha, o regime cubano os levou para um hospital penitenciário de Havana. "Comemos frango e tínhamos ar condicionado. Como se, em três dias, eles pudessem apagar os vestígios dos sete anos durante os quais não fomos pessoas", comenta Ricardo González. Eles receberam também um par de calças, uma camisa e uma gravata (coisa que ninguém usa em Cuba) para melhorar a aparência. "A realidade é que estamos no desterro", diz Ricardo.

 

Mas eles têm certeza de uma coisa: continuarão a lutar "por aqueles que ficaram para trás". A ditadura castrista usa presos de consciência como moeda de troca desde 1962, sem que tenha havido abertura política. "Devemos fazer com que desta vez as coisas sejam diferentes. Se querem nos usar como isca, temos que derrubar o pescador. Não há o que comemorar até que haja democracia em Cuba."

 

"Será que não conseguiram nos levar para mais longe?", murmura Blanca Reyes, representante europeia das Damas de Branco, ao entrar na hospedagem onde se alojaram os primeiros sete presos libertados pelo governo cubano. O local, de fato, é desolador: um polígono industrial nos confins do bairro madrilenho de Vallecas, perto de um terreno baldio seco.

 

Mas os dissidentes não reparam nisso: 72 horas atrás estavam todos em uma prisão castrista, dessas prisões vedadas aos observadores internacionais dentro das quais os detidos acumularam uma história de horrores desde que foram detidos, na Primavera Negra de 2003. "São estruturas desumanas, e digo isso como jornalista, não como preso", afirma Ricardo González, de 60 anos, correspondente da organização Repórteres Sem Fronteiras na ilha. "Superlotação, goteiras, umidade, celas nas quais os detentos são obrigados a defecar num buraco, no mesmo lugar onde dormem..."

 

Isso é considerado normal para todos os reclusos. Mas, para aquele grupo de 75 jornalistas e defensores dos direitos humanos, sentenciados a penas de até 28 anos, o governo aplicou o regime "de maior severidade", isolando-os em celas especiais de castigo. Ricardo Gonzáles passou três meses numa cela na qual as luzes permaneciam acesas 24 horas por dia. Por sua vez, Léster González, de 33 anos, foi confinado em um cubículo sem luz. "De segunda a sexta, me tiravam da cela por alguns momentos diários, para tomar banho de sol", explica.

 

Os dissidentes ficaram detidos nas prisões mais distantes de suas cidades natais. "Recebíamos uma visita a cada três meses. As visitas conjugais ocorriam duas vezes ao ano", explica Ricardo, que ficou preso a 533 km de Havana. Num país em que o acesso ao transporte é uma agonia, isso equivale a uma tortura tanto para os presos quanto para suas famílias.

 

"O objetivo era separar os casais. Mas, em vez de nos abandonar, nossas mulheres se uniram e criaram as Damas de Branco", diz Ricardo. Junto dele está Alida, sua companheira. "Ela tem nacionalidade espanhola e queria sair de Cuba antes que eu fosse detido. Estando preso, dei-lhe permissão para deixar o país." Alida recusou. "Eu não podia deixá-lo na prisão", explica a mulher, que foi demitida do banco em que trabalhava e teve de sobreviver com a ajuda enviada pelos parentes no exterior e "pedindo empréstimos e acumulando dívidas". "O que mais me preocupava era levar para ele a bolsa com comida para quatro meses, com tudo que eu conseguia juntar", diz Alida. Nada de muito especial, dada a escassez crônica de alimentos que aflige Cuba, mas qualquer coisa é melhor que "o picadinho de soja e o peixe moído com tripas" da dieta carcerária.

 

A pressão internacional obrigou as autoridades a suavizar as condições dos dissidentes, que foram colocados com os presos comuns. "Alguns nos tratavam bem, mas outros tornavam nossa vida impossível, com a conivência dos agentes penitenciários", conta Léster, cujo olhar denota uma inquietude profunda. "Estou com medo. Não tenho dormido. Há momentos em que penso que isto é um sonho e tenho de voltar para a prisão. Sinto-me muito afetado psicologicamente", reconhece. Sua mãe, Mireya, professora da educação infantil, não se separa dele.

 

No espaço de 83 m² que abrigava 66 presos, alguns dos quais dormiam no chão, Pablo Pacheco, de 40 anos, foi escrevendo com outros dois dissidentes um roteiro daquele submundo, que conseguiu levar para o exterior num blog, chamado Voces Tras las Rejas (vozes por trás das grades). Os presos políticos cubanos, ao menos, contam com o respaldo das organizações de defesa dos direitos humanos. Mas ninguém vela pelos presos comuns. Pacheco lembra de suicídios e ferimentos autoinfligidos pelos presos para obter remédios ou fugir da dor. Num dia, um furava o próprio olho; no outro, alguém bebia produtos de limpeza com ácido clorídrico...

 

As sequelas físicas mais evidentes podem ser verificadas no corpo de José Luis García Paneque, que perdeu 40 kg em decorrência de uma infecção parasitária e desnutrição. As autoridades torturaram covardemente esse cirurgião especializado em queimaduras, lúcido e combativo, condenado a 24 anos por dirigir uma agência de notícias independente. Nem mesmo o estado em que se encontrava o livrou das agressões de presos instigados pelo aparato cubano de segurança.

 

Apesar de tudo, García Paneque mostra-se impressionantemente inteiro. Quem suportou mal o cativeiro foi o economista Antonio Villareal. Quando ele não saiu do quarto, os dissidentes explicaram: "Está muito mal. Eles o quebraram psicologicamente". Antes de mandar os dissidentes para a Espanha, o regime cubano os levou para um hospital penitenciário de Havana. "Comemos frango e tínhamos ar condicionado. Como se, em três dias, eles pudessem apagar os vestígios dos sete anos durante os quais não fomos pessoas", comenta Ricardo González. Eles receberam também um par de calças, uma camisa e uma gravata (coisa que ninguém usa em Cuba) para melhorar a aparência. "A realidade é que estamos no desterro", diz Ricardo.

 

Mas eles têm certeza de uma coisa: continuarão a lutar "por aqueles que ficaram para trás". A ditadura castrista usa presos de consciência como moeda de troca desde 1962, sem que tenha havido abertura política. "Devemos fazer com que desta vez as coisas sejam diferentes. Se querem nos usar como isca, temos que derrubar o pescador. Não há o que comemorar até que haja democracia em Cuba."

 

* Tradução de Augusto Calil

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