Alberto Pizzoli/ AFP
Alberto Pizzoli/ AFP

Werner Herzog faz livros tão enigmáticos quanto seus filmes

Terceiro livro do cineasta alemão, 'O Crepúsculo do Mundo' conta a história do tenente japonês Hiroo Onoda, que viveu 29 anos em florestas das Filipinas

Martim Vasques da Cunha, Especial para o Estadão

04 de junho de 2022 | 16h00

Werner Herzog é um dos poucos artistas no mundo que segue fielmente o famoso princípio do apóstolo Paulo em suas epístolas: o de que “a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força do homem”.

É claro que Herzog – reconhecido mundialmente por ser o cineasta de Aguirre, a Cólera dos Deuses (1974), O Enigma de Kasper Hauser (1977), Fitzcarraldo (1981) e O Homem Urso (2005) – não deseja fazer proselitismo religioso. Pelo contrário: sua obra inteira é uma meditação sobre o fascínio da hubris, da revolta humana que deseja superar a criação divina (geralmente representada pela natureza), e que ou sai vitoriosa ou sucumbe à derrota inevitável.

Além dos filmes, o alemão também se arriscou no território da palavra escrita, com três livros excelentes (o próprio Herzog admite que sua bibliografia será o que permanecerá após sua morte, e não a sua filmografia). O primeiro foi Caminhando no Gelo (1978), um relato da sua travessia a pé de Munique a Paris, com o intento de visitar sua amiga, a crítica Lotte Eisner, que estava doente no hospital e, com isso, suspender miraculosamente a decomposição do corpo dela (spoiler: ele conseguiu ambos os feitos); depois veio Conquista do Inútil (2004), um diário alucinado e alucinante sobre como foi filmar Fitzcarraldo no Brasil e no Peru, uma experiência plena de perigo porque Herzog não só se identificou com o sonho do personagem-título (um irlandês que queria montar um teatro de ópera no Amazonas e que, para isso, precisou atravessar literalmente um navio que subisse numa montanha), como também enfrentou a selva obscura dos trópicos e o seu ator principal, o insano Klaus Kinski; e o terceiro é o recente O Crepúsculo do Mundo (2022), lançado agora no Brasil pela Todavia, e que conta a história real do tenente japonês Hiroo Onoda, cuja obsessão de cumprir uma ordem superior para ajudar a vencer o seu país na Segunda Guerra Mundial o levou a viver vinte e nove anos nas florestas das Filipinas, negando o fim do conflito até ser redescoberto e informado sobre o que realmente aconteceu.

A princípio, um leitor comum seria levado a crer que Onoda é mais um desses lunáticos que vive em um universo paralelo. Mas nada é tão simples ou determinado no mundo segundo Werner Herzog. É claro que ele relata – por meio de uma prosa que combina um estilo sucinto, sem gorduras, com uma poesia luminosa, emoldurada em um estilhaço de epifanias – toda a paranoia do tenente, toda a sua loucura, toda a sua alucinação que o torna próximo de ser um personagem extraído das páginas de um romance de Joseph Conrad.

Porém, como tudo que é observado pela perspectiva de Herzog, há uma reviravolta de sentido na trajetória de Onoda. Se geralmente pensamos que a recusa de aceitar o mundo tal como é, na atitude intransigente do soldado japonês, seria uma fuga da realidade, em O Crepúsculo o que temos é uma fuga que vai em direção para dentro do mundo e para dentro de uma realidade muito mais profunda do que pensávamos existir. 

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Herzog sublinha o tempo todo de que o tenente se vê como um “sonâmbulo”
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Afinal de contas, a imagem do crepúsculo é também muito similar à da aurora. É um símbolo do limiar, aquela situação espiritual em que as coisas novas morrem para dar um último suspiro às antigas – e vice-versa. Onoda viveu isso em seu próprio corpo. Não à toa, Herzog sublinha o tempo todo de que o tenente se vê como um “sonâmbulo”. Nesta fresta entre sonho e realidade, o leitor também descobre que todos nós estamos na mesma situação – e o cineasta alemão sugere que, no fim, talvez teremos que imitar Onoda para enfrentarmos a nossa guerra secreta enquanto estivermos aqui. Ou seja: teremos de entrar na nossa selva escura e assim imitá-la, num êxodo dentro de nós mesmos no qual descobriremos que vivemos somente em uma imitação do amanhecer.

Isso não significa que Herzog absolva ou julgue Onoda – partícipe de um exército aliado de um projeto de poder totalitário – sobre seus atos. Pelo contrário: justamente por também fazer parte de um país que dizimou milhões de pessoas num conflito global, o diretor de O Sobrevivente (2004) – um filme que, aliás, guarda muitas semelhanças com a trajetória de Onoda, em especial na fusão entre o personagem principal, o piloto Dieter, com a natureza inóspita – se reconhece ainda mais com o tenente japonês e se vê como um irmão seu na comunidade de destruição da qual todos nós faremos parte, mais cedo ou mais tarde.

É neste limiar que o “crepúsculo do mundo” (ou a aurora, o que preferir) se reafirma como a única revelação da verdadeira estrutura do real. No último parágrafo do livro, Werner Herzog junta todos os seus estilhaços de linguagem e cria um momento luminoso idiossincrático, quando a natureza enfim se mostra plena de “sonhos proféticos”. E é neste instante que ficamos a saber o que ocorre de fato quando a loucura e a sabedoria de Deus, a fraqueza e a fortaleza dos homens se integram em uma boa nova que poucos terão a coragem de ouvir.

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