Steven Wyss/Editora Iluminuras
Steven Wyss/Editora Iluminuras

Wilson Alves-Bezerra abusa dos jogos de linguagem em seu experimental 'Malangue Malanga'

O pano de fundo do livro pode ser o confronto clássico entre aqueles que veem a linguagem como reflexo da realidade e os que postulam ser a linguagem que constitui o mundo

Claudio Willer*, Especial para o Estadão

02 de outubro de 2021 | 15h00

O pano de fundo deste recente Malangue Malanga, de Wilson Alves-Bezerra, pode ser o confronto clássico, milenar, entre aqueles que veem a linguagem como reflexo de uma realidade exterior ao mundo simbólico e os que postulam ser a linguagem que constitui o mundo. A retomada mais recente desse debate se deve, entre outros, a Oswald Spengler, ao afirmar que só é possível conhecer uma religião quando se conhece a língua em que essa religião foi expressa ou formulada; a neo-kantianos como Ernst Cassirer, ao dizerem que a linguagem constitui a consciência e, portanto, a percepção do real; e, principalmente, à hipótese de Whorf-Sapir, fundamento de um relativismo linguístico, segundo o qual (simplificando) a diferentes linguagens correspondem não só diferentes culturas, porém realidades. 

A ideia de que o mundo é função da linguagem talvez subjaza a ataques frontais ao beletrismo como aqueles, no âmbito da literatura brasileira, empreendidos por Wilson Bueno e Douglas Diegues, ao se expressarem em um idioma crioulo, de fronteira, o portunhol ou brasiguaio. E, de modo mais veemente, em Malangue Malanga. Wilson Alves-Bezerra não é um fronteiriço, como Douglas Diegues; é alguém fluente, obviamente, em português e em espanhol, na condição de tradutor e especialista em literatura de língua espanhola, especialmente hispano-americana. Contudo, mais que expressar-se em portunhol, ele cria linguagem, como se juntasse peças para compor um quebra-cabeça. Há passagens no mais perfeito português, incluindo belas imagens poéticas; outras, no mais fluente espanhol; e, ainda, em inglês e outras línguas: todas, partes do idioma móvel que ele mesmo cria, no qual os dois eixos, do sintagma e paradigma, não apenas se projetam um no outro, mas se fundem, em uma vertiginosa cópula. 

Assim, o que nos traz não é apenas uma obra em língua mestiça, crioula, de fronteira ou de enclaves com dialetos. Veja-se, por exemplo, este trecho, que lembra passagens de Altazor de Vicente Huidobro, com sua propositada acumulação dos fonemas, até reduzi-los a glossolalias:

A impossibilirápida, a impávida, ávida, a avilucatifuga, a impossibilitura, ampossibilimétrica impossibiligrande, a impossibiliglande, a impossibilifarte, a carta ao impossibilimedo, el secreto de la impossibilialma.

E segue inventando palavras, de modo paroxístico: “....as menstras, impossibilimúltiplas, avicolivúlvicas, apetibilimúltiplas...”, para terminar o trecho retornando ao portunhol: “ Y sigue el silêncio de los Anjos em la boca podrida de los boquirrotos em la niebla de uma tarde morta.”

Por vezes, incorpora sons e vocábulos de onde esteve ou por onde passou; e do que leu, evidentemente,. Torna-se eslavo, traz a consonantal língua tcheca: “Práva, práni, prekrocení”. Sincretiza-se com o inglês, certamente dos Estados Unidos: “ “Finally almost a human being. Finally a ghost y un gusto a partir.”

Uma chave ou pista para a interpretação dessa aventura literária, ou anti-literária, está nesta passagem: “La húmeda lengua del desierto; a língua fria del infierno; lalíngua materna del mamilo, lalangue lasciva dos senderos que bifurcan.” “Lalangue” é uma categoria algo enigmática criada por Jacques Lacan, e que já deu margem a bastante discussão e interpretações. Seria a língua da magia? Das crianças? Dos amantes? Linguagem primordial ou total? De todo modo, é a outra língua, a linguagem fora da significação, aquela cujo sentido não alcançamos, e que pertence ao âmbito do inconsciente. Remontando à assim-chamada tópica lacaniana, ou terceira tópica, que distingue o real, simbólico e imaginário, lembramos que o simbólico é constitutivo do real. 

Algo como a “mais realidade”? Em Discours sur le Peu de Realité, seu texto mais enigmático, no qual declara que “enunciados medíocres fazem a realidade medíocre”, André Breton sugere uma escrita a partir do entreouvido, das vozes flutuantes captadas enquanto se transita pela urbe. Abandonou esse caminho, em favor da captação das vozes do inconsciente freudiano. Wilson Alves-Bezerra o retoma. 

*CLAUDIO WILLER É POETA, ENSAÍSTA, CRÍTICO LITERÁRIO E TRADUTOR

Tudo o que sabemos sobre:
literaturaWilson Alves Bezerra

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.